Coxinhas na área vip

Texto genial publicado no site da Época me fez compreender o motivo pelo qual ando me sentindo tão deslocada em grandes shows nos últimos tempos… não vou “montada” pro show, vou pela música e não usar a presença no evento como forma diferenciação!

por Luís Antonio Giron*

O público de shows está se alterando, em especial o de espetáculos de rock e pop em espaços abertos. As mudanças podem ser observadas nas atitudes, na gestualidade e no estilo, na forma de falar e de cantar. No último show da banda californiana Maroon 5, na Arena Anhembi em São Paulo, no domingo, dia 26 de agosto, não foi diferente. Como a cada evento surge uma novidade no âmbito do comportamento, são perceptíveis agora algumas inovações bizarras dignas de nota. O público, predominantemente jovem, anda mais antipático e exibicionista do que jamais pude testemunhar em 30 anos de cobertura de espetáculos desse tipo. Os frequentadores de hoje comparecem mais para ser conhecidos do que conhecer, mais para brilhar do que para ver o espetáculo. A interação com os artistas deu lugar à ostentação, a espontaneidade ao exibicionismo. Os novos espectadores São muito diferentes dos que já passaram. Gostaria de explicar por que essas mudanças ocorrem, e em que elas alteram a própria maneira de praticar e compreender a arte.

Antes de mais, um naco de reflexão. O público é histórico. Tem data e local. Varia de acordo com as mudanças de anseios, sonhos, sensibilidade e interesse em determinados temas ou aspectos da realidade, da tecnologia e da arte disponíveis no momento. Lembro-me de que, três décadas atrás no Brasil, havia uma fome terrível de conhecimento. O interesse crescia na razão inversa da oferta de espetáculos. Eram os anos 80, quase nenhum talento internacional ousava se apresentar no Brasil. E, quando o fazia, como a banda Queen, em 1981, a reação era apaixonada. Eu me recordo de ver o Morumbi na penumbra, iluminado pelos isqueiros e fósforos, a celebrar Freddie Mercury e banda, em um tempo em que não havia telões. Os jovens se encontravam para escutar um LP de vinil do Queen ou do Pink Floyd de cabo a rabo, sem dizer nada. Eram descabelados, malvestidos, ingênuos, agressivos, mal sabiam as letras e muito menos entendiam inglês muito bem. Acampavam na frente do estádio para sonhar com alguma utopia que o rock ainda poderia trazer.

Claro que não trouxe a utopia, e, ao longo da “década perdida” – como denominam os economistas os anos 80 no país – a oferta de shows era escassa e o público não sabia se comportar direito. Sabia, sim, vibrar e interagir com as bandas. Lembro de um show dos ingleses do Echo & the Bunnymen em 1985, quando a plateia suplicava pelos tênis dos músicos – e eles acabaram jogando os tênis que tinham nos pés sobre uma turba enlouquecida. Vigoravam pobreza e falta de informação. Se ir a shows podia ser divertido, também oferecia seus perigos. Como quando os punks e os carecas do ABC brigaram no extinto Palace em São Paulo quando por aqui passaram a banda americana The Ramones. Ninguém saiu ileso da pancadaria. Meninos e meninas riam das roupas sujas e molhadas. Os discos dos Ramones eram raros, todos os discos eram caros, mais ainda os importados. Ninguém pensava em YouTube.

Os anos 90 representaram a abertura econômica e cultural do Brasil para o mundo, apesar de tudo. E foi possível viajar, comprar discos, veio a MTV e um pouco de sofisticação. Um pouco. As roupas jovens não passavam de uma imitação barata das que os grandes centros exibiam. E os festivais que começaram a acontecer com mais freqeência traziam astros em fim de carreira, ou quase. No Rock in Rio de 1991 no Maracanã, lembro de um público largado, dançando ao som da banda inglesa Happy Mondays. Sob chuva, as garotas não temiam desmanchar a escova ou a chapinha – até porque não faziam. E tinha gente que ousava se despir completamente na frente do palco. A era grunge e das raves estava em alta. Começaram a aparecer telões nos estádios. E as pessoas se juntavam em uma desavergonhada maçaroca de desejos. Havia paixão pela música e por discuti-la em grupo. Quem conhecia mais discos e canções era rei. Havia interesse pela música, então o veículo dos anseios juvenis.

