A arte em todas as coisas

por Mariana Paes

Acredito piamente que a arte é a melhor, mais eficiente e primitiva forma de comunicação.

Por meio da arte, o inconsciente coletivo aflora! Tudo que ferve dentro das nossas mentes e nossos corações transborda em forma de lágrimas, saltos, giros, acordes, harmonias, vocalizações, arpejos, caretas, suspiros, mímicas, olhares, cores, formas…

Todos os dias nos expressamos artisticamente! De manhã, instintivamente, escolhemos cores intimamente ligadas ao nosso estado de espírito e à imagem que queremos que as pessoas tenham de nós naquele determinado dia. Corremos para fugir da chuva e saltamos poças de água, algo semelhante à execução de vários Chásses seguidos de um Saut de Cheval ao som de
uma frenética canção, como aquelas dos filmes de Chaplin.

As gotas d’água emitem diversos sons, que variam de acordo com as superfícies que tocam! Uma sinfonia… um “x x x x x x x x x x x x x x x x x x” formado de vários tons, vários sons… o som da natureza em contato com os feitos do homem na superfície.

Pessoas se encaixam umas nas outras para conseguir entrar nos vagões dos ônibus e metros, formando esculturas humanas. Algo desumano como o aperto do transporte coletivo mostra quão humana é a disputa de vários seres por um mesmo espaço.

Em todas essas situações, estamos nos comunicando (direta ou indiretamente) com o mundo ao nosso redor! Assim, em tudo há arte! Tudo que fazemos . Ver arte em tudo é entender o toque divino em cada passo que damos, em cada paisagem, som, luz, cor, forma e movimento!

Viver é entender a arte que compõe todas as coisas, boas e ruins!

Lobotomia, nomes duplos e Papai Noel

por Mariana Paes

Meu primeiro emprego com carteira assinada foi no call center de um banco. Eu fazia aulas de canto, faculdade e trabalhava. Algumas peculiaridades da vida de atendente me fizeram escrever uma matéria sobre isso durante a época de curso de Jornalismo.

Resolvi resgatá-lo e compartilhar aqui…

Lobotomia, nomes duplos e Papai Noel

Um grande prédio, um grande número de computadores por andar. Cerca de 4.000 pares de olhos que respondem por nomes duplos a um telefone que toca sem parar: após um cliente mal educado, em quatro segundos os dados de outra pessoa aparecem na tela, seguido de um pitoresco cumprimento: “Rafaela Silvana, bom dia”.

Aqueles pares de olhos passam seis horas diárias frente ao computador respondendo aos clientes conforme manual com frases “pré-fabricadas”. São praticamente uma extensão do equipamento. Após um mês de treinamento — português, comportamento, ergonomia, sistema da empresa — quase 100 ligações passam por cada um dos telefones da gigantesca central de atendimento ao cliente numa jornada de 6 horas.

Nas seis horas, dez minutos para ir ao banheiro e/ou tomar água e quinze para tomar um lanche de “pão com alguma coisa” com algum acompanhamento: chá, café, café com leite, chocolate, suco ou água. Aliás, em feriados, madrugadas, finais de semana, dias de chuva ou sol, nomes duplos atendem sob a égide de regras definidas em tempos anteriores ao nascimento de seus pais.

Todas as ligações gravadas. É exigido controle emocional mesmo quando o cliente culpa o atendente por seus problemas, xinga ou até mesmo ameaça de morte a pessoa que está ali apenas como interlocutor da instituição.

Esse controle também é necessário ao lidar com “donos” de nomes incomuns, que escolhi não citar para evitar expô-los. Mas, acreditem, tem mistura de nomes de artistas, de parques da Disney e até pessoas com nomes de lojas, frutas e bandas. Risinhos? Não, são passíveis de demissão aqueles que deixarem escapar. Corda bamba também para os que ficam “no vermelho” e não saem do cheque especial.

Uma vez por semana o supervisor (que zela por aproximadamente 25 atendentes) chama seus funcionários. Uma ligação atendida por cada nome duplo é analisada e uma nota é estipulada. O supervisor explica que o atendente não pode rir, falar seu nome verdadeiro, informar onde fica a central de atendimento, tem que cuidar pra não ter uma Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e vender, vender, vender.

Aquele velhinho que mal ouve o que o nome duplo diz que só queria saber se precisa mesmo pagar a conta de 100 reais, lamenta muito por ter pouca aposentadoria, aproveita os ouvidos receptivos do outro lado da linha e fala sobre quando foi militar, como sua esposa faleceu e quão ruim foi quando seus filhos pensaram em colocá-lo em um asilo.

Mesmo após ouvir todas as lamúrias, aquele nome duplo é obrigado a oferecer um serviço que custa caro para um aposentado. Ele compra e o peso na consciência é enorme… parece que ele nem entendeu nada, mas só comprou porque “foi muito bom falar com você, uma moça tão educada, filha”.

