Os Últimos Dias de Michael Jackson

Nota do Catarse Musical:

Podem falar o que quiserem do Michael Jackson, especular sobre sua vida privada, suas esquisitices, sua família, mas nunca duvidar de sua importância no cenário pop… desde sua infância. O legado de Michael é eterno, por isso sua morte foi apenas um rito de passagem de seu corpo já cansado de ser tão mexido pelo próprio cantor, mas seu espírito é imortal. Sua dança, seu falsete e sua sensibilidade sempre serão lembrados e continuarão como referência no mundo da música e da dança. Sua genialidade no comando de seus shows e preocupação com o futuro do planeta são louváveis.

Em época de Rio+20, poucas músicas falam tanto sobre preservação quanto “Heal The World”, do Michael. Em tempos de músicas pop com letras banais e melodias pobres, Back or White, Remember the Time, Bad e Thriller são aulas.

Dá um nó na garganta de lembrar da manhã de 25 de junho de 2009… quando mudava de canal freneticamente tentando encontrar algum noticiário que falasse que ele não tinha morrido.

Na Rolling Stone foi publicado um texto incrível sobre esse momento de choque… vale a pena! Segue:

por Por Claire Hoffman
( Neste 25 de junho de 2012, quando a morte do Rei do Pop completa três anos, releia a matéria de capa, publicada em agosto de 2009)

O corpo de Michael Jackson está sobre uma maca no necrotério, no centro de Los Angeles. Ele está vestido com calça preta brilhante, um avental hospitalar fino e nada mais. Os pés estão descalços e o braço esquerdo cheio de marcas de agulha. O tórax pálido e estreito está coberto de hematomas – evidências de esforços médicos nas últimas horas para salvar sua vida. Médicos e seguranças entram e saem da pequena sala onde está a maca, ansiosos por dar uma espiada no corpo de Jackson. Tudo havia começado na manhã daquela quinta-feira, quando o médico que morava com o cantor havia tentado freneticamente reanimá-lo. Quando os paramédicos chegaram, respondendo a uma ligação desesperada para o serviço de emergência 911 às 12h21, queriam pronunciar sua morte no ato.

Mas Michael Jackson não poderia estar morto. Seu corpo foi carregado para uma ambulância e levado ao UCLA Medical Center, onde uma equipe de médicos trabalhou por mais de uma hora, aplicando um desfibrilador no peito de Jackson, todos esperando que pudessem evitar que um dos maiores artistas da música terminasse naquele necrotério. O rosto de Jackson, que ele reconstruiu tão dolorosamente e escondeu do público por décadas, agora está à mostra, sem disfarce, sob as luzes fortes do necrotério. A prótese que normalmente acoplava a seu nariz danificado não estava ali, o que revelava pedaços de cartilagem cercando um pequeno buraco escuro. Mas, para quem passava pela sala, Michael finalmente estava descansando. “Vendo-o deitado ali”, lembra uma testemunha, “ele parecia estar em paz”.

Ainda era um dia antes da autópsia, quando patologistas o abririam para tentar entender por que um homem magro de 50 anos – que havia dançado por horas na noite anterior – morreu tão repentinamente. No entanto, enquanto Jackson estava no necrotério na tarde de 25 de junho, detetives já haviam entrado na mansão alugada pelo cantor em Bel-Air, recolhendo uma quantidade enorme de medicamentos que ele mantinha à mão. Mais assustadores eram os diversos relatos de que os dois sacos grandes de remédios que os investigadores levaram continham frascos de Diprivan, um anestésico potente utilizado em pacientes antes de cirurgias com anestesia geral. Diz-se que Jackson usava o Diprivan há anos para conseguir dormir, e a polícia de L os Angeles logo começou a investigar se sua morte deveria ser considerada um homicídio, deixando claro que queria questionar o médico do cantor, Conrad Murray. Murray havia exigido US$ 1 milhão por mês para trabalhar para Jackson – e desapareceu depois que seu cliente foi pronunciado morto na sala de emergência do UCLA.

Horas depois da morte de Michael, LaToya Jackson supostamente foi à casa do irmão, procurando ansiosamente por malas de dinheiro que sabia que ele mantinha ali e, em questão de dias, a mãe deles foi aos tribunais para lutar pelo controle do patrimônio de Jackson e pela custódia de seus três filhos. As crianças haviam seguido Jackson até o hospital em um Escalade azul e quem lhes contou que seu pai havia morrido foi o empresário de Michael, Frank DiLeo, que quase desmaiou quando uma enfermeira lhe deu a notícia. Este era o Michael Jackson que o mundo conhecia e ridicularizava: a família maluca, as plásticas malfeitas, os dois divórcios, as acusações de abuso contra menores, os problemas financeiros que o deixaram com uma dívida estimada em US$ 500 milhões.

