O “Djavanear” flamenco

por Andressa Rocha

Assim como o flamenco está arraigado na mistura de manifestações folclóricas de vários povos que, ao passar pelo crivo de gargantas pontuais, resultou em arte extraordinária e intensa, Djavan está para a coesão harmônica e singular na forma que relaciona os diversos gêneros musicais, o pluralismo cultural e ritmos. Resultado: canções excepcionais conhecidas em diversos países e a descoberta de tesouros escondidos, música de qualidade para os ouvidos e a empolgação daquele garoto de Maceió que um dia largou a bola pela música.

Compositor, cantor, violonista e arranjador, Djavan teve uma formação musical que sempre valorizou a diversificação, inclusive, quase uma regra na época de sua adolescência, quando os músicos ouviam e tocavam de tudo. Quanto
mais os músicos se relacionavam com vários tipos de estilos, mais se adquiria experiência e know-how musical. Fato que contribuiu para o enriquecimento da estrutura harmônica tão marcante da música popular brasileira.

O pequeno alagoano costumava “viajar” pela coleção de discos do Dr. Ismar, amigo de seu pai. Mas Djavan sentia também uma atração quase incontrolável pelo flamenco. Segundo conta, é algo ancestral, que vem de outras vidas. Conforme um mapa astral feito por uma astróloga, a relação com a língua hispânica e as tradições relativas a essa cultura é algo muito antigo. “Já nasci no Peru, já nasci na Espanha… Eu tenho fluência em espanhol, sem nunca ao menos ter
estudado. Nos países cuja língua é o castelhano, dou entrevistas para todas as mídias em espanhol. É tudo muito familiar para mim”.

Espírito “gitano” que vai além de ÁRIA

O primeiro contato oficial de Djavan com a música flamenca foi com a gravação de “Oceano”, em 1989, na qual contou com o solo de guitarra de Paco de Lucia, um dos maiores marcos do flamenco. Importante ressaltar que Paco chegou a se questionar se conseguiria tocar uma harmonia tão complexa. O fruto dessa parceria é uma poesia cantada e tocada de forma sublime.

Em 1997 no Heineken Concerts, Djavan apresentou sua versão para “Granada”  de Agustín Lara, composição que rendeu ao mexicano algumas honras, inclusive uma casa na cidade espanhola oferecida pelo ditador Francisco Franco, em 1965. Em 2008, o cantor brasileiro participou do Festival da Guitarra de Córdoba e interpretou  “La Leyenda del Tiempo”, baseada na admiração pela forma de cantar de Camarón de La Isla.

Em 2001, na música  “Milagreiro”, com a qual encantou o mundo, ele abarcou nuances do flamenco na organização melódica no violão de Max Vianna e até mesmo a estória narrada na canção: um pouco triste e sofrida, como um amor não realizado, tal como ocorre com frequência em inúmeras canções flamencas. Djavan maestrou acordes, para sua voz e a de Cássia Eller- artista tinha muita afeição pelo flamenco – e os instrumentos sem perder a essência do cancioneiro brasileiro como base, ainda sim, ressaltando o flamenco.

E com Ária, seu álbum mais recente, Djavan traz um magnífico trabalho onde, pela primeira vez, canta músicas de outros compositores. Um disco de interpretações, no qual “La Noche”, de Enrique Heredia Carbonell e Juan Jose Suarez Escobar, foi a música eleita para representar o flamenco e dar aquele tom de diversidade, tão marcante nos seus trabalhos.

O artista está desenvolvendo um projeto, ainda sem nome, a ser lançado neste ano, seguido de uma grande turnê nacional. Ele define: “Vamos fazer um disco feliz”. Com certeza será mais um deleite musical e único. O “Djavanear” nas
estruturas harmônicas e notas musicais, como diria Caetano Veloso.

Como o Flamenco foi inserido no seu repertório?

A primeira vez que estive na Andaluzia, em Sevilha especificamente, sofri uma comoção muito grande. Me pareceu que voltei à um lugar em que já vivi. Fui às peñas ouvir flamenco, aos tablados…e  tive um sentimento muito intenso por
aquilo tudo. Uma impressão de intimidade com a cultura, familiaridade com os cheiros de Sevilha, com as comidas, com o povo e a música flamenca. É algo que faz parte de mim há muito tempo, e com o andar da vida isso foi se acentuando. Eu sinto uma fluidez do flamenco quando decido trabalhar com esta arte, em meu raciocínio musical. É realmente para alguém que já viveu isso em algum momento. No meu caso, em outras vidas.

Em alguns depoimentos  você citou Camarón de La Isla. Você se refere a ele como o mais expressivo, o que mais lhe emociona e como o “maior cantor do planeta”. Por que essa admiração?

Porque a gente que canta com a alma, consegue decifrar nele um cantor visceral que traz a sua alma para fora e a transporta junto aos sentimentos contidos nela à todas as direções: pessoas de todas as raças, faixas etárias, religião ou classe social. Em minha opinião, Camarón é o maior marco e símbolo de expressão do flamenco pela força impressa em seu cante. Ele tem uma mágica com esse gênero que encantou e continua encantando o mundo através de seu brilhantismo musical. Não sei como seria ele cantando outra coisa. Mas para mim, seria algo totalmente desnecessário. O que ele fez, para mim, basta. É suficiente. É único.

Você participou do Festival de la Guitarra de Córdoba em 2008 e interpretou “La leyenda del Tiempo” de Federico García Lorca, adaptada por Ricardo Pachón e interpretada por Camarón de Isla em 1979. Porque elegeu essa música?

É uma música que sempre apreciei, e de novo falando em Camarón, a forma que ele interpretou “La Leyenda del Tiempo” me instigou a cantá-la. Eu fiz um arranjo musical  diferente e essa composição viajou comigo em toda a turnê daquela
temporada.

Os flamencos, artistas de renome e espanhóis, têm muita admiração por você. Presenciei em diversos lugares na Espanha versões flamencas para algumas de suas músicas. O famoso grupo Ketama, por exemplo, fez uma versão de “Flor de Lis”. Qual sua opinião sobre essa releitura e como entende esse processo de intercâmbio de culturas no cenário musical?

Amo Ketama e gosto da versão do grupo para Flor de Lis. Acho que essa inter-relação cultural na música com outros artistas, com outros países, com outras culturas bem distintas é essencial. A troca de informação e o processo de influenciar uns ao outros é necessário para mim. Já fiz isso com África, Américas e, por que não com o flamenco?

A força da internet era ínfima há 10 anos atrás comparado com as ferramentas atuais de disseminação da informação em todas as áreas. E na área musical? Como você enxerga esse poder da internet? Quais os pontos positivos e negativos?

A internet é avidamente importante para adquirir informação e vejo como um canal de estudo. Tudo na vida é preciso saber corretamente como usar. No caso da internet, há como se perder um dia inteiro só com bobagens e não formatar nada significante. Por outro lado, é um canal aberto que pode ser usado de forma positiva para estudar, para ter acesso rápido a informações almejadas e, principalmente, para divulgar um trabalho. É um excelente condutor, de disseminação, seja na área musical, literária, etc. Por exemplo, eu fiquei encantando com a voz de Montse Cortés na música “La Noche”, que conheci há muitos anos através da internet. Tempos depois, senti que era a hora de interpretar da minha maneira essa canção e aí está ela, em Ária.

Mais informações, acesse: www.djavan.com.br

Fotos: Divulgação

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Cláudia
    mar 05, 2013 @ 15:14:06

    Permita-me compartilhar no facebook este ótimo texto! Vai interessar muita gente. Vou colocar, obviamente, seu nome.

    Responder

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