Roger Waters diz que sua ópera não tem nada de rock

por Gustavo Fioratti

Não tem nada a ver com rock, deixou claro o baixista Roger Waters em entrevista que concedeu ontem em São Paulo sobre sua ópera “Ça Ira – Há Esperança”, encenada pela segunda vez no Brasil.

Em 2008, houve uma montagem dirigida por Caetano Vilela em Manaus. Nesta quinta-feira, nova versão estreia em São Paulo com direção cênica assinada por André Heller-Lopes.

A rejeição ao rótulo vem de uma série de críticas sobre a incursão de Waters, ex-Pink Floyd, pelo universo da música clássica. “Na verdade, de rock essa obra não tem nada. Essa é um sinfonia pop para orquestra”, diz.

Waters compôs a partitura, a partir de libreto original do francês Etienne Roda-Gil, entre 1998 e 2005. Allan Kozinn, do “New York Times”, em crítica publicada em 2005, aponta que, analisada como ópera, a obra de Waters retorna a velhas formas, sem acrescentar nada original.

Em resposta, Waters diz não ser entusiasta da música erudita contemporânea ou moderna, gênero que ele considera “matemático demais”. “Meu gosto pessoal tem mais a ver com o século 19”, diz. O baixista cita Beethoven e Brahms como dois de seus compositores favoritos.

Isso explica parte da qualidade da partitura, melódica e essencialmente tonal, que agora encontra pela frente um time de cantores líricos brasileiros –as sopranos Lina Mendes e Gabriella Pace, a mezzo-soprano Keila de Moraes e os tenores Marcos Paulo e Giovanni Tristacci são alguns dos intérpretes. No concerto, também estão a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Lírico Municipal.

A regência é de Rick Wentworth, músico que deu suporte a Waters durante o processo de criação da partitura.

ÇA IRA – HÁ ESPERANÇA
QUANDO dias 2 (qui.), 4 (sáb.), 7 (ter.) e 9 (qui.) de maio, às 20h
ONDE Theatro Municipal (pça. Ramos de Azevedo, s/nº; tel. 0/xx/11/3397-0300)
QUANTO R$ 40 a R$ 100
CLASSIFICAÇÃO 10 anos

Fonte: Folha de S. Paulo

Site que liga artistas a donos de muros registra 18 intervenções em SP

A lógica é simples. Se tem um muro precisando de tinta e um artista buscando espaço, por que não juntar os dois? O encontro é promovido pela plataforma Color+City (“cidade + cor”), lançada em 26 de março. Em pouco mais de uma semana, 22 espaços ganharam cara nova, 18 deles em São Paulo (desses, 15 foram pintados numa ação promocional para inaugurar o site).

O projeto, idealizado pelo designer Gabriel Pinheiro e pelo artista Victor Garcia, tem apoio da FLAG, que reúne empresas criativas, do Google Brasil, que disponibilizou seu serviço de mapeamento, o Google Maps, e de outros parceiros.

O primeiro contato entre doadores e artistas é virtual. Ao acessar o site, o usuário escolhe se quer autorizar a utilização de um espaço privado ou se deseja pintar um muro. Para se cadastrar, é preciso ter um perfil no Google+, rede social do grupo. Mais de 200 locais já estão reservados, em diversos estados do país.

A plataforma permite que fotos sejam carregadas para mostrar os espaços disponíveis e também o resultado das intervenções. Cada artista pode reservar um único espaço por vez, que fica “ocupado” por até 35 dias. Na página do projeto, é possível visualizar o “status” dos muros: os que têm a marcação verde estão livres, os amarelos estão reservados e os coloridos já foram pintados.

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ABAIXO, CONFIRA ENTREVISTA COM GABRIEL PINHEIRO, UM DOS IDEALIZADORES DO PROJETO:

sãopaulo – O Color+City existe há pouco mais de uma semana. Quantas pessoas já se inscreveram para doar seus muros e quantos já foram pintados?
Gabriel Pinheiro – Pela nossa última contagem, 213 muros já tinham sido reservados, 22 já foram finalizados e 112 ainda estavam disponíveis. Mas os números estão sempre mudando.

