Revolução da Salada precisa de um ingrediente: nova postura diária

Fui pra rua contra o aumento, fui pra rua e, finalmente, não me senti um ET! Finalmente eu não era uma única voz afirmando que dava pra melhorar a situação, que não podemos admitir “o menos pior”, devemos lutar pelo melhor, porque merecemos e temos direito à condições dignas de vida. O transporte público é uma piada e até me fez mudar de casa… afinal, passar mais de 4 horas por dia para ir e voltar do trabalho acabava comigo. Quando tive condições, fui morar perto do trabalho e a questão do transporte se tornou ainda mais incômoda pra mim. E as milhares de pessoas que não tinham esta mesma oportunidade?

2013-06-18 20.40.04

Eu fui pra rua, cantei hino em coro, gritei freneticamente que um professor vale mais do que o Neymar, que é legal o Brasil parar num momento que não é o Carnaval… Chorei sentindo a vibração daquele povo todo clamando por mudanças e, por mais que nem todos estivessem 100% certos do motivo que os levava àquele local naquele momento, é um primeiro passo para discutirmos abertamente política, direitos… é um primeiro passo para sairmos da letargia e deixarmos de ser um povo que “sofre, trabalha muito, mas é feliz”! Temos que ser um povo que gosta de trabalhar e tem força para exigir decência dos nossos representantes.

Agora vamos raciocinar… como continuar esta revolução de forma inteligente e pacífica? Concordo que temos de continuar indo pras ruas para pleitear a resolução de outras questões, já que a redução da passagem já foi concedida, e devemos manter-nos atentos para as formas de “compensação” do governo para a arrecadação menor que a esperada com as passagens de ônibus (afinal, não passa pela cabeça deles a ideia de diminuir a roubalheira no setor de transportes, né?). A revolução tem de continuar no nosso dia-a-dia. Se a cultura do “jeitinho brasileiro” continuar maciçamente disseminada, seremos tão corruptos quanto os caras com os quais estamos brigando! A ideia de que “o mundo é dos espertos” deve ser repensada. Em curto prazo, os espertinhos de fato se dão bem. Mas a máscara, inevitavelmente, cai!

Dar lugar aos idosos, gestantes e deficientes no transporte público, devolver troco a mais no transporte, não se aproveitar da fragilidade de uns para beneficiar outros, tratar igualmente todas as pessoas, respeitar os mais velhos, pagar impostos (são abusivos mas são nosso dever e, sem cumprir deveres, como pleitearemos nossos direitos?), ter bom senso, respeitar opiniões diversas, parar de pensar que “posso tudo, porque tô pagando”, respeitar o bem público… Enfim, bom senso no convívio em sociedade.

Uma forma importante de manifestar-se contra a bandalheira é comportar-se como você gostaria que os corruptos se comportassem. Se você joga lixo na rua, xinga todo mundo no trânsito, ignora os assentos preferenciais do ônibus, tenta burlar o Imposto de Renda, falsifica atestado médico, compra carteira de motorista, paga qualquer tipo de propina ou, simplesmente, ignora os problemas sociais que assolam nossa nação, você está agindo de forma tão duvidosa quanto aquele pessoal que aumenta o próprio salário, recebe propina, tira vantagem da ingenuidade das pessoas e desvia recursos dos cofres públicos para o próprio bolso.

As manifestações que levam milhares de cidadãos às ruas é, inquestionavelmente, incrível e bastante válida. Continuarei fazendo parte! Mas a revolução profunda e definitiva é essa do dia-a-dia, é reorientar nossa cultura (no sentido antropológico) para uma cultura de paz, convívio social civilizado, respeito e igualdade. Neste sentido, a atitude individual de cada pessoa faz a diferença, no maior espírito “gentileza gera gentileza”.

Eu acredito na mudança. Nós somos a mudança. A luta continua!

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Oito fatos que marcaram a cultura brasileira em 2012

Em 2012, o setor cultural brasileiro passou por mudanças e debates que podem apontar novos rumos políticos e mercadológicos para a área. Para encerrar o ano aqui no Cultura e Mercado, selecionamos oito fatos importantes para o país.

Qual mais além desses você indicaria?

Mudança no comando do Ministério da Cultura
No dia 11 de setembro, o Palácio do Planalto confirmou o convite da presidente Dilma Rousseff à então senadora Marta Suplicy (PT-SP), para substituir Ana de Hollanda no comando do Ministério da Cultura.

Já em seu discurso de posse, a nova ministra afirmou que uma de suas prioridades seria a aprovação do Vale Cultura – aprovado pelo Senado no dia 6 de dezembro.

Dois meses após assumir o cargo, em entrevistas aos principais jornais do país, Marta contou que pretende dar uma marca de “inclusão social” à sua gestão no ministério. Além de aprovar o Vale Cultura, ela pretende construir 360 CEUs das Artes — centros de produção cultural dotados, por exemplo, de biblioteca somente com livros artísticos. Também já começou a promover projetos e editais de incentivo à produção da cultura negra.

Marco civil da internet
A votação do Projeto de Lei 2.126/2011, o Marco Civil da Internet, foi adiada seis vezes desde que chegou à Câmara dos Deputados, em julho.

A meta do projeto é estabelecer direitos e responsabilidades no uso dos meios digitais, entre os quais a responsabilidade civil de provedores e usuários sobre o conteúdo publicado na internet e medidas para preservar e regulamentar direitos do usuário da rede como a liberdade de expressão e a privacidade.

A proposta sofre pressões principalmente por dois pontos: neutralidade e responsabilização de provedores por retirada de conteúdo – sendo que essa última ainda envolve discussões sobre direitos autorais, o que acabou gerando a intervenção do Ministério da Cultura.

Direito autoral
Além dos debates sobre direito autoral promovidos em torno do Marco Civil da Internet, esse tema também foi muito tratado em 2012 por conta da CPI do Ecad.

A Comissão investigou denúncias de irregularidades praticadas pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) na arrecadação e distribuição de recursos vindos do direito autoral de produções artísticas musicais e gerou um Projeto de Lei (PLS 129/2012), que trata do Novo Sistema de Gestão Coletiva de Direitos Autorais e estabelece normas para o exercício das atividades da entidade

Diante da pressão de artistas, servidores e dirigentes do Ecad, os senadores decidiram adiar a discussão da matéria para 2013.

