Diretor analfabeto é destaque de mostra

por Rodrigo Salem

“A fama acaba com a vida de qualquer sujeito”. Lindsay Lohan sabe bem disso, mas quem está reclamando da vida não é uma atriz mimada hollywoodiana com milhões de dólares na conta e uma mansão em Beverly Hills.

Seu Manoelzinho é analfabeto, ex-servente de pedreiro e agricultor. Mora em uma casinha humilde –herdada da mãe, dona Fernandina, morta há um ano– em Mantenópolis, pequena cidade a 251 km de Vitória (ES).

Ele é diretor amador de filmes, mas não se dedica à paixão há quatro anos por causa da tal “fama”.

“Depois que eu apareci na televisão, as pessoas que trabalhavam nos meus filmes de graça acham que fiquei rico e querem cobrar R$ 100 para atuar”, diz Manoel Loreno, 52, que filmou mais de 40 filmes em VHS e perdeu a maioria das fitas.

Seu Manoelzinho (à dir.) posa com Aldenir Coty, o Rambo da Amazônia, em 2011

Uma dessas obras foi encontrada e será exibida no Cinema de Bordas, festival especializado em filmes de baixo custo que começa hoje no Itaú Cultural, em São Paulo.

“A Maudição da Casa de Vanirim” foi rodada em 1988 e será exibida na sexta-feira, às 20h.

A fita original havia sido levada para os Estados Unidos por um morador local, que possuía uma locadora, e foi devolvida recentemente.

“Dizem que meus filmes todos passam na televisão americana e fazem sucesso”, acredita Seu Manoelzinho.

Quando filmou “A Maudição da Casa de Vanirim”, o cineasta ainda estava no começo da carreira. Chamou parentes e amigos, pessoas que percorriam mais de 15 km a cavalo para aparecer no filme, que seria exibido dias depois na quadra de esportes de Mantenópolis.

O padre exorcista é um senhor negro, sem camisa, mas com um terno e um colar de sereia seminua pendurado no pescoço. A assombração da casa, em “Miamis” (os filmes de Seu Manoelzinho se passam nos EUA), usa o mesmo terno e uma máscara de Frankenstein.

À meia-noite, o monstro aparece. Sem recursos para filmar cenas noturnas, Seu Manoelzinho coloca um despertador na cômoda marcando o horário desejado. Na janela, o sol bate forte.

As cenas arrancam risadas. Mas Seu Manoelzinho não liga. “Acho graça que eles [o público] achem graça”, diz com seu alegre sotaque caipira. “Eles estão acostumados com os filmes milionários de Hollywood.”

Apesar da crítica, o diretor, ator e roteirista revela que sonha em conhecer a terra do cinema. “Deve ser linda demais”, exalta.

Mas ele morre de medo de avião –vem para São Paulo de ônibus. Foi assim que saiu de Mantenópolis em 2004 e participou de entrevistas nos programas de TV de Ana Maria Braga, Gugu e Jô Soares.

“A Globo não me deu um centavo. O único que me ajudou foi Gugu, me dando R$ 1.500”, conta o cineasta.

Seu Manoelzinho não imaginava que as aparições em rede nacional atrapalhariam seus filmes. Mas em 2008, quando produziu “A Gripe do Frango”, sobre um amigo que vira galinha, com uma câmera digital emprestada, os “atores” pediram cachê de R$ 30 por dia.

PÃO COM SALAME

Ele tenta fazer a continuação de seu primeiro filme, o faroeste “A Vingança de Loreno”. Mas ninguém quer trabalhar por menos de R$ 100 e outras regalias.

“Querem almoço, jantar e refrigerante. Mas só refrigerante? Vão querer pão com salame”, conta.

Por causa disso, Seu Manoelzinho não consegue mais filmar. Ele sobrevive do dinheiro que recebe de festivais (R$ 350 por fita) e do seguro saúde da mulher. “O restante é para a comida”, diz.

“Não consigo nem sair de bicicleta vendendo os filmes, porque não tenho dinheiro para fazer as cópias dos DVDs”, reclama o diretor, que cobra R$ 10 por disco.

Quando pede trabalho em Mantenópolis, os empregadores acham que ele “está de gozação, já que é famoso.”

“Quero ir para um lugar onde ninguém me conheça para poder trabalhar, mesmo que seja como servente de pedreiro ou na roça”, revela.

“Que fama é essa que não me dá dinheiro?”

BRASIL AMADOR Outros cineastas presentes no festival

Fonte: Folha de S. Paulo

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