Como surgiu a ideia para o projeto?
Surgiu naturalmente das conversas que a gente tinha sobre a cena, sobre o que acontecia na cidade. Volta e meia aparecia a história de algum artista pedir autorização para grafitar um muro, de o morador deixar, verbalmente, mas aí se a polícia aparecia o morador não ia até a porta dizer que tinha deixado, não queria se meter em confusão… Ou, então, o artista ia lá pedir, mas o cara não queria conversa, não queria perder tempo. Então a gente pensou em criar um lugar onde pudesse reunir os dois lados –os moradores que quisessem ter seus muros pintados e os artistas que estivessem buscando espaço para fazer esse trabalho. A partir disso, ficamos 11 meses conversando com o pessoal da Flag. Foi uma construção coletiva.

A partir do momento em que os muros são reservados, vocês acompanham as conversas entre morador e artista até o espaço ser pintado?
Não. O objetivo da plataforma é desenhar as parcerias e conectar pessoas, fazer a ponte, mesmo. Nosso desejo é um só: deixar a cidade mais colorida. É um projeto coletivo. Não é de ninguém e é de todo mundo, ao mesmo tempo. E outra coisa importante de destacar é que o projeto não está limitado a artistas. Um professor pode reunir sua turma de alunos e reservar um dos muros disponíveis. Qualquer pessoa pode deixar a cidade mais bonita.

Fonte: Revista São Paulo

Gil 70 chega a São Paulo

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“A exposição não pretende ser um panorama da carreira do Gil”, ressalta o poeta e designer gráfico André Vallias, curador da exposição GIL70, que reúne 21 obras homenageando a trajetória do músico.

Inspirados nas revistas marginais da década de 1970, pinturas, grafites, vídeos, fotografias, esculturas e poesia visual fazem referência ou são dedicados às canções de Gil.

Ao todo, 25 artistas assinam as obras, entre eles Arnaldo Antunes, Ricardo Aleixo, Caetano Veloso e Augusto de Campos.

Onde:Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149 – São Paulo
Quando:12/12 a 17/02
Quanto:gratuito
Info.:http://www.itaucultural.org.br

Fonte: Revista Cult

Luís Fernando Guimarães participará de musical de Möeller e Botelho

Previsto para estreiar em março de 2013, o novo musical da dupla Möeler e Botelho “Como vencer na vida sem fazer força“, promete ser uma comédia de muito bom gosto. No elenco temos o veterano Luiz Fernando Guimarães ( O Ruy do Os Normais), conhecido pelos seus papéis de veia cômica, sem contar a participação de Letícia Colin. A grande estréia, vai para o novato Gregório Duviver.

Como vencer na vida sem fazer força, é baseada na peça que estreiou na Broadway em 1961 “How to Succeed in Business Without Really Trying”, e já teve protagonistas como Daniel Radcliffe, Darren Chris e Nicholas Jonas (um dos integrantes dos Jonas Brotthers). A história se passa com o J. Pierrepoint Finch, um lavador de janelas que encontra um guia prático de como ser bem sucedido nos negócios. Seguindo cada dica ele começa trabalhando no departamento de correspondências de uma grande empresa, chegando rapidamente ao cargo de chefe do departamento de marketing.

Fonte: A Broadway é Aqui

Crescimento de música streaming supera downloads

Mercado de música streaming crescerá 40% em 2012. Segundo informações da BBC, o avanço do setor é bem maior em relação ao crescimento dos downloads, com apenas 8,5% de previsão para crescimento.

Segundo pesquisa da Strategy Analytics, CDs ainda dominam a indústria, representando 61% das vendas do setor. Apesar disso, vendas físicas caíram 12% no mercado global.

Fonte: AdNews

Catarse Musical - Técnica Vocal e Cultura Geral

por Mariana Paes

Desde novembro de 2011, estou trabalhando com a comunicação de algumas empresas de TI, algumas delas focadas no mercado do entretenimento. Venho tendo oportunidades incríveis de estar em contato com profissionais que trabalham nessa indústria há anos e estão em constante processo de estudo e treinamento, para conseguirem acompanhar todos os avanços das últimas duas décadas.

Pesquisando dados para um release sobre áudio dos grandes filmes, encontrei uma referência à Steven Spielberg, que afirma que o áudio é o maior feito do cinema contemporâneo. O cara tem conhecimento de causa… seus filmes sempre levam às telas novidades produzidas por meio de alta tecnologias, com efeitos sonoros de tirar o fôlego.

Tive a imensa sorte de ir a um renomado estúdio onde o áudio das maiores produções audiovisuais do Brasil é trabalhado. São inúmeras pessoas, inúmeros botões, softwares, terabytes de dados, fuxos de trabalho complexos e talento! A…

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Setor musical precisa afinar a gestão para continuar a crescer e movimentar R$ 1 bilhão

por Renata Cardoso

Imagine a trajetória de uma banda boa que por falta de harmonia entre os músicos começa a fazer apresentações mornas, frustrar o público e desagradar aos fãs. É mais ou menos dessa maneira que o setor de instrumentos musicais comporta-se nos últimos anos aqui no Brasil.