Procultura
Em maio, Cultura e Mercado e Cemec promoveram em São Paulo o Seminário #procultura, que reuniu os principais agentes interessados no avanço do financiamento à cultura do Brasil em um dia de palestras, depoimentos e análises do texto que modifica a Lei Rouanet.

O deputado Pedro Eugênio (PT-PE), relator da proposta, apresentou os principais pontos a serem alterados na lei de incentivo à cultura brasileira.

O projeto traz novos recursos para o Fundo Nacional de Cultura, promete descentralizar os recursos territorialmente e criar linhas para privilegiar pequenos produtores e produtores independentes. Clique aqui para saber mais.

No início de 2013, é possível que os líderes da Câmara e o governo votem um requerimento de urgência para que o projeto seja levado a Plenário sem ter que passar pelas comissões de Financiamento e Tributação e de Constituição e Justiça. Depois disso, vai para o Senado.

Crescimento do mercado das artes plásticas
Estudo realizado pela Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT) e pelo projeto setorial de arte contemporânea da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), divulgado em maio, revelou que as galerias de artes monitoradas e que atuam no mercado primário (trabalham com o artista em atividade) cresceram em média 44% nos últimos dois anos.

O levantamento foi feito entre 40 galerias de sete estados brasileiros, que juntas representam cerca de 900 artistas. Essas mesmas galerias confirmam a tendência de internacionalização da arte contemporânea nacional, já que cerca de 48% dos seus artistas estão em coleções internacionais, enquanto 18% são representados por galerias estrangeiras e 20% dos seus negócios são gerados no exterior.

Junte-se a isso as visitações recorde em exposições, como a mostra “Impressionismo: Paris e a Modernidade”, no Centro Cultural Banco do Brasil, e “Caravaggio e Seus Seguidores”, no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Legado cultural da Copa
Segundo o Ministério da Cultura, durante a Copa do Mundo de 2014, são esperados no Brasil cerca de 600 mil turistas estrangeiros e uma movimentação de mais de 3,1 milhões de pessoas em todo o território nacional.

O assunto tem sido tema de diversos seminários e até de edital.

Em abril, a Câmara dos Deputados criou a Subcomissão Especial para o Legado Cultural. O grupo ficará encarregado de acompanhar a organização e os investimentos realizados em infraestrutura cultural na preparação para os megaeventos esportivos que o país sediará nos próximos anos.

Mudanças no mercado de entretenimento
Com o encalhe de ingressos para apresentações de grandes artistas internacionais e o cancelamento de shows, neste ano teve início um movimento que pode indicar mudanças estratégicas no mercado de entretenimento no Brasil.

Grandes empresas de entretenimento ao vivo uniram-se para criar duas associações, uma formada por produtoras de shows e musicais e outra por companhias que comercializam ingressos. A intenção é reduzir a proporção de meias-entradas ou, pelo menos, conseguir que os governos assumam a conta de parte do benefício.

Entidades de defesa do consumidor veem riscos para o público dos shows caso algumas demandas das novas associações sejam contempladas.

Por outro lado, já se fala em negociações mais intensas para baixar o valor dos cachês dos artistas internacionais e um aumento no número de cidades das apresentações para diluir custos, tentando expandir para além do tradicional circuito Rio-São Paulo.

Nova lei da TV paga
Sancionada em setembro de 2011, a Lei 12.485 entrou em vigor neste ano e, apesar de todas as polêmicas, já começa a movimentar o mercado audivisual nacional.

Até final de 2013, todos os canais brasileiros de séries, filmes, documentários e animação de TV paga deverão ter em sua grade de programação pelo menos 3h30 por semana de conteúdo nacional e de produção independente em horário nobre – embora algumas programadoras já estejam pedindo dispensa da obrigatoriedade.

Isso tem gerado um significativo aumento na procura por produtoras e roteiristas de produtos nacionais, provocando mudanças de hábitos e padrões em empresas estabelecidas e estimulando o crescimento de outras.

Fonte: Cultura e Mercado

Massa e utopia – Megaexposições no Brasil reafirmam o conceito de indústria cultural criado por Adorno e Horkheimer

A mercadoria cultural, diz Adorno, não precisa mais ser vendida. Depurando-se tendencialmente dos elementos concretos (fundados na apropriação reflexiva do objeto por parte do sujeito), tais obras têm seu valor cada vez mais limitado ao de troca, de representação, ao veicular significados abstratos e pouco definidos (como “juventude”, “família”, “feminilidade”, “aventura” etc.).

Seu valor de uso metaboliza-se como suporte cada vez mais desqualificado em si mesmo – em direção a algo cuja especificidade de construção é o menos relevante possível –, de modo a acolher toda a gama de afunilamentos estereotipados e padrões que pré-formatam a percepção do próprio objeto.

Dada a fluidez incessante com que a moda e tendências artificialmente insufladas nos objetos se impõem como princípio da aceitabilidade do que é consumido, a mercadoria cultural não precisa ter preço, uma vez que o sistema inteiro é vendido, propagandeado e assim se reafirma em cada uma.

Isso implica dizer que nunca se consome um objeto em sua singularidade – duplamente pensada: tanto pela especificidade de sua constituição imanente, quanto pela concretude reflexiva da demanda subjetiva. Em vez disso, uma densa rede de princípios que sustentam a mobilidade da dinâmica capitalista se consubstancia na docilidade com que cada objeto “presta um serviço” ao indivíduo, por facilitar ao máximo seu espelhamento em tais princípios globalizantes.

Cada acorde estridente e agressivo em um solo de guitarra de uma música de cultura de massa, por exemplo, deverá ser tão juvenil e irreverente quanto a música inteira, e a própria pessoa gostaria de se perceber não apenas naquele momento, mas como ingrediente do culto de sua própria personalidade. De forma análoga, um beijo em uma novela deverá ser tão romântico e enternecido quanto toda a sequência de capítulos, quanto também cada espectador demanda se definir ou se ver como tal.

Produção artificial

As linhas acima delineiam uma faceta significativa do modo como Theodor Adorno compreende a submersão da cultura no fluxo incessante da produção artificial de valores, a serem absorvidos segundo parâmetros alheios à lógica que institui a identidade das obras consigo mesmas.