Mas Michael tinha uma opinião diferente. Em seus últimos dias, não apenas sonhava comum retorno, mas também trabalhou o máximo que conseguia para realizar isso, talvez tanto quanto sempre fizera. Compôs novas músicas, ensaiou por horas a fio para aperfeiçoar os shows que pagariam suas dívidas e marcariam seu retorno ao topo do panteão e planejou cada detalhe de sua turnê de retorno – um espetáculo imenso que já havia custado pelo menos US$ 25 milhões só em pré-produção, Jackson deu à sua turnê um nome que já dizia tudo: This Is It. Jackson sabia o que as pessoas pensavam dele e as faria mudar de percepção, como havia feito várias vezes. Nos últimos meses de sua vida, Jackson não pensava em nada além da turnê, e as pessoas que amava e em quem confiava tinham certeza de que este era o momento pelo qual esperava.

Na noite antes de sua morte, Jackson passou por seis horas de prova de roupas para seu show no Staples Center, em Los Angeles. Mais de uma dezena de pessoas presenciou o ensaio final – de seu promotor ao coreógrafo e músicos – e todos concordam com uma coisa: Jackson estava melhor do que nunca. Ele era puro pop, da mesma forma que em seus dias de glória, cantando e dançando melhor que os jovens profissionais que o cercavam. “Ele era tão brilhante no palco”, lembra o diretor da turnê, Kenny Ortega. “Eu ficava arrepiado.” Ken Ehrlich, que produziu os prêmios Grammy por três décadas, estava sentado na plateia, embasbacado. “Falei para alguém: ‘Isso é impressionante!’ Por muitos anos vi Chris Brown, Justin Timberlake, Backstreet Boys e o En Vogue imitarem o Michael Jackson – e ali estávamos nós, muitos anos depois, e ele estava para voltar. Literalmente me deu arrepios, os pelos na nuca levantaram. Você espera por momentos como aquele.” This Is It deveria ter sido o maior retorno de todos os tempos. “Frank”, falou Jackson a seu empresário, “temos que fazer o maior show da Terra”. A tragédia é que ele quase conseguiu.

Um dia, quase no fim de fevereiro, Kenny Ortega atendeu ao telefone de seu escritório em casa em Sherman Oaks, Califórnia, e ouviu uma voz suave, familiar em falsete no outro lado da linha. “Kenny, é o Michael.” Imediatamente, Ortega ouviu algo na voz de Jackson que estava faltando há muito tempo: empolgação. Os dois ficaram amigos no início dos anos 90, quando Ortega coreografou a turnê Dangerous, e trabalharam juntos novamente na turnê HIStory. Após sua liberação das acusações de abuso de menores, em 2005, Jackson havia praticamente parado de contatar seus amigos na indústria musical, mas agora, enquanto Jackson descrevia a turnê de retorno que estava montando, Ortega ouviu um foco no astro que não estava ali há anos. Michael soava preciso e claro, enquanto contava a Ortega que queria que aquele fosse o show mais espetacular da história da música. “É isso”, disse Jackson, ecoando o que acabaria se tornando o nome da turnê.

No verão anterior, Michael parecia um homem acabado. Fotógrafos o haviam flagrado sendo empurrado sob o sol escaldante de Las Vegas em uma cadeira de rodas, usando máscara cirúrgica e pijama. Era difícil não ver aquelas fotos e se perguntar o que havia acontecido ao homem que dançava vestindo meias e luvas brilhantes como se controlasse a gravidade. Naqueles dias, ele parecia uma criatura de outro mundo, não regido pela lógica e vulnerável a tudo. Jackson havia se mudado para Vegas depois de voltar do Oriente Médio, em 2006, e foi morar com os filhos em uma mansão de dez quartos a oeste da Strip, onde fica boa parte dos grandes hotéis e cassinos. Jack Wishna, um executivo inescrupuloso da indústria de jogos que tinha feito lobby para Donald Trump abrir um resort na cidade, estava tentando ajudar Michael a realizar uma série de shows em Vegas que poderiam pagar suas cada vez maiores dívidas, mas o negócio não ia bem. Wishna depois contou à CNN que o cantor parecia “drogado” e “incoerente” e frequentemente estava tão fraco que precisava de uma cadeira de rodas para se locomover. Jackson e os filhos raramente saíam da mansão, exceto para fazer compras. Quando saíam, as crianças usavam máscaras de tecido e penas para se esconderem dos fotógrafos, com o pai ao lado em seus uniformes esquisitos de um exército imaginário, cheio de dragonas e tarjas no braço. Os shows em Vegas acabaram sendo cancelados devido à condição de Jackson.