Então é a hora de seguir outra parte do script: comemorar a venda. Sim, porque todo nome duplo que se preza tem um pompom similar ao das Paquitas nos anos 80. O “acessório” fica na gaveta da mesa. Aquela mesa não pertence a ninguém, nem o pompom, porque cada dia os nomes duplos se acomodam “onde tem lugar”, contanto que seja naquele núcleo próximo ao supervisor.

Mas o que importa é que o velhinho comprou o produto: o pompom chacoalha no alto e o restante da equipe deve seguir o gesto para mostrar aos outros grupos que ali tem gente que sabe vender e pode “bater a meta”. Trabalham cinco dias por semana. Se esses coincidirem com os dias úteis, ótimo. Se não, paciência. Mas os nomes duplos preferem achar isso bom porque dinheiro da hora extra é bem vindo. Sempre devem ofertar os produtos, em todos os atendimentos (exceto quando o cliente estiver devendo, claro) e precisam vender mais de 100 produtos por dia.

Tarefa difícil quando 90% dos atendimentos são de clientes irritados, querendo que a empresa exploda e todos os seus funcionários morram de forma lenta e dolorosa. A fala robótica dos nomes duplos causa ainda mais ira. Ofertar produto? Precisa, mas não adianta. Quem vende muito ganha brinde, café da manhã, camiseta, boné, porta-cd. Tudo com a bela marca da instituição, que está espalhada por todo o país.

Todos os dias são iguais. Tem que bater o cartão dois minutos antes ou depois do horário de início do expediente. Nenhum papel, caneta, celular. O melhor amigo é o headset, o fone que deve ser ”trocado de ouvido” a cada hora para evitar problemas auditivos, conforme o treinamento do mês que precede o início da vida escondida por trás de um nome duplo.

Para as milhares de pessoas que são atendidas, ali são computadores com nomes duplos. Não existe vida do outro lado da linha quando recorrem ao call center. Para os nomes duplos, sábado, domingo e feriado são folgas que dependem da escala mensal, assim como o horário do lanche, que um dia é às 9h45, outro é às 10h30, outro é às 11h15. O sistema escolhe as folgas os lanches e os nomes duplos.

Os atendentes não têm sobrenome, portanto, não têm família, passado, sentimento ou sofrimento. Sempre uma faceira saudação deve iniciar um atendimento, independente de dor de cabeça, problemas familiares, cólicas, sono… afinal, computadores sentem alguma coisa?

Mas os nomes duplos não costumam reclamar. São abduzidos por benefícios que os fazem “prosperar” no capitalismo canibal e desigual da terra verde e amarela. Participação nos lucros, trabalho registrado mesmo com a faculdade ainda em curso, redução nas taxas, facilidades em financiamentos, seis horas de jornada, convênio médico e odontológico: o mundo maravilhoso que se abre no horizonte.

Inexplicavelmente o mundo das regras — sem mudanças drásticas no visual, unhas aparadas, sapatos engraxados, nada de roupas extravagantes, barba feita, cabelos cortados, postura adequada, roupas passadas (sim, até isso) — torna-se uma extensão da vida dos nomes duplos que voltam a usar seus nomes comuns ao sair da central de atendimento mas continuam invisíveis: repetem frases prontas em script, seguem o que está no sistema e nas “leis de conduta”. Tudo é lindo. O Papai Noel também. Lobotomia?

Momento surto criativo: Roteiro alternativo para Avenida Brasil

por Mariana Paes
colaboração de Camila Barone

A história da televisão brasileira se confunde com a história das telenovelas brasileiras… ano após ano vemos várias delas chegando e indo embora, lançando modas, alienando pessoas, causando risos, lágrimas, revolta e tudo mais.

Sem hipocrisia, todo mundo já parou um pouquinho na frente da TV pra checar a novela. Com as mesmas figurinhas se repetindo sempre na tela, dá pra confundir histórias. Mas, o interessante mesmo, é criar roteiros alternativos, que interligam diversas novelas. Eu e minha amiga Camila Barone criamos um desfecho alternativo para “Avenida Brasil”:

– Na verdade o Albieri é o grande vilão da novela, com sua sobrancelha horrível que vem desde “O Clobe”
E a sobrancelha do Albieri continua a mesma! Clona bonequinhos em sua oficina para testar suas técnicas, até o momento em que revela sua grande experiência: Tufão é “O Clone” de Lucas, Leo e Diogo Ferraz.

– Além de Albieri, outra pessoa chega do Marrocos: Jade, que revela ser a mãe da Carminha. Gerando uma grande questão filosófica pra socidade brasileira: o pai de carminha é o Lucas, que tem o mesmo DNA do marido que Carminha usou e abusou. Isso é crime… talvez, não sabemos… o público vai debater.

– Outra fugitiva do Marrocos é Nazira (afinal, a equipe de “O Clone” instituiu a ponte aérea Rio-Marrocos), que na verdade gerou o Tufão-clone e está lá espionando Carminha.

