Fernando Meirelles fala sobre a situação atual do cinema brasileiro

por Ana Elisa Faria

Mosaico de histórias entrecortadas que se cruzam ao estilo de “Babel” e “Crash – No Limite”, o longa “360”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (“Ensaio Sobre a Cegueria”), é uma coprodução entre Brasil, Áustria, França e Reino Unido.

A série de tramas que norteiam o filme que entra em cartaz nesta sexta (17) começa com poses sensuais de uma prostituta (Lucia Siposová), que tira fotos para compor o seu portfólio em Viena, onde um executivo (Jude Law) participa de uma feira e contrata os seus serviços.

Em Londres, a mulher dele (Rachel Weisz) passa o dia tentando encerrar o caso com um fotógrafo brasileiro (Juliano Cazarré). Ao descobrir a infidelidade, Laura (Maria Flor), a namorada do rapaz, decide voltar ao Rio de Janeiro. No avião, faz amizade com um dos passageiros (Anthony Hopkins).

O roteirista inglês Peter Morgan (“A Rainha”) se inspirou livremente na peça “A Ronda”, de Arthur Schnitzler, para compor esse ciclo de traições, frustrações e descobertas.

O “Guia” conversou com o diretor Fernando Meirelles, que comentou a produção cinematográfica nacional, além de suas parceirias internacionais.

CONFIRA ABAIXO A ENTREVISTA:

Guia: O que você acha que do decreto da Cota de Tela?
Fernando Meirelles: Sou totalmente favorável à Cota de Tela. Se não, fica uma luta de capital. Quer dizer, o distribuidor que tem um filme que já está pago e que tem R$ 10 milhões para promover, vai conseguir ter seu filme em cartaz. Se existe uma razão para o Estado financiar os filmes brasileiros, faz sentido o Estado querer que esses filmes sejam vistos pelo público brasileiro.

Acredita que isso, de alguma forma, faz crescer o número de obras comerciais no cinema?
Certamente. Como os exibidores são obrigados a passar um certo número de filmes nacionais, acabam indo em busca daqueles em que acreditam que farão mais mercado. Mas eu acho ótimo que seja assim e acho melhor ainda que alguns filmes nacionais façam um público enorme. O nacional recordista deste ano é o “E Aí… Comeu?”. É ótimo, acho que ele está formando o público brasileiro. E essas comédias que de muito sucesso estão meio que sustentando a indústria nacional. Todo filme é filme.

Mas o que você acha da produção nacional atual?
O problema da produção nacional é que a gente a conhece muito pouco. No ano passado, foram produzidos 105 filmes. Noventa e cinco filmes brasileiros estrearam no cinema e eu tenho certeza que a média das pessoas saberiam quatro ou cinco títulos porque os filmes ficam pouco tempo em cartaz por falta de espaço. O espaço das salas é tomado por “Batmans”.

É até difícil falar de cinema nacional porque se eu citar aqui 40 títulos ninguém vai saber nem que esse filme existiu. Acho isso terrível. Hoje a gente consegue fazer um volume bom de filmes nacionais. Passamos dez anos batalhando para conseguir equacionar a produção. O nosso próximo gargalo é saber como vamos conseguir encontrar espaço para esses filmes serem assistidos, porque não tem sentido fazer filmes para não serem vistos. A próxima etapa é fazer essas produções chegarem ao público.

E como seria isso?
Existe uma legislação sendo escrita que limita o número de cópias que o distribuidor pode lançar um filme. Quer dizer, se eu tenho um “Harry Potter 7”, lançar até 110 cópias é normal. De 110 a 300 o cara teria que pagar um extra por cópia. Quanto mais cópias ele lança, mais caro fica para o distribuidor. Isso serviria para desanimar o distribuidor a fazer esses megalançamentos.

Este ano, o que está acontecendo no mercado, é que parece que os exibidores e os distribuidores descobriram as vantagens de fazer lançamentos com 600, 700 cópias. Lembro que, em 2010 e 2011, uma ou duas vezes por ano dois ou três filmes ocupavam metade do parque de cinemas no Brasil. Agora, não. Agora virou moda. Todos os filmes das distribuidoras americanas entram pesadamente, e varrem o mercado. Então, desde março até agora, o parque de cinema nacional, que tem mais ou menos 2700 salas, tem na verdade 1300 porque umas 1400 salas estão desde março ocupadas com dois ou três filmes. Precisa dar uma segurada nisso. Pode exibir o “Batman” e o “Homem-Aranha”, mas não precisa ocupar o parque inteiro.

Como vê essa onda de cineastas brasileiros que, assim como você, estão assinando a direção de filmes no exterior?
Acho muito saudável a gente criar uma ponte com o mercado internacional. E esses diretores, nos quais eu me incluo, acabam fazendo essa ponte. O mercado de cinema no mundo já é muito globalizado. Principalmente o cinema europeu. Dificilmente você vê um filme europeu que não tenha três ou quatro países no bolo. E o Brasil sempre esteve um pouco fora desse clube. Então, acho que a minha colaboração pessoal para o cinema brasileiro é justamente construir essas pontes. Não só fazendo coproduções e dirigindo fora, mas cada vez que eu vou trabalhar em outro país tento levar junto montadores, fotógrafos e atores. Fico sempre tentando criar essas pontes.

Fonte: Guia Folha

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