O segmento está em alta e a indústria nacional deve faturar em torno de R$ 700 milhões até o fim do ano. Esse resultado é escorado pelo crescimento de 11% nos últimos dois anos, segundo a Associação Brasileira da Música (Abemusica). O varejo deve movimentar mais em 2012: R$ 1 bilhão. O desafio agora é colocar a casa em ordem para manter e ampliar essa expansão.

Para isso acontecer, os empreendedores devem transformar o setor, que precisa deixar de ser ‘adolescente’ – guiado em boa parte de sua existência pelo amadorismo – e amadurecer. Caso contrário, será esmagado justamente pela falta de profissionalização. “A arte é para os músicos, não para quem tem uma loja. Quem trabalha com música deve se preocupar com o negócio”, explica Samy Dana, professor de economia da FGV-SP.

O varejo de instrumentos musicais conta com 1,5 mil pontos de venda no Brasil, mas a rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, é o exemplo mais bem acabado de que o segmento precisa mudar. Lá funcionam 100 lojas especializadas que revezam-se em um abre e fecha constante.

Faltam metas e planos de negócios estruturados para minimizar as perdas provocadas por movimentos de escala mundial, como a crise econômica nos Estados Unidos, em 2008, e a que assola a Europa atualmente.

Foi justamente o caos na economia que provocou um revés na vida do empresário Vladimir Teixeira. Ele inaugurou, em 2001, a Hendrix World Music. A saúde financeira da pequena empresa estava boa. Mas aí o mundo entrou em recessão. “As pessoas pararam de comprar por causa da alta do dólar. Eu tinha que tomar providências e demitir pelo menos uma parte dos 70 funcionários, mas achava que a situação iria melhorar e protelava as decisões. Enquanto isso, as contas aumentavam”, relembra.

O desempenho das lojas não melhorou. E o empreendedor fechou unidades e demitiu funcionários. Para piorar, o registro que permitia a ele usar o nome Hendrix expirou e Vladimir envolveu-se em uma disputa judicial com os representantes do músico Jimi Hendrix – para retomar o negócio, o empresário optou por mudar a marca para VP Musical até o fim da disputa. “A Hendrix chegou a faturar R$ 2 milhões antes da crise”, relembra Vladimir.

Mais atento às necessidades e peculiaridades do setor que atua, o empresário decidiu cortar custos e recomeçar de forma mais modesta. “Ainda tem espaço para crescer, mas dessa vez terei o pé no chão. Hoje tenho apenas 15 funcionários.”

De acordo com dados da Abemusica, a participação da indústria nacional no segmento é incipiente e 90% do faturamento é composto pela venda de produtos fabricados fora do País.

Boa parte das novidades é apresentada ao público na Expomusic,maior feira do setor de instrumentos musicais da América Latina e que ocorre agora em setembro.

“O consumo de instrumentos tem características peculiares. As grandes marcas importadas são as preferidas”, explica Sinésyo Batista da Costa, presidente da Abemusica.

O fenômeno é explicável. A invasão de produtos estrangeiros teve o seu ápice na metade da década de 1990, quando o então presidente Fernando Collor de Mello promoveu a abertura econômica para o exterior. O panorama não alterou-se desde então e a indústria nacional perdeu força e também competitividade diante dos produtos fabricados principalmente na China.

O consumidor ganhou acesso a grandes grifes de equipamentos musicais e, com isso, aumentou o seu leque de opções no momento da compra.

Custo alto
Mas esse movimento cobra até hoje um preço alto desses mesmos clientes. Culpa da alta carga tributária. O jeito encontrado foi comprar no exterior, onde o custo para o consumidor final cai sensivelmente.

“O brasileiro já tem renda para comprar, mas ele vai fazer isso da forma mais vantajosa”, afirma René Moura, proprietário da importadora Royal Music. “Não faz sentido pagar R$ 5 mil por uma guitarra se com esse valor ele consegue ir até os Estados Unidos, aproveitar a viagem e ainda comprar o instrumento? ”, analisa o empresário.

