Comédia vira a tábua de salvação do cinema nacional em 2012

por Rodrigo Salem

O cinema brasileiro apostou em caras famosas da TV, criou pretensos blockbusters e resgatou jogadores de futebol polêmicos. Mas nenhum filme no primeiro semestre de 2012 conseguiu ultrapassar a marca do milhão de espectadores -ano passado, durante o mesmo período, quatro longas romperam essa marca.

Pior: somando o público dos dez maiores filmes brasileiros do ano até agora, cerca de 2,7 milhões de espectadores, ela não alcança nem a do maior filme do ano passado, “De Pernas Pro Ar”, com 3 milhões de pagantes.

A missão de mudar o quadro agora cai sobre os ombros de Bruno Mazzeo e seu “E Aí… Comeu?”, que estreia hoje em 550 salas.

A confiança na comédia baseada na peça de Marcelo Rubens Paiva não é um fenômeno isolado. Nos últimos cinco anos, o gênero que dominava o mercado da metade dos anos 1970 até o fim dos 80 –boa parte por causa do sucesso de “Os Trapalhões”–, ressurgiu ao ponto de virar uma das poucas esperanças de uma virada de jogo para o cinema nacional, que, nos primeiros quatro meses deste ano, apontou queda de mais de 60% em público e renda em comparação a 2011.

Divulgação
Ingrid Guimarães e Eriberto Leão em cena de "De Pernas Pro Ar 2"
Ingrid Guimarães e Eriberto Leão em cena de “De Pernas Pro Ar 2”

 

Os filmes espirituais (“Nosso Lar” e “Chico Xavier”) e a franquia “Tropa de Elite” foram os únicos dramas a entrar no top 20 de maiores bilheterias brasileiras nos últimos seis anos -os outros cinco filmes são comédias lideradas por “Se Eu Fosse Você”, com Tony Ramos e Gloria Pires.

Nos cinco primeiro anos da década, a tendência era outra. Apenas duas comédias entraram na lista: “Os Normais” e “Lisbela e o Prisioneiro”, ambos de 2003. Dramas como “Olga” (2004), com 3 milhões de espectadores, e “Carandiru” (2003), com 4,6 milhões de pagantes, disputavam em pé de igualdade com os longas da Xuxa. A primeira metade da década marcou também o início das cinebiografias de músicos com o sucesso de “Dois Filhos de Francisco” (2005) e “Cazuza: O Tempo Não Para” (2004).

“É um momento estranho”, diz o cineasta e roteirista Jorge Furtado, autor do texto de “Lisbela e o Prisioneiro” e diretor de “Saneamento Básico – O Filme” (2007). “O problema é que o cinema nacional não está conseguindo tirar as pessoas de casa. O sucesso do filme está no interesse do público e a comédia tem a vantagem do julgamento instantâneo: ela é engraçada ou não.”

“É claro que sabemos que a comédia é o gênero tradicional do brasileiro”, fala Bruno Wainer, sócio-diretor da Downtown Filmes, co-produtora dos filmes mais vistos do ano passado, os humorísticos “De Pernas Pro Ar” e “Cilada.com”, que, somados, renderam cerca de R$ 55 milhões.

“Ela é mais fácil de produzir. Só precisamos de um bom texto e um bom comediante. Ganhar R$ 20 milhões com um filme de orçamento de R$ 4 milhões é melhor”, explica Wainer, que foi ajudou a lançar por filmes “sérios” como “Cidade de Deus” (2001) e “Chico Xavier” (2010).

Augusto Casé, produtor dos três longas de Bruno Mazzeo, inclusive o novo “E Aí… Comeu?”, acredita que a ascensão do humor no cinema brasileiro nos últimos anos não é para ser desprezada. “Queremos ocupar as lacunas que ‘A Era do Gelo’ e as comédias americanas preenchem”, confirma. “Sem público, como haverá o fortalecimento do cinema nacional?”
No entanto, há uma clara tendência de temas nas comédias de maior sucesso nos últimos anos. A maioria tem um forte apelo sexual. Seja uma mulher que cuida de uma sex shop (“De Pernas Pro Ar”) seja um homem provando que é bom de cama depois de um mico online (“Cilada.com”), quanto mais piadas sacanas, melhor.

“É natural. A comédia muda de acordo com a sociedade. O humor reflete isso e agora podemos fazer comédias mais arrojadas e com viés sexual, quebrar tabus. O público já absorveu esse humor”, diz José Alvarenga Jr., cineasta de “Os Normais” e “Cilada.com”.

Renato Aragão, dono dez filmes no top 10 das maiores bilheterias do cinema nacional em todos os tempos, acredita que a comédia vive um ciclo, mas que o gênero de piadas mais pesadas não o atrai a retornar aos longas. “Não faria um filme apelativo nem se passasse muita necessidade”, confessa o comediante, que prepara uma animação em 3D estrelada por seu personagem Bonga, o vagabundo e desenhada por membros brasileiros da equipe técnica de “Rio”.

Fonte: Folha de S. Paulo

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