Foi assim até a metade dos anos 2000. Mas, com o crescimento econômico, a aparição da internet e a imposição das redes sociais, o comportamento se alterou nos shows de estádio. Com a decadência da Europa e a crise americana, os músicos passaram a ver o Brasil como a Meca da grana. O país tornou-se ponto obrigatório das turnês internacionais. E o público, mimado por todos os astros, já havia viajado, aprendido inglês e adquirido hábitos alinhados com as plateias mundiais. À medida que o gosto se banalizava, aumentava o acesso à informação – e o desinteresse por elaborá-la.

A resultante dos novos tempos foi a aparição da geração coxinha, dos jovens de posses que são tão bem comportados, que são iniciados sexualmente e fumam maconha nos estádios como se fizessem uma lição de casa. Na plateia modelo 2012, as meninas chegam vestidas para matar: de salto alto, minissaia e maquiagem carregada. Os rapazes surgem embriagados e drogados, ostentando grifes da moda e prontos para a azaração. Até aí não difere tanto dos públicos do passado, salvo pela qualidade das roupas e dos acessórios. O consumo de artigos de luxo nunca foi tão disseminado. Quase todo mundo carrega smartphones, correntes de ouro, brincos e relógios luxuosos. A ostentação ao ar livre muito se deve à implantação das áreas vip. Trata-se de uma situação escandalosa, pois encena a luta de classes nas arenas antes devotadas à igualdade proposta pela música pop. Na Arena Anhembi aconteceram muitos assaltos – e me surpreende não ter ocorrido um motim dos menos favorecidos, separados do palco por uma constrangedora cerca. Por isso, minha descrição é do público que pode ver um espetáculo de forma adequada – ou seja, na atual situação, aquele que paga para figurar nas áreas vip. Os excluídos que se acotovelam nos setores normais não podem ter nem o direito de dizer que assistiram ao show. Estão sendo enganados e, ainda assim, conseguem se divertir.

Mas voltemos aos que se divertem de fato, os coxinhas das áreas vip. Com tantas inovações e privilégios, a plateia se transformou em palco. O exibicionismo dos jovens é tão grande que ofusca o brilho das atrações do palco. Na realidade, os coxinhas parecem ir aos estádios pura e simplesmente pelo evento social. Eles gravam nos celulares sequências inteiras do espetáculo, quando não o show completo, para depois postar nos seus canais privados no YouTube, detalhando o set list. Tiram fotos uns dos outros, ou autofotos, só para postar no Facebook e no Twitter – imagens que ninguém quer ou vai ver.

A maioria não presta atenção ao que se passa no palco: enquanto canta as letras decoradas mecanicamente, ensaia passos de dança, olha para os lados, namora e envia torpedos. O sujeito da plateia se acha astro, mas a única pessoas que está prestando atenção nele é ele próprio. Todo mundo se mira na câmera frontal de seus celulares. Isso faz lembrar o teatro do narcisismo em sua quintessência: o novo lago, o novo espelho fixa e eterniza a imagem da volúpia egocêntrica. Desse modo, a cultura das celebridades na verdade rebaixa os artistas à condição de objeto de deboche. Adam Levine, o elétrico vocalista do Maroon 5, era alvo de gritos e camisetas como quem fosse linchado por adolescentes mais interessados no corpo dele do que na música que cantava. O público se afigura mais onanista, desatento e desmemoriado do que nunca. Como a música corre hoje feito água gratuita pelos encanamentos da internet, ninguém dá mais muita bola para ela. Deixou de despertar interesse. Viv’alma se reúne para ouvir um disco inteiro e prestar atenção a sua mensagem. Que álbum resiste ao BitTorrent e à falta de memória do ouvinte? O rock e o pop sofrem uma metamorfose como nenhuma outra forma de música. É como se sua essência fosse condensada ao formato mp3, conspurcada, espoliada – e não restasse mais que ruínas da velha arte da rebelião. A arena da chacina está em cartaz nos shows a céu aberto.

Enfim, o que mudou no público esses anos todos? Ao acompanhar a marcha da civilização, ele certamente trocou a fome de cultura pela congestão das ofertas irrelevantes e a diluição do prazer artístico. O excesso matou a curiosidade, as utopias e a antiga magia da juventude. E principalmente arrancou seu coração. Não posso querer voltar atrás e muito menos culpar os coxinhas por festejar na área vip. Resta-me apenas lamentar por aqueles que anseiam em ser iguais a eles – e são a maioria dos jovens, inclusive os assaltantes de coxinhas.

*Luís Antônio Giron Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV (Foto: ÉPOCA)Luís Antônio Giron Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV

Fonte: Época

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