E a culpa, para René, recai mesmo sobre os impostos. “O sistema brasileiro é nosso principal concorrente, pois com as altas tributações, fica mais atrativo comprar fora, mesmo sem o consumidor ter a garantia de contar com a assistência técnica disponível no País”, complementa.

Em atividade há mais de 20 anos, a Play Tech, hoje com cinco lojas físicas e uma virtual, atribui sua longevidade justamente à gestão empregada no negócio.

Marcelo Maurano, que administra a empresa, aprendeu com o pai, Pedro, a pensar no longo prazo e em todos os detalhes do empreendimento. “Sempre tem loja abrindo ou fechando. Normalmente, elas fecham porque foram muito imediatistas. Os donos muitas vezes nem levam em consideração a valorização imobiliária da região”, conta.

Ao falar sobre sua experiência, Marcelo deixa um ensinamento para os empresários do setor: planejar é mais do que preciso, é fundamental.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Como a ditadura monitorava Chico, Caetano e outras estrelas da cultura

por Lucas Ferraz

O escritor Antonio Callado e a mulher, Ana Arruda, foram os primeiros a serem detidos. Desembarcavam no aeroporto do Galeão, no Rio, no voo 861 da Varig, procedente de Nova York. O oficial de migração, ao identificá-los, comentou: “Eles chegaram. Agora só faltam os dois”.

Horas depois, os dois apareceram: Chico Buarque de Hollanda e Marieta Severo vinham escoltados por policiais dentro de uma Kombi cinza. Coincidentemente, o compositor e a atriz, vindos de Lisboa num voo da TAP, chegaram ao Rio pouco depois de Callado e a mulher.

Os casais se encontraram no subsolo do terminal. Estavam presos, “para averiguações”, sob suspeita de subversão.

“Marieta, sempre despreocupada, olhou para a minha cara e disse: ‘Logo você, que nem viajou para Cuba!'”, recorda Ana.

Marieta conta que a detenção era previsível. “Sabíamos que isso ia acontecer, já esperávamos pela polícia.”

O depoimento à Polícia Federal, ainda no aeroporto, durou mais de três horas. Chico e Callado tinham estado na ilha de Fidel Castro no mês anterior, em janeiro de 1978. As bagagens de ambos foram meticulosamente revistadas.

Callado teve a bainha do blazer rasgada — os agentes suspeitavam de eventuais mensagens ocultas no tecido. “Os charutos que ele ganhou de Fidel foram todos picotados, um absurdo”, lembra a viúva do escritor.

Chico trazia discos italianos e portugueses, livros e uma correia de violão com a inscrição “Cuba”. “Confiscaram praticamente toda a nossa bagagem”, confirmou o compositor à Folha, por e-mail, de Paris, onde passa férias.

Em busca de coisas escondidas, os policiais quebraram o braço da boneca da pequena Kadi, de quatro anos, que Ana e Callado conduziam de volta para o pai, o percussionista baiano Tutti Moreno.

Após responderem a um questionário com mais de 70 itens, geralmente aplicado aos exilados (que já começavam a voltar com os primeiros ventos da abertura política), Chico e Callado foram liberados.

Não sem mais uma convocação. “Fomos intimados para novo depoimento na semana seguinte, o Callado e eu, separadamente”, recorda o compositor.

INTIMAÇÕES

Francisco Buarque de Hollanda perdeu as contas de quantas “intimações ou convites” recebeu na ditadura para prestar esclarecimentos. Ele garantiu, em antiga entrevista, terem sido bem mais de 20.

A convocação ao Dops (Departamento de Ordem Política e Social) do Rio, em dia 27 de fevereiro de 1978, uma semana depois do desembarque no Galeão, para dar mais “esclarecimentos” sobre a viagem a Cuba, tinha ares de guerra psicológica.

“Fui recebido por uns sujeitos esquisitos, à paisana, todos com umas pastas do Clube dos Diretores Lojistas”, recorda. “Ao contrário de tantas detenções anteriores, onde o que eu mais fazia era tomar esporro de militares ou agentes da Polícia Federal, desta vez o tom era de provocação ideológica.”

A Folha teve acesso ao depoimento do cantor, que permaneceu inédito por 34 anos (leia transcrição em folha.com/ilustrissima). Nele, Chico reage de maneira desafiadora.
“Estou sendo obrigado a prestar essas declarações em lugar de trabalhar. Trabalho dez horas por dia e estou perdendo um tempo precioso vindo à polícia”, disse o cantor no interrogatório, ressaltando não saber “se seus interrogadores trabalhavam e o que eles produziam.”

