#NascidaEm1985 – parte 8 – “Exagerado”

Hoje a #NascidaEm1985 é de um artista nacional sensível, transgressor, um dos compositores que me inspira: Cazuza! Em 1985, ele deu o primeiro passo de sua carreira solo, após brigar com o Barão Vermelho durante a gravação de um álbum. Assim, a música “Exagerado” nasceu, em 1985, como faixa-título do primeiro álbum solo desse grande cara.

A série de documentários “Por Trás da Canção”, do Canal Bis, exibiu um episódio que fala sobre a história da composição dessa música, que contou também com a colaboração do Ezequiel Neves, empresário dele. Nessa ocasião, Leoni comentou que Cazuza pensava em fazer da música, cuja letra estava pronta, algo que lembrasse o bolero, mas o arranjador não concordou e decidiu levar para o lado do rock mesmo. E ficou incrível! Letra e melodia se complementam para levar ao público esse tom visceral e profundo do Cazuza, um grande letrista, entre meus favoritos!

Acho que essa ideia de “E por você eu largo tudo/ Vou mendigar, roubar, matar/ Até nas coisas mais banais/ Pra mim é tudo ou nunca mais/ Exagerado/ Jogado aos teus pés/ Eu sou mesmo exagerado/ Adoro um amor inventado” é muito leonina, cheia de drama e paixão, e também atemporal. Essa é a mágica da composição, você escrever uma obra de arte com a qual as pessoas se identifiquem, não importando a época. Isso faz de um artista o porta-voz de sua geração e também do espírito humano.

Vale a pena conferir o “Por Trás da Canção”:

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Google lança site para criação de música

Quem navega pela internet com o browser do Google ganhou um site para criação musical que funciona de forma colaborativa. Basta escolher um instrumento e chamar os amigos para tocar junto.

No “JAM with Chrome” há 19 opções de instrumentos, de violões, baixos e guitarras até kits de bateria e teclados. Dá para tocar no modo fácil, clicando nos botões com ajuda do mouse, ou no “pró”, em que se toca pelo teclado.

O Google usou recursos como HTML5, a API Web Audio, Websockets, Canvas e CSS3 para criar a página. Para saber mais, acesse aqui.

Fonte: Olhar Digital

Inscrições abertas para a orquestra da OSB

O preenchimento de vagas para a Orquestra Sinfônica Brasileira nos seguintes instrumentos: violino, viola, violoncelo, contrabaixo, oboé, fagote, trompa e trombone, será feita entre os dias 1º e 15 de agosto.

Os interessados em concorrer poderão se candidatar pelo email selecao@osb.com.br e devem cumprir as exigências do edital disponível no site da OSB: www.osb.com.br. Os músicos de todo o Brasil poderão participar da seleção, que passará pela etapa de análise curricular e provas de audições.

O salário mensal base é de 6 mil reais, podendo chegar até 11 mil, um dos três maiores do Brasil. Mais informações pelo site: www.osb.com.br

Fonte: Backstage

Ibermúsicas abre inscrições para a seleção de projetos musicais

O Ibermusicas, Programa de Fomento das músicas Ibero-Americanas, está convidando interessados a participarem da seleção de projetos. As inscrições vão até o próximo dia 27 no site da Funarte (http://www.funarte.gov.br).

O objetivo do projeto é apoiar a criação musical e a produção de obras de artistas ibero-americanos. No site, há os requisitos para os projetos participantes e, uma vez adequados, poderão ser enviados somente por correios para Fundação Nacional de Artes – Funarte – Rua da Imprensa, 16/ sala 1308, Centro – Rio de Janeiro, RJ.

Fonte: Backstage

Reconhecendo um verdadeiro artista pela foto

por Mariana Paes

Você já olhou as milhares de fotos de grandes sucessos passageiros que pipocam pela internet? Não vou citar nomes atuais, para não ofender fãs, mas olhem fotos de artistas com um hit só… uma, duas, três, quatro, um milhão de fotos… procure peculiaridades: um olhar diferente, um sorriso, outra luz, outra pose, uma intensidade diferente nos gestos, tensão nas veias do pescoço. Achou? Provavelmente não!

