Documentário musical abre o ano Tom Jobim nos cinemas

por Pedro Antunes

A palavra falada não é necessária para explicar a genialidade de Antônio Carlos Jobim, o Tom (1927-1994). É com a canção, e toda a sua contraditória simplicidade complexa, que a trajetória do compositor, maestro, pianista e cantor carioca se resume na melhor forma. Da praia de Ipanema para o mundo, sem escalas, sem as barreiras linguísticas que costumam emperrar a exportação dos nossos talentos.

Tudo parece caminhar para que 2012 se torne o ano de Tom nos cinemas. No dia 25 de janeiro, próxima quarta-feira, ele completaria 85 anos. Antes, nesta sexta, o documentário A Música Segundo Tom Jobim estreia nos cinemas para expor visualmente a obra do gênio, um dos pilares da bossa nova no fim dos anos 1950.

Uma ideia perseguida pelo diretor Nelson Pereira dos Santos desde antes da morte do músico, em 8 de dezembro de 1994, era registrar vida e obra de Tom Jobim, numa espécie de homenagem cinematográfica ao ícone da música, popular ou erudita. Tom nunca aceitou, com medo de ser interpretado por alguém que não lhe agradasse. Foi feito, então, um programa especial na extinta TV Manchete, com quatro episódios e um total de quatro horas de duração, dirigido por Santos. O nome já era esse, mas, segundo ele, ainda não era o bastante. A música, que dava nome ao programa, dividia seu nobre espaço com entrevistas. E não era essa a ideia.

A história foi para a gaveta, até que em 2009 o projeto foi aprovado pelo edital da Natura Musical. Logo, Nelson Pereira dos Santos chamou a neta Dora Jobim, a “queridinha do vovô”, cujo conhecimento do acervo de Tom é vasto. Como dois diretores, dividiriam as obrigações do filme. Outro documentário, A Luz do Tom, também de Santos, sairá neste ano. 

A Música Segundo Tom Jobim é, primeiramente, um deleite musical em sua mais pura forma. Dado a colocar a cabeça dos espectadores para funcionar, Nelson Pereira dos Santos, um dos precursores do Cinema Novo, desde o princípio quis que a música de Tom falasse por si, sem quaisquer interjeições e interferências, em 90 minutos. “É um registro cronológico da criação de Tom Jobim. Reunimos material suficiente para contar a sua história sem que a gente precisasse interferir”, explicou o cineasta, logo depois da exibição do filme à imprensa, na semana passada. A ligação entre a música de Tom e o público chega de forma direta. De telona e alto-falantes para olhos e ouvidos, sem aquelas entrevistas com os especialistas de sempre, sem letreiros ou explicações. A pureza causa um estranhamento inicial.

“Não queria precisar indicar o nome de quem estava cantando, qual era a música. Queria que o som, que aquela interpretação, fosse o suficiente”, explicou-se o diretor. “É um habito da televisão, as pessoas querem tudo mastigado. Isso não é necessário. Pode estragar a conexão entre obra e público”, ponderou Santos. O roteiro teve a ajuda da cantora Miúcha Buarque de Holanda. “Eu e o Nelson conversávamos por horas”, contou ela. A direção musical ficou com Paulo Jobim, filho de Tom. 

Um time que nitidamente não poderia ser melhor para adentrar um universo musical tão complexo e, ao mesmo tempo, tão simples, de Tom Jobim. O Tom popular sobressaiu-se na seleção ao Tom erudito, garantem eles, em razão da falta de bons registros. 

O documentário remete ao Rio de Janeiro dos anos 1950, e faz um sentimento bucólico logo se espalhar pela sala de cinema enquanto as imagens em preto e branco são projetadas. Chega, então, um batalhão de estrelas: Frank Sinatra, Elis Regina, Elizeth Cardoso, Pierre Barouh, Silvia Telles, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr., Chico Buarque, Vinicius de Moraes. Interpretações de épocas diferentes de um gênio atemporal. Como o próprio Tom escreveu: “A linguagem musical basta”. E tudo se justifica em suas palavras. 

Fonte: O Estado de S. Paulo

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