Chico, no Dops, afirmou que não estava “realizado politicamente” no Brasil, onde “falta liberdade”. “Em Cuba sim”, disse à época, “há liberdade”.

“Lá todos pensam da mesma maneira, pois todo o povo está integrado ao processo revolucionário. O Brasil, para atingir o socialismo, deveria passar por um processo revolucionário idêntico ao cubano. O mundo todo caminha para o socialismo. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, todos os países serão socialistas.”

Sobre a ditadura, que naquele mês de março completaria 14 anos, Chico afirmou aos interrogadores que o “governo brasileiro mete os pés pelas mãos”. E mostrou-se favorável à aprovação da Lei da Anistia.

Antes de deixar a sala, o compositor assinou duas folhas em branco. Numa delas, rabiscou: “não vou responder mais nada” e assinou logo abaixo. Noutra, foi mais formal: “No dia 27 de fevereiro de 1978, nas dependências do D.P.P.S., quando estava sendo ouvido, neguei-me a responder às perguntas que me eram formuladas”.

ESTOURO

A Folha enviou a Chico Buarque a cópia do documento. Ele reconheceu sua letra e explicou o motivo do estouro: “Resolvi responder no mesmo tom, mesmo porque já não estávamos no início dos anos 70. As pessoas sabiam onde eu estava depondo, a história toda tinha sido noticiada. O interrogatório foi exaustivo, e a certa altura eu disse que não falaria mais nada. Eles me mandaram afirmar isso por escrito. Foi o que fiz.”

Dos quatro brasileiros que viajaram para Havana, só o escritor Ignácio de Loyola Brandão não enfrentou a polícia política. “Pediram para eu antecipar minha passagem de volta, tive que trocar com um embaixador a pedido do governo cubano. Cheguei um dia antes do previsto e passei direto”, disse Loyola à Folha.

Além de Chico e Callado, o jornalista Fernando Morais, outro integrante da caravana que visitou Cuba, também tinha sido detido ao desembarcar, dois dias antes.

Os quatro foram a Cuba a convite do governo local, para integrar o júri do então prestigioso prêmio Casa de Las Américas, do governo castrista. Naquele ano, entre os jurados, também estavam o poeta uruguaio Mario Benedetti e o escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Ir a Cuba, naqueles tempos, significava uma grave transgressão. O Brasil não mantinha relações diplomáticas com o regime de Fidel Castro e muitos brasileiros envolvidos na luta armada estavam exilados na ilha -ou pelo menos passaram por lá para treinar técnicas de guerrilha.

Para evitar suspeitas, eles voltaram ao Brasil por diferentes caminhos.

Callado, que estava em Cuba sem a mulher, foi encontrá-la nos EUA. Chico e Marieta passaram pela Europa. Fernando Morais e sua mulher à época, a psicanalista Rubia Delorenzo, passaram por Kingston, na Jamaica, e Cidade do México. Desembarcaram no aeroporto de Congonhas.

“Assim que o avião pousou, a aeromoça chamou meu nome, dizendo para me apresentar na cabine de comando”, conta Morais. “Da janela, vi um camburão do Dops parado na pista. O delegado Romeu Tuma [chefe do Dops, futuro senador] nos esperava lá embaixo. Fomos tratados como subversivos VIP.”

Na delegacia, o jornalista enfrentou o primeiro embaraço: engoliu uma minifita cassete na qual tinha gravado, de forma amadora, uma apresentação de Chico Buarque no teatro Karl Marx, em Havana, ao lado das estrelas cubanas Silvio Rodríguez e Pablo Milanés. Muitos exilados brasileiros assistiram ao show.

O jornalista, que deglutiu a fita para não entregar ninguém, lamenta que nunca mais conseguiu recuperar o material. “Foi parar no rio Tietê”, brinca.

ARQUIVO NACIONAL

Em junho, o Arquivo Nacional, em Brasília, abriu alguns dos papéis da ditadura para o público, no bojo da Lei de Acesso à Informação, em vigor desde maio.

Os documentos mostram que todos os grandes nomes da cultura brasileira das décadas de 60 ou 70, em algum momento, foram acompanhados de perto pelos órgãos de segurança, segundo os papeis só agora liberados.

Da tentativa de se eleger presidente do grêmio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em 1966 (que o compositor diz ter sido uma brincadeira de amigos, pois nem estudava mais lá), até a sua atuação na campanha das Diretas-Já, quase 20 anos depois, Francisco Buarque de Hollanda foi, de longe, o artista brasileiro mais monitorado pelos órgãos da repressão.