Naquele ponto, Jackson estava em uma espiral decadente havia anos. O ponto de ruptura aconteceu enquanto voltava para casa em uma carreata em 13 de junho de 2005, após ser inocentado das dez acusações de abuso infantil e outras. O clima no carro estava pesado. Ao chegar ao rancho Neverland, Jackson subiu as escadas e olhou para Dick Gregory, um comediante e amigo da família que o conhecia desde que havia estrelado em O Mágico Inesquecível. Jackson agarrou Gregory e o abraçou com força. “Não me abandone”, implorou. “Estão tentando me matar.” Gregory teve a sensação de que Jackson se referia ao mundo inteiro. Michael parecia paranóico e desidratado. “Você comeu?”, perguntou Gregory, sabendo que Jackson frequentemente passava dias sem se alimentar. “Não posso comer”, respondeu Jackson. “Estão tentando me envenenar.” “Faça-me um favor”, disse Gregory. “Vá embora. Todas essas pessoas te enganaram.” Embora pareça melodramático, Gregory poderia estar certo. Jackson vivia há muito tempo em um mundo alternativo de puxa-sacos que pareciam ir e vir, ludibriando o cantor ou o acusando de ludibriá-los. Nem mesmo sua família parecia conseguir passar por esse mundo de oportunismo. Na época de seu julgamento por abuso, esse círculo estava cada vez mais obscuro. Havia Marc Schaffel, um ex-produtor de filmes pornô gays que era conselheiro de Jackson há anos, e Al Malnik, advogado que, diz-se, já representou o mafioso Meyer Lansky. E houve seus seguranças da organização Nação do Islã, que supostamente brigaram com os irmãos Jackson, que haviam demonstrado preocupação com a influência da Nação sobre a vida de Michael.

Jackson sabia que tinha de ir embora – mas seu salvador escolhido só tornou as coisas mais estranhas. Em junho, para ajudá-lo a resolver suas finanças e fugir do foco da mídia, Jackson recorreu a um homem que nunca havia encontrado: o xeique Abdullah bin Hamad bin Isa Al-Khalifa, príncipe do Bahrein. O xeique havia se tornado amigo de Jermaine, irmão de Michael, que havia se convertido ao islamismo e vivido por quatro meses no Bahrein. Abdullah ajudou a pagar US$ 2,2 milhões em honorários jurídicos para Michael e, no final do mês, Jackson – com os três filhos e a equipe – foi morar com o príncipe. Houve boatos de shows particulares para o xeique. Abdullah, que tinha suas próprias aspirações musicais, mais tarde contou que ele e Michael estavam trabalhando juntos em um disco. Mesmo naqueles dias, Jackson sonhava com um retorno. “Uma turnê sempre estava nos planos”, diz Miko Brando, filho do legendário ator Marlon Brando, que conversou com Michael pelo telefone durante a estada do cantor no Bahrein. “Era só para ele se preparar, voltar ao trabalho e ser produtivo. Michael é perfeccionista demais para ficar sentado sem fazer nada. Sempre estava criando música, criando ideias, sabia como juntar tudo, o que funcionava, o que o público queria.” No entanto, como sempre, as coisas pareceram dar errado rapidamente. Depois que Jackson deixou o Bahrein em 2006, Abdullah abriu um processo contra o cantor, alegando que havia gasto quantias enormes com ele – do aluguel de uma mansão palaciana à compra de loções para o corpo e de uma Ferrari – na expectativa de que Michael gravasse um álbum de músicas que havia composto. Jackson voou para a Irlanda, onde continuou trabalhando em músicas.

