Roma em três dimensões

por Antonio Gonçalves Filho

Roma, conta o historiador Guido Clemente, curador da exposição Roma – A Vida e os Imperadores, não passava de uma aldeia de pastores e agricultores ao ser fundada, em 753 a.C., mas virou um império tão vasto que os romanos se consideravam os donos do Mar Mediterrâneo, a ponto de rebatizá-lo como Mare Nostrum, observa Clemente. Para afirmar esse poder, os imperadores – de Augusto a Claudio – se fizeram retratar com a iconografia normalmente reservada aos deuses, sendo o modelo recorrente a ninguém menos que Júpiter, pai de Marte e avô de Rômulo e Remo, fundadores de Roma. Considerando que os imperadores morriam e viravam deuses, eles já treinavam aqui na Terra, e isso fica claro na mostra, aberta a partir de quarta-feira, 25, no Masp.

Estátua de Jupiter integra exposição Roma - A Vida e os Imperadores - Arquivo do Museu Nacional de Roma / Divulgação
São 370 obras do período em que a arte clássica atingiu seu apogeu no Império, peças impressionantes como a estátua do deus Júpiter (o verdadeiro) que ilustra esta página, pertencente ao Museu Nacional Romano, uma das quatro instituições italianas que abriram seu acervo para a mostra. Nela, o rei dos deuses parece ter a cabeça desproporcional ao tronco nu que a suporta – e, nesse caso, não se incorpora uma metáfora como a dos imperadores que dele se apropriaram. É que a cabeça foi, de fato, esculpida separadamente do corpo e tem proporções maiores em relação aos ombros. São duas toneladas de beleza e perfeição anatômica, qualidade de quase todas as esculturas da exposição, na qual se destaca uma estátua de Vênus, a deusa do amor, agachada e flagrada durante o banho por um artista romano que copiou o original de Doidalsas, escultor do século 2º.

Curador do Masp, o crítico José Roberto Teixeira Coelho nota que a Vênus romana faz lembrar as mulheres que o francês Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867) pintaria séculos depois (o que é justificável, tratando-se do filho de um escultor ornamentista e aluno de David, mestre neoclássico). De fato, a equilibrada composição da escultura romana clássica deve ter inspirado Ingres durante a temporada que passou na capital italiana. Os neoclássicos franceses devem muito à estatuária romana, assim como os escultores romanos devem aos gregos. “No entanto, foram os escultores romanos que inventaram o modelo realista, o retrato”, observa o curador Clemente, apontando como exemplo o busto do imperador Vespasiano, o primeiro da dinastia dos flavianos e iniciador da construção do Coliseu de Roma. A ‘facia bruta’ de Vespasiano lembra os rostos caricaturais dos personagens fellinianos, revelando a expressão tensa de um homem destinado a reorganizar um império decadente.

Foi justamente a vida romana, entre os excessos dos imperadores e a árdua batalha cotidiana de seus cidadãos, que levou o curador Guido Clemente a organizar uma mostra conceitual, que tem tanto as estátuas dos senhores como objetos simples usados pelas famílias, escravos e gladiadores. “De um lado o poder, do outro o circo”, resume o curador, esclarecendo que, ao organizar a mostra monumental, não pretendia fazer a apologia dos imperadores romanos, “que de fato foram cruéis, mas conseguiram governar um império multiétnico”.

É esse aspecto particular, o de Roma como caldeirão de culturas, que Clemente quer destacar. Ele mostra a cabeça de um jovem negro como exemplo do retrato realista que artistas de Roma perseguiam ao tomar como modelos os estrangeiros, que, segundo o curador, mantinham razoável autonomia cultural, embora subordinados ao império – muitos além da conta, pois metade da população era formada por escravos. Em cada caso, o respeito à diversidade cultural parecia mesmo existir. As cidades imperiais ganhavam com o trânsito livre do estrangeiro. É uma lição que o mundo moderno e globalizado parece não ter ainda aprendido.

Senhores e escravos. O curador da exposição mostra que, antes da dominação imperial, a possibilidade de um estrangeiro circular livremente, difundindo sua cultura e religião entre os romanos, era pequena. Adriano tinha sotaque de espanhol, mas chegou ao trono assim mesmo, lembram os historiadores. Deuses adorados em outras regiões foram importados e muitas das estátuas que os representam na mostra do Masp revelam a vocação multicultural do império. “Apesar de imperfeita, a integração social e cultural promovida pelos séculos de dominação romana era uma realidade”, garante o professor Carlos Machado, da Unifesp, observando, no catálogo da mostra, como a palavra multiculturalismo mudou de sentido desde então. Para os romanos, ela significava, antes, preservar as diferenças, sejam elas étnicas ou religiosas.

Uma pequena cabeça de um dácio em mármore negro (pouco mais de 40 centímetros de altura), datada da época de Trajano (que derrotou os dácios, ancestrais de romenos e húngaros) destaca o barrete frígio, característico das populações orientais. Hoje, países europeus proíbem mulheres muçulmanas de usar trajes de sua cultura de origem. Isso faz toda a diferença quando se fala em multiculturalismo nos impérios modernos. Os gauleses, na época dos imperadores, podiam até mesmo entrar no Senado Romano, embora outras etnias fossem impedidas de sonhar com a cidadania local.

De qualquer modo, o ecumenismo era regra no Império. O culto de deuses africanos e egípcios não só foi tolerado como romanizado. Há na exposição camafeus com esses deuses representados e até um estranho busto da imperatriz Julia Domna com uma peruca (encaixada na peça de mármore) que certamente ela copiou das mulheres sírias. Entre as peças que o curador destaca como outro exemplo dessa aculturação está a da deusa Cibele, proveniente da Anatólia (atual Turquia), a Grande Mãe, que passou a ser cultuada em Roma no final do século 3º a.C. “Era assim que eles lidavam com a alteridade, assimilando e adaptando os cultos”, explica Guido Clemente.

Usados como amuletos contra a inveja e o mau-olhado e também para garantir fecundidade, os falos eretos do deus Príapo se espalham pela mostra em forma de pequenas estátuas e grandes peças (140 centímetros) esculpidas em mármore. Esse objetos de culto estavam em todas as casas, que muitas vezes identificavam a profissão de seu proprietário por meio de baixos-relevos, como o de um vendedor de travesseiros mostrando a mercadoria a clientes. É um exemplar raro, quase tanto como os afrescos da primeira metade do século 1º a.C. que o Museu Arqueológico de Nápoles cedeu para a mostra.

 

A peça mais rara, no entanto, é uma groma, instrumento para medir terrenos e projetar ruas das cidades romanas. Segundo o curador, é a única groma que restou do mundo antigo no mundo, exibida ao lado de baixos-relevos que mostram edificações imperiais.

Entre as obras monumentais da exposição destaca-se a estátua do príncipe Giulio Claudio, com mais de 2 metros e duas toneladas de peso. Monumentos funerários – entre eles o de um menino, em mármore, repleto de alusões simbólicas (uma cobra devorando um ovo, significando a morte consumindo a vida) – chama a atenção do visitante, também contemplado com elmos e armas de gladiadores, máscaras teatrais, joias e objetos de uso cotidiano dos romanos.

ROMA – A VIDA E OS IMPERADORES

Masp. Av. Paulista, 1.578, tel. 3251-5644. 11 h/18 h

(5ª, 11h / 20 h; fecha 2ª). R$ 15 (3ª, grátis). Abertura na quarta.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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