Sua carreira artística está toda inventariada, documentada e escarafunchada em relatórios produzidos por órgãos de Marinha, Exército e Aeronáutica, além das Polícias Civil e Federal. Sempre na peculiar linguagem dos escrivães da época e ornados com uma profusão de carimbos de “sigiloso”, “confidencial”, “secreto” etc.

As fichas com referências ao compositor, mais de 700, contêm ainda os “dossiês pessoais”, espécies de “prontuários” com todos os dados disponíveis sobre o alvo.
Amigos e especialistas na vida e obra do compositor confirmaram à Folha o ineditismo dos documentos.

Eles corroboram histórias já conhecidas e trazem à tona a versão do regime sobre episódios narrados em biografias e na imprensa.

SHOWS

Os papéis do Arquivo Nacional mostram que, além de censurar previamente, a ditadura infiltrava agentes em peças, shows e espetáculos.

Relatório interno do SNI (Serviço Nacional de Informação), de 1972, tenta descrever a articulação política que enxergava nas manifestações culturais: “Campanhas movidas por vários grupos contrários ao regime possuem correlação entre si. As ações desenvolvidas pelos elementos infiltrados nos meios de comunicação social, clero e meio artístico, continuam obedecendo à ditadura dos temas coincidentes”.

Isso significava, por exemplo, especular sobre a sexualidade dos artistas e até mesmo interpretar eventuais safadezas em canções e danças folclóricas. É o caso de um samba de roda cantado num show do Caetano, com uma dança típica do recôncavo baiano, “no qual fazia referência aos olhos e os artistas presentes colocavam as mãos nos olhos, boca, idem, as mãos na boca, e finalmente dizia no ‘lelê, lalá’ e os artistas colocavam as mãos no sexo”, registrou um araponga.

Caetano Veloso, frequentemente chamado de “homossexual” nos relatos da repressão, foi monitorado até no exílio em Londres. Um agente da ditadura relata uma apresentação dele, em novembro de 71, no Queen Elizabeth Hall. Ele nota que “80% dos espectadores eram brasileiros” e registra forte discurso do cantor “contra a Revolução”.

“Nunca imaginei que houvesse alguém da repressão no show do Queen Elizabeth Hall”, afirmou Caetano à Folha.

Um dos relatórios mais detalhados da repressão diz respeito à histórica apresentação de Chico e Caetano no teatro Castro Alves, em Salvador, nos dias 10 e 11 de novembro de 1972.
Caetano acabava de voltar do exílio e juntou-se a Chico num reencontro que serviu também para encerrar as especulações sobre uma suposta briga entre eles, ainda no final da década de 60. O show viraria o álbum “Caetano e Chico Juntos e ao Vivo”.

A repressão esteve presente nos dois dias, atestam os documentos, feitos a pedido do Exército e da Aeronáutica e assinados por inspetores da PF baiana.

“A referida apresentação [tem] cenas que feriam a moral das famílias ali presentes, bem como atitudes do sr. Caetano Veloso, que, de certa forma, indispôs o público contra as autoridades presentes”, chiou o araponga.

“Podemos observar quanto a Caetano Veloso: pintado de batom e com trejeitos homossexuais; […] cabe-me salientar que Caetano, embora usando de uma afetação um tanto exagerada, muito mais apropriada para uma pessoa do sexo feminino, provocando até algumas vaias do auditório, tendo cantado músicas que, ao meu entender, nada apresentam de anormal.”

Chico é descrito como um sujeito de “postura masculina normal”, que sempre “desrespeita as determinações da censura” cantando músicas proibidas.

O inspetor que assina o documento, Eduardo Henrique de Almeida, também faz um relato sobre a audiência: “Junto ao palco estava um grupo de homossexuais, hippies e cabeludos que pareciam contratados do grupo de artistas. Foram exatamente eles que invadiram o palco e cantaram ‘Apesar de Você'”.

(Liberada por uma falha dos censores, a canção havia se tornado um hino de resistência à ditadura e bateu recordes de vendagem do álbum compacto. Ao perceber o equívoco, a ditadura censurou a canção e recolheu os discos das lojas. Mesmo condenando a canção, de “pregação ideológica”, um agente reconheceu, em documento do SNI de junho de 1971, que o samba tinha uma “letra incontestavelmente inteligente”.)