Em meados de 2007, Jackson foi contatado pela AEG, uma das maiores organizadoras de shows do mundo. A empresa estava prestes a abrir a O2, uma arena para 18 mil pessoas às margens do rio Tamisa, na zona leste de Londres, e precisava de alguém poderoso para lotá-la. Randy Phillips, CEO da AEG Live, era conhecido de Jackson desde a década de 80, quando ambos trabalharam juntos em um negócio para a fabricante de tênis LA Gear. Phillips voou até Las Vegas para se encontrar com Jackson e seus conselheiros, e eles jantaram na adega particular de um condomínio de apartamentos de luxo. Jackson chegou usando óculos escuros e um chapéu, mas parecia desinteressado enquanto Phillips fazia sua proposta para uma série de shows na arena O2. “Ele estava escutando”, lembra Phillips, “mas não estava empolgado”. Jackson disse que havia amado a longa temporada de shows que Celine Dion fez em Vegas, e estava interessado em fazer algo parecido. No entanto, pouco após a reunião, Phillips recebeu uma ligação de Raymone Bain, uma das conselheiras de Jackson, dizendo que o astro não estava pronto para se apresentar novamente. Então, em outubro de 2007, credores começaram os procedimentos de embargo do amado Neverland. “Ele não pensava em dinheiro – não era sua motivação”, conta Phillips. “Talvez seja por isso que ele gastava tanto.” No ano passado, com os shows descartados, Jackson procurou Wall Street para uma solução. Por causa de um hábito de gastar, segundo alguns, até US$ 35 milhões por ano, Jackson havia sustentado seu estilo de vida pomposo tomando empréstimos estimados em US$ 270 milhões do Bank of America, uma boa parte deles assegurados pelo rancho Neverland e por sua parte no catálogo de edição da Sony/ATV, que inclui músicas dos Beatles e dos Jonas Brothers. No entanto, o Bank of America vendeu o pacote de empréstimos à Fortress Investments, uma empresa de Nova York especializada em dívidas inadimplentes. A Fortress tinha boas relações e sabia como tirar vantagem dos infortúnios dos outros. Em março de 2008, Jackson anunciou que havia feito um acordo com a Fortress – que, diz-se, chegou a cobrar dele 20 por cento de juros sobre os empréstimos antigos – para interromper os procedimentos de embargo de Neverland pela firma. Só que o acordo nunca se materializou. Em vez disso, Michael aceitou o conselho de alguém que havia acabado de conhecer: Tohme Tohme, um financista libanês de Los Angeles. De acordo com Tohme, ele foi contatado no ano passado pelo irmão de Michael, Jermaine, que lhe perguntou se poderia ajudar a salvar Neverland do embargo. Os dois voaram para Las Vegas e se encontraram com Michael, que confiou em Tohme. O financista rapidamente persuadiu seu amigo Tom Barrack, o bilionário CEO da Colony Capital, a se reunir com Jackson. Barrack, cujo fundo de investimento é dono do Hilton de Las Vegas e dezenas de outros resorts e cassinos, orgulha-se de seu “contrarianismo cuidadoso”, que define como “investir em setores ou mercados de favor para explorar desalinhamentos de capital ou produto”. Se um setor estava sem favores ou desalinhado, este era Michael Jackson – e Barrack tinha os recursos para resgatá-lo da Fortress.

Em maio de 2008, a Colony e Jackson adiaram o embargo de Neverland ao formarem uma holding para propriedade conjunta do rancho, com os dois como sócios Eles reverteram a situação ao devolvê-lo seu nome pré-Jackson, Sycamore Valley Ranch, e imediatamente começaram a reforma, mais provavelmente com o objetivo de vendê-lo. Tohme, aparentemente pensando que poderia transformar o caos na vida de Jackson em um investimento sólido, também fez um acordo com a casa de leilões Julien’s em Los Angeles para vender o que havia dentro de Neverland. Darren Julien, o leiloeiro, passou meses trabalhando com a equipe de Jackson, catalogando cuidadosamente o imenso conteúdo do rancho de 1.092 hectares. Só que, naquele outono, o leilão enfrentou uma pausa abrupta quando uma das empresas de Jackson abriu um processo contra a Julien’s, alegando que não havia concordado com a venda. A reversão repentina destacou o que muitos no mundo de Jackson sabiam havia tempos: que ele estava cercado de conselheiros concorrentes e quem era beneficiado ou não parecia mudar num piscar de olhos. Se Jackson não fosse vender suas coisas de Neverland, teria de encontrar outra maneira de ganhar dinheiro. Na última primavera, Barrack se reuniu com Phillips e descreveu os planos da Colony para reestruturar a bagunça que eram as finanças de Jackson. Em novembro, o cantor voou de Las Vegas para Los Angeles e se encontrou com Phillips no Hotel Bel-Air. Mais uma vez, falaram sobre a possibilidade de um retorno – mas agora Michael parecia bastante interessado.