Observando atentamente um belíssimo livro de fotos de músicos renomados de todo o mundo cheguei a conclusão de que artista de verdade transborda e derrama na foto! Quantas diferentes expressões em fotos tão incríveis da Elis, que diversidade de intensidade na movimentação do corpo e nos olhos do Ney Matogrosso, quantas diferentes expressões delicadas e sutis no rosto da Adele, quantas veias nas mãos do Hendrix, as diferentes expressões despretenciosamente sexies do Bon Jovi, quantos diferentes ângulos do Michael Jackson, quanta força nos lábios da Ella, a variedade de sorrisos tímidos do Chico Buarque, o balançar louco dos cabelos ensabados do Steven Tyler, os obscuros olhares da Maysa, a efervecência do Elvis, as mãos da Gal no microfone, os pezinhos de Caetano ao banquinho, a meiguice das expressões do Toquinho, a delicadeza dos dedos do Tom, as marcas de expressão do Roger Waters, os braços balançantes da Vanessa da Mata, a força do Renato Russo segurando o pedestal, as amídalas do Dave Grohl, a dancinha do Axl Rose…

Artista de verdade se deixa envolver pela música, é tomado pela intensidade da canção e transborda de uma forma tão visceral que marca as fotos. Artista fabricado faz cara de “mini-craque”, Barbie, Ken ou aquela cara blasé de quem quer ser um astro da MPB ou a típica de pseudo-revolucionário dos roqueiros de um sucesso só.

Pense nisso!

Feira da Música 2012 abre inscrições para bandas e artistas solo

A Feira da Música 2012 abriu nesta semana as inscrições para grupos e artistas do Ceará, demais estados do Brasil e de outros países, que estejam interessados em se apresentar na Mostra de Música Independente.

Ao todo, são 40 vagas disponíveis, que serão distribuídas entre os três Palcos da Mostra (Rock, Instrumental e Brasil Independente).

A primeira novidade é que as bandas interessadas em tocar na  Feira devem enviar CD com músicas de sua autoria produzidas há no máximo dois anos (entre 2010 e 2012), e só serão válidas as inscrições de bandas que não tenham se apresentado na edição passada do evento. O objetivo é estimular a circulação e a divulgação do que tem de realmente novo na música brasileira.

Para os músicos residentes em Fortaleza, outra novidade é que desta vez as inscrições para bandas locais, tradicionalmente vinculadas à inscrição na Mostra de Música Petrúcio Maia, desta vez poderão acontecer também diretamente no formulário da Feira. A Mostra Petrúcio Maia, prévia seletiva da Feira que acontece em maio, selecionará 10 bandas locais para compor a programação da Feira, e recebe inscrições até o dia 16 de março.

Diferente das demais edições, o processo de inscrição este ano será feito online, através do formulário disponível no site da Feira. Caberá aos artistas enviar via correio o CD com, no mínimo, três faixas de áudio para curadoria e, opcionalmente, outros materiais de divulgação.

As inscrições estarão abertas até o dia 20 de março de 2012.

Mais informações no site www.feiradamusica.com.br.

Fonte: Cultura e Mercado

SP abre inscrições para processos seletivos de orquestras e corais do Estado

A Santa Marcelina Cultura, responsável pela Gestão da Escola de Música do Estado de São Paulo – Tom Jobim (EMESP Tom Jobim) em parceira com a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, abre as inscrições para processos seletivos de Coral, Banda e Orquestra Jovem do Estado de São Paulo.

O processo visa selecionar e classificar os alunos por meio de avaliação do conhecimento musical e técnico do candidato.

