Eric Clapton: guitarristas curtiram, mas…

por Mariana Paes
Editora do Catarse Musical

Na terça-feira ganhei ingressos para assistir Eric Clapton no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Fiquei animadíssima, ansiosa e pensei em como seria emocionante ver e ouvir ao vivo essa grande inspiração! Como professora de música, além de jornalista, ouvi colegas guitarristas falando maravilhas e alunos animados com o show.

Após o susto de pagar 100 reais para estacionar o carro o Shopping Butantã, uma considerável caminhada e tranquila entrada no estádio (cheguei por volta das 19h), observava os cabelos brancos misturadas com roupas estilosas de jovens, casais de vinte e poucos anos junto a casais com mais de 20 anos de união.

Interessante o mix de gente e a quantidade de cadeirinhas ainda vazias às 20h, quando fui surpreendida pela competência e energia de Gary Clark Jr, guitarrista responsável pela abertura do show. Com seu blues delicioso e voz tipicamente rock/blues, criou um clima sensual, despretencioso e cult. Fui buscar sobre o cara e descobri que ele é tido como a atual salvação do blues e assino embaixo! Adorei e o restante do público parece ter gostado também.

Às 21h, pontualmente, Eric Clapton entrou no palco. Muita gente ainda chegava ao estádio e procurava lugar pra sentar, outros preferiam ficar de pé porque os melhores lugares estavam ocupados. “Key to Highway” abriu o show e foi muito aplaudida. Vocais e guitarras competentes, banda muito boa backing vocals fantásticas, mas, faltava alguma coisa. Ok, era só a primeira música.

O som oscilou algumas vezes, com altíssimo volume de agudos em alguns momentos (notados principalmente nos solos e nos backings) e uma sensação de “som abafado” em outros. Mas ok, eu estava na cadeira vermelha coberta, na lateral… perdas da qualidade do som são até compreensíveis. Pena que várias pessoas, sentadas em outros setores, reclamaram do mesmo.

E o show seguiu sem interação de Clapton com a multidão. Solos impecáveis, blues gostoso de ouvir mas difícil de sentir. E comecei a notar uma certa impaciência da galera a minha volta, que saia toda hora pra pegar cerveja. A cada música, esperava o clímax do show, que chegou só em “Cocaine”, a última música do show (antes de “Crossroads”, bis com participação do guitarrista que abriu o show).

“Wonderful Tonight” e “Layla” também prenderam mais o público, mas sem aquele fascínio, aquela aura de “OOOOOOH, MEU DEUS”, típica em um show com um cara como Clapton. Ele mostrou ser um ótimo guitarrista, mas parecia apenas cumprir tabela, não houve aquela conexão legal com o público (a coisa que mais me emociona em grandes shows). Saí do show sentindo que faltou emoção… fiquei pensando que talvez eu seja muito chata, por ser jornalista e musicista, crítica demais. Também, depois de ver Paul McCartney ao vivo e ficar abismada com a energia e carisma do jovem senhor, meu nível de exigência com shows de jovens senhores internacionais subiu muito.

Caminhando de volta ao estacionamento, ouvi comentários como:

“Acabou cedo porque ele tá velhinho, tem que dormir cedo”
“Ah, meio antipático”
“Nem falou com o público”
“Me senti roubado”
“Bonito, mas meio chatinho”

Quanto mais me distanciava do estádio, menos ouvia comentários das que seguiam o mesmo caminho. Falavam sobre o trabalho, banco, fome, suco de pitanga, preço do estacionamento e a inconveniência de ter de subir até o G3 pela rampa externa do shopping.

Faltou “Change The World”, música que tocou na minha formatura e que passo para muitos dos meus alunos de canto… faltou o nó na garganta.

E hoje falei com o Robson, um amigo guitarrista, professor de guitarra, e li uns comentários de guitarristas que constam no meu Facebook. Guitarristas adoraram… no quesito “competência na guitarra” foi impecável, mas quem gosta de sentir o show, de sentir o artista disposto a entrar na energia da coisa e contagiar a galera… ah, quem gosta disso saiu meio desconsolado.

Mas, é sempre bom ver um bom músico no palco. E, já me desculpando com os guitarristas que vão ficar loucos lendo esse texto, repito as palavras do meu amigo Robson: ” tudo bem, os hereges serão perdoados”.

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Felipe Misquini
    out 13, 2011 @ 13:00:14

    Não fui no show, mas acho que não gostaria também. Eu gosto quando a banda interage com a plateia. Se é pra ouvir a música perfeitamente, eu compro o álbum.

    Responder

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