Longe se está do princípio laborioso de constituição de um sujeito através do modo com que se defronta com o objeto que resiste aos princípios imperialistas dos processos de subjetivação.

Em vez de uma objetividade do objeto que assegura sua dignidade ao se recusar a ser absorvido pelo horizonte subjetivo, tem-se um curto-circuito entre a totalidade social e uma individualidade que percebe a si mesma ao refletir, para sua glória, essa sublimidade coletiva.

Temos, a partir dessas colocações iniciais, um duplo movimento de equalização entre um âmbito universal (ou totalizante) e um particular (ou individual), pois tanto os elementos específicos são submergidos em um esquema geral de confecção das obras quanto cada indivíduo demanda um espelhamento no fluxo de constituição do real pelos valores sociais, econômicos, religiosos etc.

Trata-se do que Adorno denominou uma reconciliação forçada entre particular e universal, pois a conexão entre ambos os polos ocorre de forma a fortalecer a inércia social das relações de poder.

O paradigma da construção ideológica atual não é mais a transcendência sublime, vazia em sua elevação para muito além das vicissitudes da dialética da vida humana, mas sim este construto cultural que abdica da inteireza de sentido, cedendo ao fluxo incessante da comunicação toda a eloquência que deveria alcançar precisamente em sua diferença perante os processos de reificação.

Não cabe falar, diante deste estado de coisas, de uma obra que se venda aos milhões por se distinguir das outras na excelência com que consuma uma lei de movimento próprio, mas sim, bastante ao contrário, pela mestria técnica com que codifica uma totalidade violentadora dos indivíduos.

Tal violência deriva do fato de se ensinar aos consumidores a percepção da continuidade da ordem subsistente como seu próprio sentido, em vez de fomentar o desejo de instituir uma nova concepção de mundo.

Assiste-se a uma adequação crescente entre uma subjetividade que se institui como aglutinação de tendências sociais reificadas e objetos que se produzem e reproduzem sob os auspícios de uma lógica industrial de que os indivíduos querem tomar parte. Clara está a apropriação de uma totalidade que se renova incessantemente ao ser vendida em pequenas partes que cabem a cada um na percepção de sua impotência diante de uma lógica social onipotente.

A renovação, mutabilidade, meios de escolha e toda sorte de diferenciações prismáticas entre os objetos constituem o conteúdo manifesto de uma lógica implícita, que exclui tendencialmente a substancialidade que o singular poderia ter ao não mais aderir a este plano da existência.

A eficácia da cultura de massa é dada, assim, pelo modo com que ela se aproxima de uma imbricação indiferenciada entre cada elemento particular e a totalidade, tanto quanto da obra quanto macro, da sociedade.

Tudo isso, deve-se salientar, não configura um princípio descritivo de coisas, a partir do qual pudéssemos identificar objetos especificamente “de cultura de massa”, mas sim um princípio de análise contextual, que quer apreender uma lógica de inserção de quaisquer objetos, situações ou realidades sociais em uma racionalidade propriamente instrumental, por reduzir ao máximo a qualificação de algo a apenas meio, veículo, para algum fim.

Entre outras coisas, isto significa o poder da industrialização da cultura em se apropriar de inumeráveis objetos sem que nada seja alterado em seu aspecto físico, plástico, material.

Grandes exposições de arte, como as que pudemos assistir recentemente em São Paulo, do pintor italiano Caravaggio e também dos impressionistas franceses, não necessitam de qualquer intervenção concreta no sentido de adequá-las a uma percepção massificada, pois esta já pode se dar para vários dos espectadores, quando a arte será tomada como confirmando tudo aquilo que já se falava dela, a saber, que possui alto valor cultural.

O sumiço da obra

Mesmo deixada em sua realidade material primeira, a obra “desaparece” por detrás de sua imagem, estampada em todos os livros de arte que provavelmente o espectador já terá freqüentado antes de ter os quadros reais diante dos olhos. A dignidade da própria pintura tenderá a se resumir na confirmação gloriosa de quanto o livro era fiel como enunciador mítico de um discurso, de uma imagem, que deverá ser resgatada neste ritual de apropriação da obra em sua concretude física, mas não mais espiritual.

Tal como o turista coloca seu próprio prazer a serviço dos valores publicitários, averiguando com os próprios olhos o quanto o cartaz da agência era verdadeiro, o consumidor da arte obtém um ganho narcísico pelo modo com que ratifica o valor elevado da cultura, que se impregna em um discurso suficientemente brilhante, sofisticado e sublime.

Há que se atentar para o fato de que não se trata necessariamente de banalização, uma vez que a arte poderá ser consumida no instante mesmo em que se lhe assegura sua singularidade, como espécie de pedestal que testemunha uma elevação possível para além da mesmice daquela cultura de massa clara e positivamente marcada como tal.

Muito útil para entender tais questões é a ideia de Adorno de que a música de cultura de massa ouve a si mesma, em lugar do sujeito. Ela já está pré-digerida, contendo antecipações de quaisquer desenvolvimentos melódicos que se apresentam, insistentes, ao longo do tempo musical.

Assim, toda a música se converte em uma série de implicações tautológicas do que já se esperava dela. Trata-se de movimentos reiterados no sentido de subtrair ao espectador a oportunidade de ter prazer com a construção do sentido, do significado que uma obra tem em sua especificidade, em sua concretude como algo cuja totalidade depende da capacidade de cada observador em articular, pela imaginação, todos os elementos particulares.

Neste último caso, que caracteriza as obras de arte em sentido estrito, cada elemento, que irá se somar para constituir a obra como um todo, sempre apresenta um grau expressivo de resistência para sua integração.

As grandes obras, que por assim dizer abrem capítulos da história da arte, solicitam o que Adorno fala como “mitkomponieren”, um compor simultaneamente a música ao ouvi-la, seguindo seus desdobramentos como se, ao mesmo tempo, nos colocássemos a tarefa de contribuir para a geração de um sentido para a conexão de todos os sons.

Embora sempre se possa criticar uma diferenciação enfática entre os âmbitos de cultura de massa e da arte séria – na medida em que há várias obras com características de ambos os polos –, tal distinção conceitual é muito significativa para Adorno.