O burocrata Almeida conclui seu prolixo formulário com um alerta: “Já em Belo Horizonte, onde estive lotado, acompanhava as provocações de Chico Buarque de Holanda, sempre desrespeitando as determinações da censura. É necessário que se coloque um fim nestes episódios que somente desgastam as autoridades.”

NEGÓCIOS ESCUSOS

Segundo inúmeros documentos da repressão, Chico e Caetano, além de uma dezena de outros artistas, realizavam apresentações cuja renda era revertida a partidos (como o PCB) ou organizações da esquerda armada.

Um dos contatos da guerrilha com o mundo artístico, segundo os militares, seria David Capistrano, comunista assassinado pela ditadura em 1974, aos 61.

“Não conheci nenhum Capistrano, não que eu me lembre”, afirmou Caetano. “Nunca financiei o Partido Comunista. Nunca fui do partido. Tive simpatia por Marighella [ex-deputado Carlos Marighella, um dos principais líderes da luta armada]. Tenho ainda. Eu achava o PC careta e seguindo interesses de Moscou.”

Chico afirmou à Folha, por e-mail, que jamais deu dinheiro a partidos. “Posso ter ajudado um ou outro membro de partido ou organização de esquerda, mas naquele tempo a gente não pedia a ficha de ninguém. Posso ter repassado cachês ou prêmios em dinheiro, mas geralmente eu contribuía com a renda de shows beneficentes”, disse o compositor. “Fiz isso durante anos, de meados dos 70 até fins dos 80, e não era segredo para ninguém.”

Caetano contou à Folha que, por pouco, não chegou mais longe na oposição à ditadura: “Na época, comecei a combinar com uma amiga dar apoio logístico à guerrilha. Eu admirava a aventura de lutar diretamente contra as forças da ditadura. E os militares nunca souberam desse esboço de ligação”.

“Me lembro de que eu sentia um medo remoto do que poderia vir a ser a luta clandestina”, prossegue. “Suponho que, se me aproximasse, teria medo e problemas de consciência diante de alguns fatos e métodos.”

MARIETA

“A gente sabia e se sentia monitorado”, admite a ex-mulher do compositor. “Desconfiávamos bastante disso.”

Não era para menos: agentes da ditadura chegaram a invadir a casa de Chico e quase o prenderam no quarto do casal, em dezembro de 1968, dias depois da edição do Ato Institucional n° 5. “Tenho uma lembrança nítida desse dia, da truculência da invasão da nossa casa, da tentativa de invasão de nosso quarto”, recorda ela. “Nunca sabíamos do limite, até aonde eles iriam. Esse episódio, para mim, foi traumatizante.”

O jornalista e escritor Eric Nepomuceno, amigo de Chico há mais de 40 anos, lembra que no começo dos anos 1970 a pressão sobre o artista era “tremenda”. “Ele vivia angustiado com aquilo tudo. Volta e meia perdia a paciência e respondia de maneira dura”, conta.

GOIÂNIA

Um intrigante informe do Cenimar (serviço de inteligência da Marinha), de 1972, atesta a presença do compositor no 1º Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicações, em Goiânia, entre 1º e 4 de novembro daquele ano.

O diligente escrivão registra: “Foram anotadas, para controle, as chapas dos carros de outros Estados que comparecem ao Encontro. Dentre os anotados, registra-se o Volks, tipo Bugre [sic], Placa EC 9199, em nome de Francisco Buarque de Holanda, com endereço à rua Borges de Medeiros, 2513, casa 1/GB.”

O carro, de fato, pertencia a Chico e Marieta. “Não me lembro da gente ter emprestado esse carro”, comenta ela.

Já Chico Buarque duvida que tenha guiado do Rio até Goiás.

“Pode ser que eu tenha emprestado o carro. Pode ser que tenham anotado a placa do bugue aqui na praia, e algum agente dos serviços tenha inventado que o carro estava em Goiânia. Pode ser qualquer coisa,eu estar em Goiânia de bugue.”

Fonte: Folha de S. Paulo

Anunciado há 4 anos, Complexo Cultural Luz ganha croqui

por Anna Virginia Balloussier

A Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo apresentará hoje o projeto para transformar um terreno baldio na Luz (centro da capital) num colosso artístico com 70 mil m² –quase três vezes o Pavilhão da Bienal.

Antiga rodoviária, mais recentemente cercado pela cracolândia, o espaço em frente à Sala São Paulo abrigará o Complexo Cultural Luz.

Lá serão erguidas três salas de espetáculos (2.750 lugares no total), café, biblioteca, estacionamento para mil carros e as sedes da São Paulo Companhia de Dança e da Escola de Música Tom Jobim.

