Restauro revela obras inéditas de Bispo do Rosário, artista que viveu em manicômio

por Silas Martí

Ele guardava as agulhas de costura no talco, junto de uma figura de Cristo. Também colecionava revistas eróticas e bordou em estandartes nomes de socialites, assassinas e divas do cinema.

Desde que Arthur Bispo do Rosário, artista que morreu aos 80 anos em 1989, foi anunciado como nome central da 30ª Bienal de São Paulo, em setembro, uma verdadeira exumação do corpo de sua obra está em curso no Rio.

Bispo do Rosário, o paciente 01662 da Colônia Juliano Moreira, fez quase toda a sua produção internado no hospital psiquiátrico que funciona até hoje em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio. Seu acervo de mais de 800 peças está guardado numa sala da administração do complexo.

Fernando Rabelo/Folhapress
Detalhe de obra de Bispo do Rosário que vai à Bienal
Detalhe de obra de Bispo do Rosário que vai à Bienal

Quando Luis Pérez-Oramas, curador da Bienal, decidiu expor 348 das peças nesta edição da mostra, um processo de restauro foi deflagrado para levar a público obras que nunca deixaram o hospício –pelo menos cinco das instalações são inéditas.

“Essas obras nunca saíram daqui porque estavam em péssimo estado”, diz Wilson Lázaro, curador do Museu Bispo do Rosário. “Fizemos um restauro, mas conservamos o pensamento dele.”

Nesse processo, vieram abaixo algumas das certezas sobre o artista.

Primeiro, a de que era assexuado. Suas anotações obsessivas dos nomes das estagiárias da enfermaria e sua coleção de revistas pornográficas provam o contrário.

Bispo também nunca tomou remédios e tinha total consciência de sua condição de paciente mental, chegando a ironizar a psiquiatria.

“Ele se refere a seu contexto terapêutico”, diz Pérez-Oramas. “Tinha uma autoconsciência que relativiza nossas discussões sobre a loucura e suas condições.”

Cadernos do artista encontrados no acervo mostram anotações detalhadas de sua rotina no manicômio. Ele narra conversas com enfermeiros, dá detalhes de uma ferida no dedo, cataloga notícias de jornal –em especial sobre crimes– e mantém um extenso inventário dos materiais que conseguia traficar para o hospital ao criar suas peças.

Uma das obras mais enigmáticas do artista, um estandarte em que ele borda um texto religioso, foi descoberta agora ser a reprodução de um anúncio de revista que vendia uma edição da Bíblia.

“Todos achavam que isso fosse um delírio, mas é uma propaganda”, diz Lázaro. “Ele tinha um pensamento para fazer a obra, olhava para a imprensa como fonte de realidade para tudo.”

REFINADO E BRUTAL

Essas descobertas recentes reforçam a reabilitação de Bispo do Rosário, que aos poucos perde a aura de louco e ganha o reconhecimento de um artista contemporâneo singular de sua época.

Sob esse novo ângulo, críticos reconhecem agora na obra de Bispo não só a habilidade manual obsessiva dos bordados mas também um pensamento conceitual e plástico que dialoga com trabalhos dos grandes nomes da arte contemporânea do país.

Sua caixa de música, um estojo de madeira cheio de papel picado, em que a canção seria o som do papel soprado no ar, lembra a arte conceitual. Seus papéis de bala são precursores de Beatriz Milhazes. Seus estandartes feitos de fórmica colorida lembram o construtivismo.

“É interessante como uma das grandes obras visuais do fim do século 20, das mais refinadas e brutais, tenha sido feita em isolamento”, diz Pérez-Oramas. “Mas toda criação comovente, crítica e relevante exige desmantelar a normalidade do mundo.”

Num contexto anormal, Bispo do Rosário construiu uma poética capaz de repensar a beleza e a tragédia da vida real –das vencedoras de concursos de miss aos bandidos e ladrões do noticiário.

“Nossa sociedade precisa da loucura para se excluir dela”, diz Pérez-Oramas. “Mas nesse ato de exclusão, acaba exibindo a própria loucura.”

Fonte: Folha de S. Paulo

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