Ela contribui de forma decisiva para seu projeto filosófico de conceber uma relação entre sujeito e realidade que ultrapasse as vicissitudes da racionalidade instrumental, consubstanciada na técnica, na ciência, no capitalismo, nas instituições políticas e, particularmente, na colonização do âmbito estético pelo desejo de lucro e de manutenção da ordem existente, ou seja, na indústria cultural.

Tal como dissemos, a relevância deste delineamento conceitual não deve ser medida por sua habilidade de descrever objetivamente cada música, filme ou romance, mas sim por instituir um princípio de análise crítica sobre como quaisquer produtos podem se adequar à lógica de colonização dos meios pelos fins de geração de valores, principalmente os econômicos.

Racionalidade

Mais relevante ainda, entretanto, mostra-se a configuração da arte séria como uma espécie de antecipação alegórica de um espaço de utopia, em que se vislumbra, mesmo que de forma bastante indeterminada, uma reconciliação possível entre indivíduo e sociedade, espírito e natureza, intelecto e sensibilidade.

Embora tal concepção tenha sido criticada por diversos autores como por demais metafísica, a resposta, dentro da obra adorniana, consiste em apontar enfaticamente que tal reconciliação utópica permanece válida apenas se mantida no âmbito de uma possibilidade, de modo que toda sua figuração positiva, atual, necessariamente a falsifica.

Assim, que haja obras de arte cuja excelência as destaca indubitavelmente do contexto de apropriação capitalista do prazer estético é muito mais significativo do que a incerteza de aplicação do conceito crítico de indústria cultural a diversas obras que seriam, por assim dizer, híbridas, não totalmente claras quanto a seu valor como arte ou cultura de massa.

A melhor resposta à crítica de um teor metafísico, entretanto, nos parece a de que as grandes obras de arte, tal como Adorno as concebe, apresentam- -se como índice de uma racionalidade que robustece a si mesma devido a seu constante exercício. Perceber a cada momento o quanto o sentido de nossa relação com as coisas depende de nosso engajamento reflexivo é parte essencial de nossa atitude para com as grandes obras de arte.

Sua relutância em se acomodar a nosso narcisismo, ao culto de nossa personalidade, demonstra sua excelência como um convite de decifração de seu enigma, ligado profundamente àquilo que lhe confere um valor no âmbito da cultura.

Consciente de que a aceitação deste convite já demanda uma subjetividade afim à que a arte pretende formar, Adorno insiste na importância da filosofia como porta-voz eminente de um significado que permanece “mudo” na relação concreta com as próprias obras. Muito de seu pensamento tem como sentido mais próprio fazer falar o que permanece como um silêncio eloqüente no cerne dos grandes monumentos da cultura – cabe a nós a disposição de aprender com esse diálogo.

Verlaine Freitas

é professor de filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais e autor de Adorno e a Arte Contemporânea (Zahar)

Fonte: Revista Cult

Lobotomia, nomes duplos e Papai Noel

por Mariana Paes

Meu primeiro emprego com carteira assinada foi no call center de um banco. Eu fazia aulas de canto, faculdade e trabalhava. Algumas peculiaridades da vida de atendente me fizeram escrever uma matéria sobre isso durante a época de curso de Jornalismo.

Resolvi resgatá-lo e compartilhar aqui…

Lobotomia, nomes duplos e Papai Noel

Um grande prédio, um grande número de computadores por andar. Cerca de 4.000 pares de olhos que respondem por nomes duplos a um telefone que toca sem parar: após um cliente mal educado, em quatro segundos os dados de outra pessoa aparecem na tela, seguido de um pitoresco cumprimento: “Rafaela Silvana, bom dia”.

Aqueles pares de olhos passam seis horas diárias frente ao computador respondendo aos clientes conforme manual com frases “pré-fabricadas”. São praticamente uma extensão do equipamento. Após um mês de treinamento — português, comportamento, ergonomia, sistema da empresa — quase 100 ligações passam por cada um dos telefones da gigantesca central de atendimento ao cliente numa jornada de 6 horas.

Nas seis horas, dez minutos para ir ao banheiro e/ou tomar água e quinze para tomar um lanche de “pão com alguma coisa” com algum acompanhamento: chá, café, café com leite, chocolate, suco ou água. Aliás, em feriados, madrugadas, finais de semana, dias de chuva ou sol, nomes duplos atendem sob a égide de regras definidas em tempos anteriores ao nascimento de seus pais.

Todas as ligações gravadas. É exigido controle emocional mesmo quando o cliente culpa o atendente por seus problemas, xinga ou até mesmo ameaça de morte a pessoa que está ali apenas como interlocutor da instituição.

Esse controle também é necessário ao lidar com “donos” de nomes incomuns, que escolhi não citar para evitar expô-los. Mas, acreditem, tem mistura de nomes de artistas, de parques da Disney e até pessoas com nomes de lojas, frutas e bandas. Risinhos? Não, são passíveis de demissão aqueles que deixarem escapar. Corda bamba também para os que ficam “no vermelho” e não saem do cheque especial.

Uma vez por semana o supervisor (que zela por aproximadamente 25 atendentes) chama seus funcionários. Uma ligação atendida por cada nome duplo é analisada e uma nota é estipulada. O supervisor explica que o atendente não pode rir, falar seu nome verdadeiro, informar onde fica a central de atendimento, tem que cuidar pra não ter uma Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e vender, vender, vender.

Aquele velhinho que mal ouve o que o nome duplo diz que só queria saber se precisa mesmo pagar a conta de 100 reais, lamenta muito por ter pouca aposentadoria, aproveita os ouvidos receptivos do outro lado da linha e fala sobre quando foi militar, como sua esposa faleceu e quão ruim foi quando seus filhos pensaram em colocá-lo em um asilo.

Mesmo após ouvir todas as lamúrias, aquele nome duplo é obrigado a oferecer um serviço que custa caro para um aposentado. Ele compra e o peso na consciência é enorme… parece que ele nem entendeu nada, mas só comprou porque “foi muito bom falar com você, uma moça tão educada, filha”.

Então é a hora de seguir outra parte do script: comemorar a venda. Sim, porque todo nome duplo que se preza tem um pompom similar ao das Paquitas nos anos 80. O “acessório” fica na gaveta da mesa. Aquela mesa não pertence a ninguém, nem o pompom, porque cada dia os nomes duplos se acomodam “onde tem lugar”, contanto que seja naquele núcleo próximo ao supervisor.