Enquanto ele e Phillips conversaram por horas, Jackson abriu o jogo sobre tudo o que queria. Falou sobre fazer filmes que iria estrelar e dirigir. Já havia gasto milhões em um – Ghosts, um curta-metragem de terror voltado para a família, que estrelou e se baseava em um roteiro que havia pedido a Stephen King. Queria gravar outro álbum. E fazer uma turnê. No entanto, mais do que tudo, Phillips lembra, Jackson queria poder mostrar a seus filhos o que fazia, o que levava as pessoas a correrem atrás dele na rua quando saía de casa. “Ele queria que as pessoas vissem seu trabalho e não falassem apenas de seu estilo de vida”, diz Phillips. “Michael era um homem de marketing muito inteligente. As pessoas dizem que era fraco e manipulado, mas ele era poderoso e um manipulador. Estava preparado – e queria sanar suas finanças.” Jackson disse ao promotor que queria pagar as dívidas para comprar uma casa em Las Vegas pela qual havia se apaixonado e que pertencia ao sultão de Brunei. Seria seu novo Neverland. “Ele estava pronto para parar de viver como um vagabundo e se estabilizar e ganhar dinheiro novamente”, conta Phillips. “Michael não era burro – sabia que uma fada madrinha não viria. A casa e os filmes eram muito importantes para ele.” Depois da reunião, Phillips conversou com o dono da AEG, Phil Anschutz. “Acho que Michael precisa fazer isso financeiramente”, Phillips disse ao chefe. “E está pronto para fazer isso emocionalmente. Está pronto para retomar as rédeas.” Jackson concordou em começar uma turnê mundial de retorno com 31 shows na arena O2, a partir de 8 de julho. De acordo com Phillips, o número de shows não era arbitrário – Jackson o escolheu para ter dez shows a mais do que Prince, que havia inaugurado a arena com uma série de concertos espetaculares em 2007. Michael, parece, estava envolvido em sua própria competição com Prince desde 1987, quando este se recusou a fazer um dueto com ele em “Bad”. Duas décadas depois, Jackson ainda estava disposto a superar seu rival e lembrar ao mundo quem era o Rei.

Em fevereiro, após chegar a um acordo com a AEG, Jackson fez várias ligações para amigos e associados que havia abandonado ou demitido ao longo dos anos. “Era a velha equipe”, diz Ortega. Frank DiLeo, que havia sido afastado do círculo íntimo de Jackson há duas décadas, retornou como empresário, assim como o coreógrafo Travis Payne e o advogado de longa data John Branca, que havia ajudado Jackson a comprar sua parte no catálogo da Sony/ATV e os direitos a todos os seus masters. “Ele entendia que trabalharia para ter liberdade financeira, e estava muito empolgado com isso”, conta DiLeo. “Ficou estimulado – sabia que estava trabalhando em direção a algo.” Para a AEG, agendar Jackson para uma série de shows na arena O2 era uma aposta enorme. Os custos com seguro eram monumentais e todos sabiam que Jackson não fazia nada com baixo orçamento. Como parte do acordo, a AEG estabeleceu um fundo de desenvolvimento de milhões de dólares para criar uma versão em filme de “Thriller”, que Michael estava ansioso para produzir. No entanto, apesar dos custos, o possível lado positivo era imenso: e se a AEG conseguisse fazer o impossível e trouxesse Michael Jackson de volta ao mundo? “Teve gente que me disse que eu estava louco, que ele me decepcionaria”, afirma Phillips. “Mas simplesmente acreditei nele. Quantas vezes em sua carreira você consegue tocar a grandeza? Achei que o risco valia a pena.”