Confira abaixo as informações sobre os quatro cursos oferecidos:

Coral Jovem do Estado
Inscrições: até as 17h, do dia 6 de fevereiro
Requisitos para inscrição: idade de 18 a 32 anos
Os bolsistas receberão ajuda de custo mensal no valor de R$ 600 por dez meses (março a dezembro de 2012).
Para se inscrever clique aqui
Para outras informações sobre o curso clique aqui

Orquestra Jovem Tom Jobim
Inscrições: até as 16h, do dia 27 de janeiro
Limites de idade para ingresso na OJTJ: os candidatos devem ter até 26 anos (nascidos a partir de 01/01/1985).
Os bolsistas receberão ajuda de custo mensal no valor de R$ 600 por dez meses (de março a dezembro de 2012).
Para se inscrever clique aqui
Para outras informações sobre o curso clique aqui.

Orquestra Jovem do Estado
Inscrições: até as 16h, do dia 31 de janeiro
Limites de idade para ingresso na OJESP: os candidatos devem ter até 26 anos (nascidos a partir de 01/01/1985).
Os bolsistas receberão ajuda de custo mensal no valor de R$ 1 mil de março a dezembro de 2012.
Para se inscrever clique aqui
Para outras informações sobre o curso clique aqui

Banda Sinfônica Jovem do Estado
Inscrições: até as 16h, do dia 27 de janeiro
Limites de idade para ingresso na BSJESP: os candidatos devem ter até 26 anos (nascidos a partir de 01/01/1985).
Os bolsistas receberão ajuda de custo mensal no valor de R$ 600 de março a dezembro de 2012.
Para se inscrever clique aqui
Para outras informações sobre o curso clique aqui

Fonte: Portal do Governo de São Paulo

Senado aprova seguro-desemprego para artistas e músicos

por Márcio Falcão

A Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou nesta quarta-feira (21) projeto de lei que prevê a concessão de seguro-desemprego para artistas, músicos e técnicos em espetáculos de diversão.

Pela proposta, a categoria terá direito ao benefício no valor de um salário mínimo por até quatro meses. A medida deve beneficiar cerca de 65 mil trabalhadores.

O projeto foi analisado em decisão terminativa na comissão. Se não receber recurso para ser analisado em plenário em cinco dias, segue para tramitação no Câmara.

Quem quiser requisitar o auxílio terá de comprovar que trabalhou em atividades da área por, pelo menos, 60 dias nos 12 meses anteriores à data do pedido do benefício e que não está recebendo outro benefício previdenciário de prestação continuada ou auxílio-desemprego.

Outra exigência é que tenha efetuado os recolhimentos previdenciários relativos ao período de trabalho e que não tenha renda de qualquer natureza.

Segundo a relatora da proposta, senadora Ana Amélia (PP-RS), a categoria é sujeita a desemprego permanente, da ordem de 80 a 85%. Ela destacou ainda que as relações de trabalho nessas áreas geralmente são informais e de curta duração.

Na avaliação da senadora, apesar da imagem glamurizada, esses profissionais “se encontram em situação de grande vulnerabilidade social”.

Fonte: Folha de S. Paulo

União Europeia sinaliza ampliação de duração de direitos autorais musicais

BRUXELAS/LONDRES (Reuters) – Os músicos devem vencer na semana que vem a disputa por um maior período de duração dos direitos sobre a sua obra, ajudando artistas e gravadoras num momento de declínio do faturamento no setor fonográfico, e deixando a Europa com uma legislação mais parecida com a norte-americana.

Artistas como Paul McCartney e Cliff Richard há anos pleiteiam a prorrogação do prazo de proteção da obra, que hoje é de 50 anos, mesmo que o artista ainda esteja vivo.

Um funcionário da União Europeia disse nesta sexta-feira, pedindo anonimato, que “embora alguns países sejam contra, parece provável que seja aceita a prorrogação da proteção dos direitos autorais de 50 para 70 anos”.

Ministros de países da UE devem votar a questão na segunda-feira em Bruxelas.

No ano passado, o faturamento do setor fonográfico mundial teve queda de 9 por cento, ficando em 15,9 bilhões de dólares. O declínio é atribuído à pirataria, já que 95 por cento das músicas baixadas na internet chegam ao consumidor de forma ilegal, segundo a entidade setorial IFPI.