Mas o que importa é que o velhinho comprou o produto: o pompom chacoalha no alto e o restante da equipe deve seguir o gesto para mostrar aos outros grupos que ali tem gente que sabe vender e pode “bater a meta”. Trabalham cinco dias por semana. Se esses coincidirem com os dias úteis, ótimo. Se não, paciência. Mas os nomes duplos preferem achar isso bom porque dinheiro da hora extra é bem vindo. Sempre devem ofertar os produtos, em todos os atendimentos (exceto quando o cliente estiver devendo, claro) e precisam vender mais de 100 produtos por dia.

Tarefa difícil quando 90% dos atendimentos são de clientes irritados, querendo que a empresa exploda e todos os seus funcionários morram de forma lenta e dolorosa. A fala robótica dos nomes duplos causa ainda mais ira. Ofertar produto? Precisa, mas não adianta. Quem vende muito ganha brinde, café da manhã, camiseta, boné, porta-cd. Tudo com a bela marca da instituição, que está espalhada por todo o país.

Todos os dias são iguais. Tem que bater o cartão dois minutos antes ou depois do horário de início do expediente. Nenhum papel, caneta, celular. O melhor amigo é o headset, o fone que deve ser ”trocado de ouvido” a cada hora para evitar problemas auditivos, conforme o treinamento do mês que precede o início da vida escondida por trás de um nome duplo.

Para as milhares de pessoas que são atendidas, ali são computadores com nomes duplos. Não existe vida do outro lado da linha quando recorrem ao call center. Para os nomes duplos, sábado, domingo e feriado são folgas que dependem da escala mensal, assim como o horário do lanche, que um dia é às 9h45, outro é às 10h30, outro é às 11h15. O sistema escolhe as folgas os lanches e os nomes duplos.

Os atendentes não têm sobrenome, portanto, não têm família, passado, sentimento ou sofrimento. Sempre uma faceira saudação deve iniciar um atendimento, independente de dor de cabeça, problemas familiares, cólicas, sono… afinal, computadores sentem alguma coisa?

Mas os nomes duplos não costumam reclamar. São abduzidos por benefícios que os fazem “prosperar” no capitalismo canibal e desigual da terra verde e amarela. Participação nos lucros, trabalho registrado mesmo com a faculdade ainda em curso, redução nas taxas, facilidades em financiamentos, seis horas de jornada, convênio médico e odontológico: o mundo maravilhoso que se abre no horizonte.

Inexplicavelmente o mundo das regras — sem mudanças drásticas no visual, unhas aparadas, sapatos engraxados, nada de roupas extravagantes, barba feita, cabelos cortados, postura adequada, roupas passadas (sim, até isso) — torna-se uma extensão da vida dos nomes duplos que voltam a usar seus nomes comuns ao sair da central de atendimento mas continuam invisíveis: repetem frases prontas em script, seguem o que está no sistema e nas “leis de conduta”. Tudo é lindo. O Papai Noel também. Lobotomia?

Momento surto criativo: Roteiro alternativo para Avenida Brasil

por Mariana Paes
colaboração de Camila Barone

A história da televisão brasileira se confunde com a história das telenovelas brasileiras… ano após ano vemos várias delas chegando e indo embora, lançando modas, alienando pessoas, causando risos, lágrimas, revolta e tudo mais.

Sem hipocrisia, todo mundo já parou um pouquinho na frente da TV pra checar a novela. Com as mesmas figurinhas se repetindo sempre na tela, dá pra confundir histórias. Mas, o interessante mesmo, é criar roteiros alternativos, que interligam diversas novelas. Eu e minha amiga Camila Barone criamos um desfecho alternativo para “Avenida Brasil”:

– Na verdade o Albieri é o grande vilão da novela, com sua sobrancelha horrível que vem desde “O Clobe”
E a sobrancelha do Albieri continua a mesma! Clona bonequinhos em sua oficina para testar suas técnicas, até o momento em que revela sua grande experiência: Tufão é “O Clone” de Lucas, Leo e Diogo Ferraz.

– Além de Albieri, outra pessoa chega do Marrocos: Jade, que revela ser a mãe da Carminha. Gerando uma grande questão filosófica pra socidade brasileira: o pai de carminha é o Lucas, que tem o mesmo DNA do marido que Carminha usou e abusou. Isso é crime… talvez, não sabemos… o público vai debater.

– Outra fugitiva do Marrocos é Nazira (afinal, a equipe de “O Clone” instituiu a ponte aérea Rio-Marrocos), que na verdade gerou o Tufão-clone e está lá espionando Carminha.

– Toda falta de ética e noção dos personagens nos indica que realmente estamos no fim dos tempos, mas só temos certeza disso quando um dinossauro (vindo diretamente da “Morde & Assopra”) chega para ajudar Carminha (Julia, que parecia boazinha na outra novela) em seus crimes.

– De repente, Mário Jorge (Miguel Falabela) aparece na casa do Tufão pedindo que Celinha (Carminha) volte para casa com ele, no Jambalaia Tower. Aí o público descobre que é tradição da Carminha viver em uma casa com o maior entra e sai de gente, palpiteiros de plantão e figurinos duvidosos. Bozena vai pra casa da Carminha, direto de Pato Branco, para substituir a Nina.

– A vida de prostituta da Carminha foi intensa: Antonio Fagundes aparece pra tentar seduzí-la novamente, já que é “O Rei do Gado”.

– Enquanto isso, no núcleo engraçado da novela, Cadinho revela ser Jacques Leclair e começa a fazer roupas para ganhar dinheiro e sair da lama. Como Carolina Ferraz é a mais posuda de suas três esposas, ele se casa definitivamente com ela, que na verdade é Amanda, que foi abandonada pelo Astro (Rodrigo Lombardi) por causa da Gabriela (Juliana Paes).

– Então, Max finalmente vê que a concorrência tá complicada e volta pra Babalu (Letícia Spiler). Mas o relacionamento acaba no momento em que Babalu descobre que ele é o Xandy, que engravidou Nina (Débora Fabela), que usava o nome Mel em “O Clone”.

– Já que a Nina na verdade é a Mel, mocinha que abusava das drogas, dá pra entender o motivo de ela ficar tão bitolada na vingança e ter tanta gana por dinheiro!

