Bibi Ferreira festeja 90 anos com pot-pourri da carreira e diversos projetos

por Maria Eugênia de Menezes
A sala vazia parecia estar à sua espera. Como se fosse um palco, minutos antes de as cortinas abrirem. O cenário tinha pompa: poltronas imponentes, móveis antigos e, como toque final, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar emoldurados na janela imensa. Gravador e câmera já estavam a postos. Só faltava mesmo que a porta larga se abrisse.

 

Bibi em casa com a sua gata, Xuxa, presente da apresentadora Xuxa Meneguel - Wilton Junior/AE

Dá para ouvir os passos firmes no assoalho de mármore. Bibi Ferreira, 90 anos, caminha de jeito empertigado. De cima do salto bem alto, que ajuda a alongar os seus pouco mais de 1,50 m, ela olha para frente, sem se fixar em nada. Sabe que é observada. Sabe que está diante do público. Uma plateia diminuta, é verdade. Só repórter e fotógrafo. Mas ainda assim, plateia. A fala e o sorriso têm de surgir no momento preciso. Ela sabe exatamente como fazer.

Falta pouco mais de uma semana para sua estreia em São Paulo. No dia 10, o terceiro sinal vai soar de novo. As luzes, Bibi diz que adora as luzes, vão se acender mais uma vez. Deve ser natural para quem praticamente nasceu dentro do teatro – fez sua primeira aparição em uma peça com apenas 24 dias de nascida. “Mas sabe que eu ainda sinto uma angústia naqueles instantes antes de entrar em cena? Aquele lugar, depois que você sai do camarim, e ainda não está no palco. Aquele cantinho… É ali que eu sinto um terror. Frank Sinatra dizia que sofria nessa hora. E olha que era o Frank Sinatra… Com medo de a voz não sair.”

A voz de Bibi sai. Às vezes, sem que ela perceba. “Cantando sempre? Quando eu cantei?”, ela inquire, como se espantada com a observação. São trechos de canções que ela vai desfiando, puxando o fio da memória. Porque cada história faz lembrar uma música. Ou o contrário. O nome do espetáculo que ela leva a São Paulo e, na sequência, apresenta em Lisboa e Nova York, é Bibi, Histórias e Canções. No repertório, um pot-pourri dos seus mais de 70 anos de carreira. Óperas, fados, sambas de Chico Buarque, Noel Rosa.

Conta que conheceu o compositor da Vila Isabel durante a gravação de um filme de Carmen Santos, Cidade Mulher. “Filme, aliás, que se perdeu. Não se encontra uma cópia. Noel aparecia, ensinando a gente a cantar. Era muito simpático. Embora não fosse de sorrisos”, ela ressalva. “Entrava sério, todo de branco. Sabia lidar com as pessoas. Falava assim: ‘Está muito baixo esse tom, não está, Bibi?’ Era paciente. Muito paciente.”

Bibi responde a qualquer pergunta. Desde que você não a chame de senhora. “Vamos acabar com isso, sim? É só Bibi. Ou Abigail, se você preferir. Mas, curioso, ninguém nunca me chamou assim.” O nome é o mesmo de sua madrinha, Abigail Maia. “A maior vedete do Brasil, naquela época. Era casada com Oduvaldo Vianna. Um casal sensacional. Estavam sempre com papai. Oduvaldo era autor de várias das suas peças.”

Em uma das paredes, há um retrato, um desenho de Procópio Ferreira feito a grafite. Fica em um canto da sala, discreto. Mas sua figura é evocada um sem-número de vezes na conversa da filha. A atriz chegou a dirigi-lo em cena. “Fizemos Divórcio (1947). Foi um sucesso estrondoso. E papai estava em um papel dramático, faceta que as pessoas não conheciam.” A peça marcou sua estreia como encenadora, logo depois da temporada em Londres, onde estudou direção na Royal Academy of Dramatics Arts.

Anos antes, foi Procópio quem a conduziu em sua estreia. Não só naquela breve participação, quando tinha menos de um mês de vida e substituiu uma boneca que desapareceu na hora do espetáculo. Mas também no seu primeiro personagem como profissional, em 1941, na comédia La Locandiera. O pendor para carreira de atriz, portanto, está mais do que explicado. Mas a porção cantora também encontra raízes familiares. “Meu bisavô conheceu minha bisavó no Teatro Solis, de Montevidéu. Cantavam no coro. Ele poderia ter viajado, sido solista. Mas preferiu ficar e se casar. Tiveram sete filhos. Um deles era a minha adorada avó, com quem vivi até os 12, 13 anos. Engraçado, tudo para mim aconteceu nessa idade. Quando eu tinha 12, 13 anos.”

Ela não se alonga muito no comentário. Adquire uma expressão grave, distante. Faz uma pausa. Já se passaram quase 80 anos. No que será que está pensando? Tudo não dura mais que um instante. E Bibi retoma o raciocínio. A avó, torna a contar, já despertava cantando. O dia inteiro entoando árias de ópera. A menina aprendeu ouvindo. Sem fazer aulas. Sempre a oscilar entre os dois mundos: o lírico e o popular. Do Barbeiro de Sevilha salta para Pixinguinha. Foi capaz de dirigir Carmen, de Bizet (1999). Mas também Brasileiro: Profissão Esperança (1970), musical com Maria Bethânia e Ítalo Rossi.

A rotina para os próximos meses tem ares de maratona: São Paulo, Lisboa, Nova York. Canta no Lincoln Center, em 21 de novembro. Depois, Bibi grava um disco com canções de Natal. Faz concerto em Petrópolis no fim do ano. Retorna a São Paulo em 2013 para dirigir uma peça de Juca de Oliveira. Mas sem perder de vista o projeto de um novo espetáculo com canções de Edith Piaf. Com datas já previstas em Paris. “Cada um sente a idade de um jeito. Muitas pessoas, com 90 anos, não sentem o que eu sinto. A saúde é muito boa. Sempre levei uma vida meio besta, sabe? Sem beber, sem fumar. Não que eu seja contra. Tem quem faça isso muito bem. É que para mim, simplesmente, não calhou.” Calharam outras coisas. E, a julgar pelos planos de Bibi, ainda calharão umas tantas mais.

BIBI,HISTÓRIAS E CANÇÕES
Teatro Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, 3472-2229.
6ª e sáb., 21 h; dom., 19 h.
R$ 120. De 10/8 a 30/9.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. RITA
    nov 07, 2012 @ 00:28:00

    Ví o espetáculo quatro vezes e o veria quatro mil, se pudesse, BIBI é incansável no palco e eu náo me canso de vë-la. BIBI é iluminada, tem luz própria e intensa, graciosa, inteligente e educada, é simplesmente única e insuperável, a alegrinha filhinha do PROCÓPIO. BIBI obrigada por existir….

    Responder

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