– Toda falta de ética e noção dos personagens nos indica que realmente estamos no fim dos tempos, mas só temos certeza disso quando um dinossauro (vindo diretamente da “Morde & Assopra”) chega para ajudar Carminha (Julia, que parecia boazinha na outra novela) em seus crimes.

– De repente, Mário Jorge (Miguel Falabela) aparece na casa do Tufão pedindo que Celinha (Carminha) volte para casa com ele, no Jambalaia Tower. Aí o público descobre que é tradição da Carminha viver em uma casa com o maior entra e sai de gente, palpiteiros de plantão e figurinos duvidosos. Bozena vai pra casa da Carminha, direto de Pato Branco, para substituir a Nina.

– A vida de prostituta da Carminha foi intensa: Antonio Fagundes aparece pra tentar seduzí-la novamente, já que é “O Rei do Gado”.

– Enquanto isso, no núcleo engraçado da novela, Cadinho revela ser Jacques Leclair e começa a fazer roupas para ganhar dinheiro e sair da lama. Como Carolina Ferraz é a mais posuda de suas três esposas, ele se casa definitivamente com ela, que na verdade é Amanda, que foi abandonada pelo Astro (Rodrigo Lombardi) por causa da Gabriela (Juliana Paes).

– Então, Max finalmente vê que a concorrência tá complicada e volta pra Babalu (Letícia Spiler). Mas o relacionamento acaba no momento em que Babalu descobre que ele é o Xandy, que engravidou Nina (Débora Fabela), que usava o nome Mel em “O Clone”.

– Já que a Nina na verdade é a Mel, mocinha que abusava das drogas, dá pra entender o motivo de ela ficar tão bitolada na vingança e ter tanta gana por dinheiro!

Fim…

Contra o machismo na área náutica

por Mariana Paes

Hoje vou usar o espaço do blog para um texto diferente… preciso expor algumas situações e manifestar meu posicionamento.

Há cerca de dois anos conheci a arte da vela… ouvir o vento, entender o mar e usá-los da melhor forma para deslizar pelas águas. Comecei com livros e filmes sobre o assunto, principalmente os materiais da Família Shurmann.

Aos poucos, fui me encantando por essa arte incrível, fiz curso de vela e hoje me considero uma velejadora iniciante. Já aprendi o vocabulário náutico, sei ficar no leme e também regular as velas, aprendi várias coisas relativas à regras para entrar em países pelo mar, como tratar outros velejadores, que cursos fazer para dar a volta ao mundo e, principalmente, como trabalhar em equipe no barco.

Nesse período, ouvi algumas idiotices de homens… tipo “você não aguenta ficar no mar”, “é uma viagem muito longa pra você”… cheguei até a ouvir que mulher não era parte da tripulação, que só servia para limpar e arrumar o barco. Não me intimido com chuva, trovão, vento forte, mar grosso… mas o que me faz chorar de raiva é esse tipo de pensamento machista e retrógrado!

Sim, eu posso fazer comida pro pessoal e arrumar o barco, mas isso não me faz incapaz de puxar cabo, regular vela, ficar no leme, limpar casco, bater prego ou qualquer outra coisa. Talvez para algumas funções me falte força física, mas não falta fibra e vontade. No barco o que conta é cooperar, trabalhar em equipe, entender a importância e o papel de cada um e ser flexível, entender os sinais da natureza e respeitá-la. E vão me dizer que mulher não aguenta ou devia ficar em casa… perco a paciência. Não tolero machismo.

Agora olho em um site de um grande evento náutico e me deparo com uma chamada péssima, dizendo que o evento também é pra mulheres, já que tem lojas de decoração para barcos, acessórios e roupas apropriadas. Faça-me um favor!!! Uma entidade oficial do setor tomar uma postura tão sem noção quanto essa é uma afronta! Mulheres incríveis colocaram seu nome na história da vela mundial, como Jessica Watson, Isabel Pimentel e Heloísa Shurmann… com muita garra, fibra e coragem! E o povo ainda têm coragem de escrever um absurdo desse!

E esss pessoal que faz eventos acha que o foco é sempre masculino, rebaixa a mulher a simples objeto e a coloca como demonstradora de produtos com roupas diminutas, como se fossem meras bonecas infláveis. E ainda sujeitam as moças, que precisam trabalhar, a situações constrangedoras. Tudo bem que várias delas concorda com essa palhaçada, mas promover uma coisa dessas é uma violência contra o feminino.

Sou mulher, sou delicada, mas sei o que eu quero e sou firme. Não velejo pra agradar ninguém, nem vou pro barco só pra agradar o namorado ou pra fazer tipo. Vou porque amo, porque quero, gosto e pretendo viver minha vida assim. E, se for pra ir contra essa babaquice de machismo nesse meio, ok… viro leoa e defendo as mulheres velejadoras. Mas NINGUÉM vai vir falar na minha cara que a gente não é capaz!!!

Podem me chamar de hipócrita, feminista… a questão é respeito!

Sorte ter ao meu lado um velejador que não tem esse tipo de caca na cabeça!

#prontofalei

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