Fim…

Contra o machismo na área náutica

por Mariana Paes

Hoje vou usar o espaço do blog para um texto diferente… preciso expor algumas situações e manifestar meu posicionamento.

Há cerca de dois anos conheci a arte da vela… ouvir o vento, entender o mar e usá-los da melhor forma para deslizar pelas águas. Comecei com livros e filmes sobre o assunto, principalmente os materiais da Família Shurmann.

Aos poucos, fui me encantando por essa arte incrível, fiz curso de vela e hoje me considero uma velejadora iniciante. Já aprendi o vocabulário náutico, sei ficar no leme e também regular as velas, aprendi várias coisas relativas à regras para entrar em países pelo mar, como tratar outros velejadores, que cursos fazer para dar a volta ao mundo e, principalmente, como trabalhar em equipe no barco.

Nesse período, ouvi algumas idiotices de homens… tipo “você não aguenta ficar no mar”, “é uma viagem muito longa pra você”… cheguei até a ouvir que mulher não era parte da tripulação, que só servia para limpar e arrumar o barco. Não me intimido com chuva, trovão, vento forte, mar grosso… mas o que me faz chorar de raiva é esse tipo de pensamento machista e retrógrado!

Sim, eu posso fazer comida pro pessoal e arrumar o barco, mas isso não me faz incapaz de puxar cabo, regular vela, ficar no leme, limpar casco, bater prego ou qualquer outra coisa. Talvez para algumas funções me falte força física, mas não falta fibra e vontade. No barco o que conta é cooperar, trabalhar em equipe, entender a importância e o papel de cada um e ser flexível, entender os sinais da natureza e respeitá-la. E vão me dizer que mulher não aguenta ou devia ficar em casa… perco a paciência. Não tolero machismo.

Agora olho em um site de um grande evento náutico e me deparo com uma chamada péssima, dizendo que o evento também é pra mulheres, já que tem lojas de decoração para barcos, acessórios e roupas apropriadas. Faça-me um favor!!! Uma entidade oficial do setor tomar uma postura tão sem noção quanto essa é uma afronta! Mulheres incríveis colocaram seu nome na história da vela mundial, como Jessica Watson, Isabel Pimentel e Heloísa Shurmann… com muita garra, fibra e coragem! E o povo ainda têm coragem de escrever um absurdo desse!

E esss pessoal que faz eventos acha que o foco é sempre masculino, rebaixa a mulher a simples objeto e a coloca como demonstradora de produtos com roupas diminutas, como se fossem meras bonecas infláveis. E ainda sujeitam as moças, que precisam trabalhar, a situações constrangedoras. Tudo bem que várias delas concorda com essa palhaçada, mas promover uma coisa dessas é uma violência contra o feminino.

Sou mulher, sou delicada, mas sei o que eu quero e sou firme. Não velejo pra agradar ninguém, nem vou pro barco só pra agradar o namorado ou pra fazer tipo. Vou porque amo, porque quero, gosto e pretendo viver minha vida assim. E, se for pra ir contra essa babaquice de machismo nesse meio, ok… viro leoa e defendo as mulheres velejadoras. Mas NINGUÉM vai vir falar na minha cara que a gente não é capaz!!!

Podem me chamar de hipócrita, feminista… a questão é respeito!

Sorte ter ao meu lado um velejador que não tem esse tipo de caca na cabeça!

#prontofalei

Museus: olhar para o futuro

Guardiões da cultura dos povos, os museus têm hoje o desafio de buscar uma inclusão na cidade e no ambiente social em que estão inseridos. Não é mais suficiente preservar e oferecer o acervo à visitação. Os museus precisam atuar no presente e olhar para o futuro; assumir a multiplicidade de papéis que a população espera deles e, assim, se constituir em pólos dinâmicos, promotores da vida cultural.

Sabemos que a limitação de recursos financeiros é um problema importante a considerar. Por isso, é imprescindível que os museus diversifiquem suas fontes de recursos, não dependendo exclusivamente do orçamento direto dos órgãos a que estão vinculados. Esta é uma das questões centrais da gestão dos equipamentos culturais, tema debatido amplamente no 4º Encontro Paulista de Museus, realizado em junho, na capital paulista, com a participação de cerca de 1.000 profissionais atuantes no Estado.

Organizados pela Secretaria de Estado da Cultura, os Encontros são apenas uma das ações governamentais voltadas à qualificação dos museus paulistas. O Sistema Estadual de Museus (SISEM), também mantido pelo Estado, trabalha permanentemente no fomento ao diálogo, na articulação de redes regionais e temáticas, em assistências técnicas e oportunidades de aperfeiçoamento para os profissionais da área.

Este ano, por exemplo, o Curso de Capacitação Museológica – gratuito – acontecerá nas cidades de Itapeva e Ribeirão Preto, beneficiando profissionais das duas regiões. Esta edição do curso promoverá discussões sobre curadoria, técnicas de expografia, montagem, conservação preventiva e elaboração de projetos, conhecimentos indispensáveis para todos os profissionais de museus.

Como resultado do trabalho desenvolvido pelo SISEM, a Secretaria anunciou durante o Encontro outra iniciativa importantíssima: a criação de dois editais do Programa de Ação Cultural (ProAC) voltados especificamente para museus, com verba total de R$ 550 mil. O primeiro edital vai apoiar cinco projetos de difusão de acervos museológicos, cada um com prêmio de R$ 50 mil; o segundo, terá três prêmios para projetos de preservação de acervos, de R$ 100 mil cada um.

A intenção, com esta iniciativa, é fornecer mais um mecanismo de financiamento público para os museus, buscando uma gestão profissionalizada, que planeja e recorre a múltiplas fontes de recursos para implantar projetos novos.

As inscrições para os dois concursos estão abertas até os dias 15/8 (difusão) e 17/8 (preservação de acervos); todas as informações necessárias estão disponíveis no site da Secretaria. Trata-se de uma oportunidade ímpar para que as instituições, principalmente as do interior, desenvolvam ações novas, com potencial para movimentar sua programação e abrir novos diálogos com o público. Ambos os editais exigem contrapartidas, na forma de capacitações, palestras, seminários e o ficinas relacionadas aos temas trabalhados.