Em março, horas antes de Jackson contar a uma horda de fãs histéricos em Londres que estava preparando o que chamava de seu “último abrir de cortinas”, mais de 1,6 milhão de pessoas se inscreveram para comprar entradas. Dados os números, Phillips ligou para Tohme, que no último ano havia se tornado o principal porta-voz de Jackson, e perguntou se o astro consideraria acrescentar alguns shows à agenda. Como eles poderiam se limitar a 31, perguntou Phillips, quando havia muito mais dinheiro a ser ganho? Jackson ligou de volta 20 minutos depois e disse a Phillips que faria 50 shows – desde que a AEG fizesse duas coisas por ele. Primeiro, queria uma casa de campo inglesa com montanhas, gramado e cavalos para os filhos. Segundo, queria uma cerimônia a ser realizada no final da turnê para comemorar alguma conquista ainda indefinida de Jackson para o Guinness, o livro dos recordes. Essas eram duas coisas aparentemente contraditórias pelas quais havia lutado toda a sua vida: morar recluso, cercado de crianças e animais, e ser reconhecido como o maior artista da história. Naquele ponto, Jackson havia se mudado com a família para Los Angeles, alugando uma mansão de US$ 38 milhões e sete quartos na Holmby Hills de Hubert Guez, CEO da marca de camisetas de luxo Ed Hardy. Depois de assinar um arrendamento de US$ 100 mil por mês, Jackson estabeleceu uma certa rotina, saindo principalmente à noite. No entanto, não demorou muito para fãs e paparazzi o seguirem e fazerem vigília na porta de sua nova casa. Todos os dias, uma dezena de pessoas esperava do lado de fora, algumas vindas de lugares distantes, como Suíça e Suécia, só para tentar ver Jackson, mesmo se fosse apenas um aceno de mão da janela de um de seus dois Escalades azuis. Algumas delas seguiam Jackson até Beverly Hills, onde ele visitava regularmente seu dermatologista de longa data, Arnold Klein. O consultório de Klein é onde Michael, em meados dos anos 80, conheceu Debbie Rowe, sua segunda esposa e mãe dos dois filhos mais velhos, Prince Michael e Paris. Klein, que não quis dar declarações, alegou que tratava Jackson para vitiligo, uma doença de pele que causa perda de pigmentação, e trabalhava para ajudar a reconstruir seu nariz danificado. Klein insistiu que não medicou Jackson em excesso, dizendo que sedava o cantor apenas durante procedimentos médicos dolorosos. Alguns dias, quando Jackson saía do consultório de Klein, parecia sonolento e fora de si. “Não é um bom dia para ele”, seus seguranças diziam aos grupos de admiradores. “Está cansado.” No entanto, alguns fãs de longa data não acreditavam nisso. “Às vezes, os guardas diziam que ele havia acabado de ir ao médico e estava medicado”, conta um fã fervoroso, que diz que Jackson visitou Klein na segunda-feira antes de sua morte, quando os seguranças o levaram ao consultório do dermatologista às 9h – uma missão no início da manhã aparentemente agendada para evitar a detecção pelos fãs e paparazzi. De acordo com uma fonte, Michael também tinha um vício desenfreado no eBay, ficando acordado até tarde para fazer compras em uma das muitas contas que mantinha. Ele também fazia excursões secretas de compras em LA, levando os filhos à loja Ed Hardy em West Hollywood para ver as roupas ou a uma loja de antiguidades que amava, chamada Off the Wall. Às vezes, simplesmente juntava os filhos e os seguranças e saía dirigindo. No entanto, pela primeira vez em anos, Jackson tinha um show para se concentrar. Em março, os testes para a turnê de retorno começaram no CenterStaging, um dos principais espaços para ensaio de Los Angeles. Desde o início, Michael botou a mão na massa para a confecção do show, pedindo a quem estava à sua volta para realizar uma espécie de busca de talentos intergaláctica. “Pense nos maiores artistas e dançarinos do mundo”, disse a Ortega. “Vamos encontrá-los.” Mais de 5 mil dançarinos se inscreveram, e Ortega e sua equipe reduziram a lista para 700. Os testes finais foram realizados no Nokia Theater em Hollywood, onde a cerimônia do Oscar ocorre. Jackson ficava ali, sentado ao lado de Ortega, totalmente focado. “Vamos nos aproximar”, pediu ao coreógrafo. “Quero ver os olhos deles.” Quando via uma dançarina promissora, dizia: “Aquela ali, a garota na ponta – ela é tão bonita”. No final de março, apenas três meses antes da data programada para o primeiro show, uma equipe de dezenas de músicos, dançarinos e técnicos começou a aparecer para ensaios diários no CenterStaging – fazendo jornadas longas, sete dias na semana. No começo, Jackson comparecia apenas algumas vezes por semana.