“Ampliar o prazo de proteção para 70 anos reduziria a lacuna entre a Europa e seus parceiros internacionais, e melhoraria as condições para investimentos em novos talentos”, disse Frances Moore, executiva-chefe da IFPI, nesta sexta-feira.

Nos EUA, a proteção do direito autoral para músicas perdura por 95 anos após a gravação. No caso de obras escritas, o prazo é de 70 anos após a morte do autor.

Os catálogos mais antigos das gravadoras vêm sendo valorizados devido à facilidade da sua distribuição pela internet. Além disso, fãs mais velhos têm mais propensão a pagar pela música digital do que os adolescentes.

Mas Mark Mulligan, analista do setor fonográfico, disse à Reuters que o melhor que as gravadoras teriam a fazer seria voltar suas energias para os novos desafios da era digital.

“Será que foi inteligente ter investido tanto esforço para tentar defender o patrimônio histórico do setor fonográfico, quando as mudanças provocadas pela tecnologia exigem atenção? Existe o risco em dar tanto foco e se esforçar tanto para tentar proteger o que foi feito no passado”, comentou Mulligan.

Fonte: Reuters

O músico Cesar Camargo Mariano fala de sua formação autodidata, da paixão pelo cinema e da relação com Elis Regina

por Francisco Quinteiro Pires, de Nova York

Ao escrever um livro de memórias, Cesar Camargo Mariano apresentou-se como coadjuvante da própria história. Ele tem alma de artista. Sente muita dor quando alguém critica sua obra, como se sua existência estivesse em questão. Ele soube, porém, abdicar do egocentrismo para narrar suas experiências.

Memórias, que está saindo pela editora LeYa, é um exercício de humildade. Sem os parceiros que encontrou em quase 68 anos de vida, que completa no dia 19 deste mês, Cesar Camargo Mariano pode dar a impressão ao leitor de que não é um dos músicos essenciais da MPB.

O lançamento de Memórias será diferente. Em vez de sentar à mesa de uma livraria e distribuir autógrafos, concebeu um show com 14 músicas inéditas. O instrumentista sobe ao palco do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, nos dias 9, 10 e 11 de setembro.

No mesmo espaço, vai exibir alguns desenhos a lápis criados especialmente para o volume. Desde 1994, vive na cidade de Chatham, em Nova Jersey, a uma hora e meia da Penn Station, em Manhattan. Ele montou um estúdio no porão da casa, onde recebeu a CULT.

“Não tenho nenhuma pretensão de ser escritor”, diz. “Ao contrário do vinil, da fita cassete e do CD, o livro é a maneira mais eficiente de eternizar uma obra.” Camargo Mariano não tem vontade de que os outros sigam seus conselhos. “Quero apenas incentivar os jovens a prestar a atenção que eu prestei para ser músico.” Ser atento, segundo o pianista, é ter respeito pelo poder da música.

O amigo Alf

Adolescente, aprendeu o comportamento íntegro em relação à arte com um dos precursores da bossa nova, Johnny Alf, que viveu na casa de seus pais por sete anos. “Ela existe dentro de mim, mas não se submete a mim”, diz. Aos 14 anos, assistiu a um show do pianista na boate Golden Ball.

Na casa dos pais de Camargo Mariano, em São Paulo, o instrumentista era o responsável por buscar as crianças na escola. O pianista não dava conselhos, mas sua presença foi suficiente para Camargo entender “os bastidores da arte, as dificuldades e dramas de ser músico”.

Kubrick e Hitchcock

Por dois anos, a família cuidou de Alf, debilitado por uma cirrose hepática. Beth, uma das irmãs, parou de trabalhar para acompanhar a saúde do músico acamado. A mãe de Camargo Mariano guardou em caixas, legadas para o filho, folhas amassadas e rasgadas em que o hóspede anotou composições.

Em vez de música, o jovem instrumentista conversava com o compositor carioca sobre cinema. “Ele me ensinou a ser um telespectador exigente.” Camargo Mariano sempre revê os filmes de Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock. Lembra ter descoberto por acaso o trabalho de Johnny Mandel, “o maior dos compositores de trilhas sonoras”.