A Secretaria de Estado da Cultura tem uma grande expectativa quanto ao sucesso desses dois editais – acreditamos que serão apenas os primeiros – em consonância com a relevância dos museus para a vida cultural da atualidade. Por isso, a participação das instituições é imprescindível para que possamos justificar, no futuro, novos e mais vultosos investimentos em editais específicos para museus

Fonte: Cultura e Mercado

Biografia mais completa sobre Frida Kahlo chega ao Brasil com 30 anos de atraso

por Estela Cotes

Uma das imagens que ilustram o livro

A imagem de Frida Kahlo percorre o imaginário mundial depois de tantas reproduções de seus retratos, quase como um Che Guevara do México. Material não falta para remontar sua trágica história pessoal, além  das obras em tela. No Brasil, no entanto, não existia ainda o que chamam de “biografia definitiva” da artista mexicana, lançada oficialmente em 1983. “Frida – A Biografia” (Ed. Globo, 624 págs., R$ 64,90), da norte-americana Hayden Herrera chegou finalmente por aqui no final de outubro.

A diferença deste livro para as inúmeras opções na prateleira é a pesquisa. A escritora teve acesso ao diário de Frida e às cartas redigidas na infância. Entrevistou mais de cem pessoas, como Alejandro Gómez, o primeiro namorado, e Isamu Noguchi, escultor japonês e amante da pintora.

A personalidade forte, a inquietação mesmo diante da fragilidade física e os inúmeros romances. Nada escapa neste profundo mergulho na vida da artista, como o dia em que Noguchi fugiu da casa da mexicana antes de ser pego por Diego Rivera.

Hayden Herrera como historiadora de arte também interpreta e analisa a obra de Frida. A autora salienta a forte identificação das pessoas com o trabalho da pintora através do sofrimento. Para a norte-americana, todo mundo se interessa pelas aflições alheias. E deste assunto Frida Kahlo entendeu bem. Tragédia não faltou na sua vida: a perda do útero em um acidente de ônibus e as inúmeras traições de Diego Rivera são apenas dois exemplos.

Momentos polêmicos que se tornaram mito no México também são desvendados neste livro. Herrera investiga inclusive o mito de que Frida teria participado do espancamento de uma jovem lésbica que havia se interessado por ela, além de trazer detalhes sobre o romance com Leon Trotsky. “Frida – A Biografia” não traz novidades em imagens, as fotos escolhidas no livro já foram vistas em outras publicações. Seu texto balizou as filmagens de Julie Taymor para o longa estrelado por Salma Hayek e é sem dúvida a obra mais completa sobre a artista. Pelo menos até agora.

Fonte: Colherada Cultural

A quantas andam as vendas de livros no Brasil?

Uma auditoria realizada pela GFK Brasil, nos primeiros cinco meses deste ano, mostra que do universo de 4.500 analisadas editoras analisadas, apenas 10 foram responsáveis por quase 30% do faturamento do mercado editorial no Brasil.

Para que se tenha uma ideia do levantamento, pioneiro por medir o mercado no ponto de venda ao consumidor, cinco destas 10 maiores editoras responderam, por exemplo, por 18% do total arrecadado com a venda de livros no varejo brasileiro, enquanto as três tops concentraram 12% do montante.

Dentre os 150.000 títulos verificados, 20 responderam por 8% do faturamento do setor. Já os dez títulos mais expressivos foram responsáveis por 5,8%, enquanto três deles contribuíram com 3,6% da arrecadação total.

O estudo levou em conta o cenário de vendas em livrarias, sites e diversos pontos de venda – como lojas de departamentos e hipermercados – que comercializam livros no País. Além dos livros tradicionais, também foram pesquisados e-books e áudio books em três categorias: Não Ficção (Direito, Medicina, Ciências etc.), Ficção (Literatura, Jogos) e Infantil Juvenil (ficção e não ficção).

“A divulgação de indicadores sobre o mercado editorial agora faz parte do escopo de trabalho da GfK no Brasil. Trazemos a expertise de nossas operações em 14 países, onde a apuração de dados junto a varejistas de livros já é uma prática consolidada. A expectativa é que esse levantamento seja contínuo para subsidiar a tomada de decisões estratégicas e táticas de editoras e livrarias”, explica Diogo Bettencourt, gerente de novos negócios da GfK Brasil.

A evolução das vendas no Brasil

O Painel de Livros da GfK Brasil procurou apresentar o perfil das vendas ao consumidor final realizadas no País. Em função disso, o mês de janeiro – considerado a base de 100% – é o que apresentou o maior volume de saídas de livros, já que agrupou dois fenômenos responsáveis pelo aumento da demanda: época de férias e procura por livros didáticos.

Mas ao longo do ano o volume diminui. Fevereiro registrou a queda mais brusca dos cinco meses analisados: 24,7%. Em março houve alta de 4,8% no total de unidades vendidas e abril foi marcado pela queda de 5,2% no volume de vendas, enquanto maio apresentou alta de 7,5%.

Basicamente entre janeiro e fevereiro houve uma queda no faturamento da venda de títulos da ordem de 20,6%. Entretanto no período, o preço médio do livro subiu 5,5%. E nos meses de abril a maio o faturamento voltou a subir em 5,6% enquanto o preço caiu em 1,8%.

A auditoria apurou também o comportamento das vendas por categorias, sempre tendo como base o mês de janeiro (100%). Em fevereiro, no segmento de não ficção, as vendas foram da ordem de 83%, com alta em março (90%), queda em abril (77%) e nova alta em maio (81%). Já nos livros de ficção a queda foi maior: 71% em fevereiro, 73% em março, 73% em abril e 78% em maio. Na categoria infantil e juvenil a oscilação das vendas registrou 73% em fevereiro, 78% em março, 79% em abril e 87% em maio.

A categoria mais importante, de janeiro e maio, tanto em volume de unidades vendidas quanto em faturamento, foi a de não ficção, que representou 71,7% do faturamento do mercado e 61% do volume de livros vendidos. Já em unidades, os gêneros mais vendidos foram Literatura Estrangeira (17% do total do mercado) e Infantil e Juvenil (15,5%). Em faturamento, o destaque ficou com Ciências (17,8%), seguido de Administração/Economia/Informática (16,4%).