Jackson estava determinado a dar a seus fãs tudo o que queriam. Encomendou um website para que os fãs pudessem votar nas músicas que incluiria, e foi a partir desse fórum que ele e Ortega começaram a compilar um repertório de 30 músicas. Jackson, que sempre se interessou por mágica, parecia ansioso por impressionar as pessoas. “Quando o show começar, não quero ser contido em nada”, disse a Ortega. “Quero que esta seja a abertura mais espetacular que o público já viu. Eles têm de se perguntar ‘Como vão superar isso?’ Nem me importa se estiverem aplaudindo, quero queixos caídos no chão. Quero que não consigam dormir, de tão mesmerizados com o que viram.” Para entrar em forma para a exaustiva turnê, Jackson começou a se exercitar algumas vezes por semana com Lou Ferrigno, do seriado O Incrível Hulk. Os dois haviam se conhecido anos atrás em uma festa, quando Ferrigno notou Jackson o encarando do outro lado da sala, reconhecendo-o como Hulk. “Ele era como uma criança”, diz Ferrigno, que chegava de manhã e era recebido pelos fi lhos de Jackson correndo pela casa e brincando. Jackson estava dolorosamente magro – embora tivesse cerca de 1,80 m de altura, pesava apenas 56 kg – e havia sofrido vários ferimentos ao longo dos anos. Ele e Ferrigno iam para uma sala equipada com esteira. Jackson não queria formar músculos, então se exercitavam levemente, fazendo alongamentos com uma faixa de borracha e uma bola de ginástica. Jackson vestia uma calça de smoking, camiseta, sapatos e meias, todos pretos, enquanto se exercitava, para não ter de trocar de roupa quando fosse para os ensaios. “Era uma figura”, conta Ferrigno. “Era um piadista. Às vezes me ligava disfarçando a voz por dez minutos. Eu achava que tinha um perseguidor. Dizia que seu nome era Omar e que estava me procurando.” Mas “Omar” fazia mais do que pregar peças nos amigos. De acordo com o site TMZ, Jackson também utilizava o nome para preencher receitas para a imensidão de analgésicos e sedativos que tomava. Documentos da investigação sobre as acusações de abuso infantil contra Jackson incluíam entrevistas com dois ex-funcionários de Neverland que diziam que Jackson tomava até 40 Xanax por noite para dormir.

Embora Jackson tivesse um papel central na formação da turnê de retorno, pisar no palco para se preparar era outra história. Enquanto a equipe trabalhava por longas horas no CenterStaging, Jackson preferia trabalhar de casa na maioria dos dias. As pessoas que o cercavam estavam ficando nervosas. De acordo com Phillips, o orçamento inicial da AEG de US$ 12 milhões para pré-produção havia mais do que duplicado, mas quando o promotor pressionou Jackson sobre os US$ 150 mil por mês que havia concordado a pagar ao doutor Murray, Michael o repeliu firmemente. “Olha”, disse Jackson, “meu corpo é o mecanismo que aciona todo este negócio. Como Obama, preciso de meu próprio médico me atendendo 24 horas por dia”. Outros começaram a pressionar Jackson para ensaiar mais. “Tinha minhas preocupações se ele estava pronto, e o questionei”, diz Ortega. “Havia dias em que perguntava: ‘Você vem? Você vai mesmo vir pra cá? Você precisa fazer isso’.” Citando a necessidade de mais tempo de preparação em Londres, Ortega pediu o adiamento do show de abertura para 13 de julho, cinco dias depois do previsto. No início de junho, o doutor Murray mediou uma reunião na casa de Michael entre este e Ortega, que achava que o astro precisava ir mais aos ensaios. Jackson ouviu o diretor da turnê em silêncio, mas não parecia alarmado. “Conheço minha programação”, falou calmamente. “Só confie em mim.” No entanto, depois disso, Jackson começou a ir diariamente aos ensaios. Para os que o cercavam, parecia focado e atento a cada detalhe. “Ele estava enferrujado no começo e errava algumas notas”, conta o diretor musical do show, Michael Bearden. “Mas sempre dizia: ‘É por isso que ensaiamos’. E nos últimos dois ou três ensaios, estava pronto para fazer o show. Sabia disso, tinha aquele brilho, aquela arrogância. MJ é o mestre em encerramentos, tem memória muscular impressionante. Quando fica em frente aos fãs naquele palco, é pura mágica.” Nos ensaios, Michael Jackson começava a assumir o comando rapidamente.

Mesmo assim, algumas pessoas próximas a Jackson estavam preocupadas com sua forte dependência de medicamentos receitados. “Fiquei sabendo disso em 2005”, conta Deepak Chopra. “Mencionei isso a ele várias vezes. Seu assistente ligava frequentemente sobre esse assunto, dizendo que recebia medicamentos de muitos médicos. Não poupava esforços para conseguir os remédios – se um médico não dava, tentava com outro. Era um vício criado e perpetuado por médicos.” Na maior parte, as noites pareciam ser o maior problema de Jackson – que reclamava de insônia havia anos. No entanto, esse também era o horário em que sentia que um poder superior lhe passava criatividade. “Não dormi muito noite passada”, contava a Ortega. “Fiquei acordado trabalhando nas músicas. É quando a informação vem, e, quando vem, você tem que trabalhar.” “Michael”, Ortega brincou com ele, “por que você não faz um pacto com seu poder superior para arquivar essas ideias até depois de 13 de julho?” “Não”, Jackson respondeu. “Senão, ele pode dar essas ideias ao Prince.”