Certo dia, andando à toa pelas ruas de São Paulo, ele e o violonista Théo de Barros entraram à 1 da tarde em uma sala que exibia Adeus às Ilusões (1965). “Esperava um dramalhão com péssima atuação da Elizabeth Taylor.”

Protagonizado pela atriz e por Richard Burton, o filme de Vincente Minnelli tinha “uma trilha sonora absurda”, criada por Mandel. Os dois assistiram várias vezes ao longa-metragem, chegando à última sessão, das 2 da madrugada.

Anos depois, no estúdio onde gravou o disco Elis & Tom, Camargo Mariano conheceu pessoalmente o compositor norte-americano, de quem se tornaria grande amigo. Na ocasião, Mandel confessou ser fã do instrumentista brasileiro.

O cinema é inspiração para a técnica musical de Camargo Mariano. Antes de se tornar compositor de trilhas sonoras para filmes, novelas e minisséries, ele entendia como cinematográfico o processo de compor e arranjar.

Trilhas para filmes

“A letra e a melodia servem como roteiros para construir uma unidade que expressa os sentimentos e sonhos de um músico”, diz. “Por isso, foi automático fazer trilhas.” Ele compôs para Eu Te Amo (1980), filme de Arnaldo Jabor; Mandala (1987-1988), novela da Rede Globo; e Avenida Paulista (1982), minissérie da mesma emissora.

A paixão pelo cinema conduziu-o ao amor por Elis Regina. A convite de Ronaldo Bôscoli, que estava se divorciando da Pimentinha, em 1971, Camargo Mariano cuidou dos arranjos e da direção musical de uma temporada de shows da cantora no Teatro da Praia.

Às segundas-feiras, dia de folga das apresentações, Elis reunia amigos em casa para uma sessão de cinema. Eles alugavam filmes e um projetor do Museu da Imagem e do Som. Elis convidou Camargo Mariano para assistir a Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman.

Durante uma pausa para a troca dos rolos do longa-metragem, a cantora colocou um bilhete no bolso da camisa do pianista. Disse para ler depois de terminada a exibição. Ele não aguentou, saiu da sala escura e se trancou no banheiro para ler a mensagem de amor. O namoro começou. Tiveram dois filhos, os cantores Pedro Mariano e Maria Rita.

A parceria profissional entre Elis Regina e Cesar Camargo Mariano foi uma das mais bem-sucedidas da música brasileira e atravessou os anos 1970. O pianista produziu e arranjou os discos Elis (1973), Elis & Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Elis (1977), Transversal do Tempo (1978) Essa Mulher (1979), Saudades do Brasil (1980) e Trem Azul (1981).

Nos ensaios para a temporada no Teatro da Praia, Elis fez uma confissão. “Quando escuto essa música, na hora que chega esse trecho aqui, me dá uma dor por dentro, aqui ó”, disse, ao mesmo tempo em que pousava as mãos sobre o ventre.

Elis referia-se, diz Camargo Mariano, a um acorde criado por ele para valorizar a interpretação. “Desde criança, sinto essa dor também por causa de certos acordes. É algo pessoal, intransferível. Só não sabia que outras pessoas sentiam algo semelhante, e a sensação descrita por Elis me ajudou a identificar o que eu próprio sentia e sinto”, diz.

A insegurança de Tom

Clássico da MPB, Elis & Tom (1974) provocou um dos choques emocionais mais fortes que Camargo Mariano já sentira. “Por causa da gravação desse disco, Tom Jobim transformou-se de ídolo em ser humano.”

A tomada de consciência sobre a personalidade do compositor de “Águas de Março” ocorreu ao longo de 22 dias de convivência, três deles para as gravações no estúdio.

Elis e Camargo Mariano chegaram a Los Angeles sem avisar. Tom Jobim não sabia de nada, e o compositor Aloysio de Oliveira não conseguiu localizar o compositor por telefone. “Foi uma situação ímpar, além de dramática.”