“A taxa de analfabetismo no Brasil está caindo e isso possibilita ampliar o mercado consumidor. Por outro lado, o País apresenta distorções que dificultam melhorar o cenário. Enquanto o preço médio do livro de ficção aqui é de R$ 32,00, na França é de R$ 26,10. O de não ficção no Brasil custa em média R$ 49,40 e na França R$ 34,60. Já o Infantil/Juvenil – que no varejo brasileiro é vendido por R$ 28,60, em média –, é comercializado a R$ 18,50 na França”, explica Claudia Bindo, gerente de atendimento da GfK Brasil, ressaltando que o contraste fica ainda maior quando se analisa a média geral. “Se por um lado o preço médio do livro no Brasil é de R$ 45,00 e temos uma renda per capita média abaixo de R$ 30 mil por ano, na França o livro custa menos da metade do vendido aqui, enquanto a renda da população deles é três vezes maior que a brasileira”, conclui Claudia.

Fonte: Portal No Varejo

Semana de 22 completa 90 anos e muitas das obras estão nos museus

por Maria Hirszman

Entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, o saguão do Teatro Municipal de São Paulo abrigou um conjunto amplo de obras – pinturas, esculturas, projetos arquitetônicos – consideradas ousadas o suficiente para receberem o título de “modernistas”. O intuito era demonstrar a existência de um amplo movimento de contestação às normas de criação alinhadas com os modelos ditos “passadistas”, vinculados a regras e modelos importados e transmitidos artificialmente por meio de uma esterilização acadêmica. É um grande e comum engano, no entanto, atribuir à Semana de Arte Moderna o papel de momento fundador da arte moderna no Brasil. A atualização dos modelos de criação artística se deu de forma muito mais sutil e diversificada do que indica a mitificação desse momento explosivo pela historiografia oficial.

Para entender tal afirmação, basta olhar com mais detalhes as obras, tanto dos artistas que participaram efetivamente do movimento como daqueles que estavam ausentes, mas ocupam posições de destaque na história da arte moderna brasileira. Enquanto alguns nomes que constam do catálogo da Semana de Arte Moderna caíram no esquecimento, como por exemplo Alberto Martins Ribeiro e Hildegardo Velloso, outros devem obrigatoriamente ser mencionados – e vistos – quando se trata de estudar esse fenômeno. Para referendar tal afirmação, pode-se lembrar da importância de Lasar Segall, cuja obra está reunida no museu que leva seu nome no bairro paulistano de Vila Mariana.

Esses trabalhos se encontram à disposição do público em uma extensa rede de museus, sobretudo no Rio e em São Paulo. Os interessados em conhecer essa história mais de perto podem encontrar belos recortes da produção da primeira geração modernista brasileira em instituições de perfil bastante diverso, como o Masp, a Pinacoteca do Estado, o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC), o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) ou o Museu de Arte Moderna (MAM) e Museu Nacional de Belas Artes no Rio. Mesmo considerando seus perfis específicos (enfatizando seja a produção local em termos de longo prazo, seja uma inserção no contexto internacional), esses espaços oferecem mostras de caráter permanente com obras de grande relevância, que dão ao público a possibilidade de conhecer melhor a história cultural do País.

Dentre as figuras maiores do modernismo nacional, Anita Malfatti e Di Cavalcanti foram os grandes destaques do evento. Nesse momento, no entanto, a pintora já havia feito, havia muito, as duas exposições individuais que a consagraram como uma das principais responsáveis pela absorção do projeto modernista no Brasil, e, em 1922, sua obra já dava claros sinais de acomodação. Talvez por isso boa parte das 20 pinturas que ela levou ao saguão do Teatro – a mais ampla representação da mostra – já haviam sido vistas na antológica exposição de 1917, criticada no célebre artigo Paranoia ou Mistificação, publicado por Monteiro Lobato no Estado de S. Paulo. Dentre as telas reexibidas destacam-se por exemplo O Homem Amarelo e A Boba, pintadas nos anos 1915 e 1916, que possuem a intensidade expressiva característica de sua fase áurea. As duas obras pertencem à USP, podendo ser apreciadas, respectivamente, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) – que reúne parte significativa da produção modernista por abrigar a coleção que pertenceu a Mario de Andrade – e MAC.

Enquanto a fase mais instigante de Anita Malfatti já havia ficado pra trás, há 90 anos a obra de Di Cavalcanti ainda não apresentava a potência cromática e o intenso vínculo com a figura do brasileiro, sobretudo da mulata, que a caracterizariam. Na Semana de Arte Moderna, que ajudou a idealizar e para a qual fez todo o projeto gráfico, o artista carioca expôs mais desenhos do que pinturas, e as poucas telas que apresentou eram completamente distintas da produção que iniciaria depois de sua estadia na França, a partir de 1923.

Aliás, se há um aspecto comum entre os vários artistas interessados em desenvolver no País uma linguagem plástica de caráter moderno é a importância inquestionável da escola francesa em suas formações. O escultor Victor Brecheret – terceiro artista que, segundo Aracy Amaral, formaria a tríade modernista da Semana de 22, com Anita Malfatti e Di Cavalcanti – estava inclusive na capital francesa durante a realização do evento e só participou por meio de obras cedidas pelo colecionador Ronald Carvalho. Há trabalhos seus em diversas instituições e também em espaços públicos, como o Monumento aos Bandeirantes, no Parque do Ibirapuera (cuja primeira maquete foi criada em 1920, dois anos antes da Semana).

Tarsila do Amaral também estava em Paris no início de 1922 e não participou da Semana. As obras mais significativas de Tarsila seriam produzidas, como no caso de Di, um pouco depois, nessa mesma década, graças à fusão entre o vocabulário pictórico aprendido com os mestres cubistas e a aproximação de uma temática e de um cromatismo local. A artista, que ocupa um dos lugares de maior destaque da arte brasileira do século 20, também tem o privilégio de possuir obras-primas de sua autoria nos museus e coleções privadas mais importantes brasileiros. Apenas para citar alguns exemplos, seu autorretrato com manto vermelho está no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio; e o MAC, MAM-RJ e Masp abrigam telas extremamente significativas da pintora. Outra forma de conhecer bem o trabalho da artista é o exaustivo levantamento de sua produção, que gerou um catálogo raisonné de grande qualidade e que está disponível para o público na internet.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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