Apesar de seus exercícios com Ferrigno, Jackson continuava magro, quase esquelético. “Fiquei preocupado com seu peso”, diz Phillips. “Quando comecei a trabalhar com ele, estava um pouco mais pesado – o que para ele pode ter sido 59 kg. Era como o professor distraído – ficava tão envolvido na criação do show que se esquecia de comer, a ponto de Kenny Ortega cortar o peito de frango e lhe dar brócolis, como uma criança, enquanto trabalhavam. Até levei um associado meu só para lembrá-lo de comer, coisas do tipo”.

Parte da inspiração de Michael para a turnê era sua preocupação com o aquecimento global. Três semanas antes de sua morte, Jackson enviou a Chopra um CD, entregue em mãos em sua casa em Carlsbad, Califórnia. “A música é bem suave, tranquila”, conta Chopra. “Ela se chama ‘Breed’. Ele queria fazer uma música sobre o meio ambiente e queria que eu o ajudasse com as letras. Havia grandes ideias por trás das letras – como as árvores são nossos pulmões, a Terra é nosso corpo.” Na verdade, a visão de mundo de Jackson parecia ter se incubado e crescido durante seu período fora dos palcos. “Ele construiu um grande arsenal de coisas que queria comunicar”, diz Ortega. “Ele acreditava que o tempo estava acabando e realmente queria se aprofundar e participar. Dizia ‘você sabe isso sobre a floresta tropical?’ ou ‘vamos trazer Norman Lear e Deepak. Quem mais você conhece?'” Às vezes, essas ideias eram caras. Quem trabalhava no show diz que nunca viu nenhum sinal da pressão financeira que Jackson sofria. Na verdade, ele parecia gostar de gastar dinheiro mais do que nunca. Ortega lembra que frequentemente tinha de questionar os sonhos de Jackson. “Você quer ir a Victoria Falls e fi lmar a catarata de um helicóptero?”, dizia a Jackson, que queria o vídeo para o número de encerramento do show. “Sabe quanto isso custa?” Mas Jackson não parecia se importar. “Dinheiro não era sua motivação”, afirma Phillips. “Era simplesmente fazer algo maior do que qualquer pessoa já tinha feito. Era isso que o motivava.”

Em sua última noite, Jackson chegou ao Staples Center para seis horas de ensaio ininterrupto. Primeiro, teve uma reunião com Phillips, Tim Leiweke, presidente da AEG, seu empresário DiLeo e Ken Ehrlich, produtor do Grammy. Eles lançaram ideias para um especial de Halloween que estavam preparando: a estreia em rede de Ghosts, o curta-metragem de Jackson, que incorporaria clipes de uma apresentação ao vivo de “Thriller” em Londres. Depois, Jackson foi para outra sala e passou cerca de uma hora revisando os efeitos
3D para o show. Jantou – peito de frango e brócolis -, foi para seu camarim e, então, saiu para três horas de apresentação. O encerramento foi definido como “Earth Song”, de HIStory, uma das músicas preferidas de Jackson. Uma balada comovente sobre o estado do mundo que terminava com um refrão repetido que perguntava sobre as vítimas do desenvolvimento desenfreado da humanidade, do canto de baleias a florestas devastadas. “What about death again? (e quanto à morte?)”, cantava Jackson na conclusão da balada “Do we give a damn? (damos a mínima?)” Quem presenciou a apresentação – profissionais experientes que já haviam trabalhado com os melhores da indústria – ficou maravilhado. Diante deles estava o Michael que todos lembravam, o artista que havia crescido de um cantor infantil para formar um estilo completamente novo de pop. Quando Jackson saiu do palco, abraçou DiLeo. “Esta é nossa vez novamente”, disse ao empresário. “É nossa vez de reassumir.” O ensaio acabou, mas ninguém queria sair e acabar com aquela magia que estava no ar. “Ele estava resplandecente”, lembra Ortega. “Quando acabou, todos ficamos ali, de bobeira.” Michael estava pronto. Em apenas 19 dias, subiria ao palco em Londres e o mundo saberia, mais uma vez, que o Rei do Pop estava de volta. Finalmente, enquanto os artistas começavam a ir embora, Phillips acompanhou Jackson até seu carro e Michael abraçou o promotor. “Obrigado por me fazer chegar até aqui”, disse a Phillips em voz baixa. “Consigo assumir a partir daqui. Sei que posso fazer isso.”

Fonte: Rolling Stone Brasil

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