Construções transparentes permitirão que partes sejam vistas da rua. Um dos arquitetos, o suíço Jacques Herzog, já definiu sua criação como um “projeto nu, com seus ossos e estruturas expostos”.

  Divulgação  
Maquete do complexo cultural luz, que deve começar a ser construído no início de 2013
 

A empreitada mais ambiciosa do Estado, contudo, demorou para entrar em compasso. Foi anunciada em 2008. As obras deveriam ter começado em 2010, mas acabaram empurradas para o começo de 2013, segundo o secretário Andrea Matarazzo. Não devem sair antes de 2016.

O orçamento sofreu um “efeito sanfona” de quatro anos para cá. No começo, a secretaria estimou que o custo total do empreendimento seria de R$ 312 milhões.

Matarazzo diz à Folha que o projeto “foi crescendo com o tempo” e raspou o teto de R$ 1 bilhão. A estimativa atual (R$ 500 milhões) é metade –mas 60% acima da original.

O tamanho também encolheu. Antes, previam-se 95 mil m² de área construída.

A escola musical acolheria 4.000 alunos. Agora, serão 1.800. “O Estado não tem perspectiva [para tanta gente]”, diz Matarazzo. Também foi abandonada a ideia de erguer uma fábrica de cenários.

A demolição do quarteirão começou em 2010, mas parou por meses à espera de um acerto com donos de imóveis. Disputas entre empresas para levar as construções abaixo também brecaram a obra.

Outra fonte de atrito: a escolha de uma firma suíça de arquitetura. A contratação foi questionada por dispensar concorrência ou concurso público. O governo disse que pesou o “notório saber”.

A um custo de R$ 43 milhões, o projeto leva a assinatura do escritório Herzog & De Meuron, grife do estádio olímpico de Pequim e do museu Tate Modern, em Londres. Para Matarazzo, a ideia é que o complexo “passe a ser referência arquitetônica”.

Colaborou Matheus Magenta

Fonte: Folha de S. Paulo

Calendário do MAM para 2012 revisitará o passado

Anna Virginia Balloussier

Ao fechar seu calendário para 2012, o MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo revisitou o passado, com homenagem aos 90 anos do fotógrafo German Lorca e a exibição na íntegra da coleção Carlo Tamagni (1900-1966).

Paralelamente, deu a primeira mostra de fôlego no espaço a artistas como o alemão Wolfgang Tillmans e a brasileira Adriana Varejão.

Os 50 anos de morte de Oswaldo Goeldi (1895-1961) passaram batido pelo radar do museu em 2011. Em compensação, o maior gravurista do país ganha retrospectiva em junho, com curadoria da sobrinha-neta Lana Goeldi e de Paulo Venâncio Filho.

Folha teve acesso exclusivo ao planejamento do museu para o ano que vem, que começa com obras de Tarsila do Amaral, Volpi e Livio Abramo. No total, são 81 peças que formam o acervo doado pelo ex-conselheiro Tamagni.

Exibidas ao lado da coleção finalizada nos anos 60, excertos do século 21, como “Totó Treme Terra” –o trabalho do coletivo Chelpa Ferro traz uma mesa de pebolim com alto-falantes que simulam sons de uma partida.

A curadoria mistura passado e presente e é de Fernando Oliva e Felipe Chaimovich. A meta é expor a mudança de eixo do modernismo para a arte contemporânea.

No fim de março, Wolfgang Tillmans virá ao Brasil para montar sua exposição, com fotos e possivelmente vídeos. “Ele visitou países da América do Sul incógnito e escolheu o MAM para expor em São Paulo”, diz Chaimovich, curador do museu.

Também em março, a instituição prepara grande mostra para o paulistano German Lorca. Serão fragmentos de sua passagem no Foto Cine Clube Bandeirante, entre 1948 e 1952, em especial uma série de falsos flagrantes.

Setembro será a vez de Adriana Varejão, da safra de artistas brasileiros inflacionados no mercado internacional –uma obra sua já foi arrematada por R$ 3 milhões.

Ela fará uma instalação a partir de trabalhos já consagrados, como esculturas de azulejo e carne cenográfica.

A partir de setembro, o MAM organizará um festival de arte e gastronomia. A cada semana, um cozinheiro e um artista farão dobradinha para criar uma experiência que conquiste, de uma só tacada, olhos e estômago.

Fonte: Folha de S. Paulo

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