Aos 31 anos, Camargo Mariano teve de superar as inseguranças de Tom Jobim, então com 47. Mesmo sendo uma estrela, Tom sofria com a possibilidade de o disco fracassar. Queria ter controle sobre todo o processo e dispensar os arranjos e a direção musical do jovem pianista. A resistência foi grande, a ponto de Camargo Mariano dizer-lhe, com educação, que o disco era de Elis – e Tom apenas um convidado. Ilustre, mas ainda assim um convidado.

Quando ele terminou a mixagem das gravações às 5 da madrugada, levou uma fita com o material para o compositor. O arranjador insistiu para que escutassem. Ao ouvir o trabalho pronto, Tom chorou compulsivamente.

No dia seguinte, pelo telefone, confessou ao parceiro mais novo: “Vocês tomam banho de chuveiro, com água fria e corrente, eu tomo de banheira, com água morna, que vai se ajustando à temperatura do meu corpo”, relembra Camargo Mariano, imitando a voz rouca do maestro. Era uma metáfora para a insegurança de Tom diante daqueles jovens atrevidos.

Pai professor

Desde cedo, Cesar Camargo Mariano chamou atenção por seus dotes musicais. Influenciado por Nat King Cole e Erroll Garner, ele aprendeu a tocar de ouvido. Autodidata, teve suas primeiras lições de teoria musical dadas pelo pai. Aos 13 anos, não entendia direito as definições teóricas, mas no piano era capaz de executar de modo comovente o que lhe era pedido.

Boa parte de Memórias aborda a importância das relações familiares. O livro relembra a emoção do primeiro piano, de cor amarela e dispensado pela antiga dona.

O talento natural de Camargo Mariano desenvolveu-se na convivência com músicos da São Paulo do início dos anos 1960. Ele recorda a atuação por dois anos na Baiuca, casa de shows na Praça Roosevelt, no centro da cidade.

Sambalanço

Nas apresentações, tocava habitualmente um repertório de jazz, mas um pedido foi fundamental para a formação de seu estilo. Certa noite, alguém da plateia lhe pediu um samba. Ao tentar tocá-lo no compasso jazzístico, não teve sucesso. Quando introduziu a cadência do samba, acentuando o ritmo no tempo fraco da composição, foi aplaudido.

Nos anos 1960, formou com Airto Moreira e Humberto Clayber o Sambalanço Trio. Tornou-se uma referência para a bossa nova com performances no João Sebastião Bar, o templo paulistano daquele gênero musical nascente.

Na mesma época, ajudou a criar com o coreógrafo norte-americano Lennie Dale e o diretor Solano Ribeiro um espetáculo para o Teatro Arena. Depois de São Paulo, as apresentações foram para o Rio, resultando no disco Lennie Dale & Sambalanço Trio no Zum-Zum (1965).

Camargo Mariano acredita nos ensaios. É bom conhecer minuciosamente as manhas musicais para lidar com o improviso. Foi o que ele aprendeu ao trabalhar como arranjador e diretor musical de Wilson Simonal em programas da Rede Record, na segunda metade dos anos 1960.

Era comum o pianista ensaiar à exaustão e, na última hora, ver o repertório mudar. “É necessário jogo de cintura nessa profissão.”

Tendo trabalhado com os músicos brasileiros mais importantes – “só faltam Roberto Carlos e Gilberto Gil” –, Camargo Mariano ainda nutre alguns desejos, como um duo com Tony Bennett. “Não tenho muitas vontade em relação à nova safra brasileira, que está bem difícil.”

Enquanto não realiza o sonho, passa os dias no estúdio, de onde se comunica via Skype com os parceiros musicais. Os instrumentos eletrônicos estão sempre à mão para registrar as novas ideias. Ele reclama que da cabeça para o papel muita coisa se perde. “A criação da música é um drama que revolve as vísceras”, diz. “Mas só sendo assim para trazer dignidade à arte.”

Fonte: Revista Cult

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