Início do conteúdo Inventário traz inéditos de Aleijadinho

por José Maria Tomazela

Um novo inventário das obras do mestre mineiro Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814), acrescenta 61 esculturas sacras ao acervo já conhecido de criações do artista. O conjunto de 486 trabalhos é o maior já atribuído ao escultor e está reunido na nova versão de O Aleijadinho – Catálogo Geral da Obra, do historiador mineiro Márcio Jardim, em coautoria com o também historiador Herbert Sardinha Pinto e com o pesquisador Marcelo Coimbra. O livro será lançado no dia 21, em São Paulo.

Espera-se polêmica: alguns pesquisadores criticam o que consideram excesso de atribuições de autoria ao mestre do barroco sacro que, segundo eles, confiava parte do trabalho a auxiliares. Outros consideram que o estilo do Aleijadinho foi bastante imitado por artistas menores e muitas obras não seriam suas.

Para Jardim, que no catálogo anterior, editado em 2006, havia relacionado 425 esculturas, a polêmica é natural. “Uma das questões mais ouvidas por quem se dedica ao trabalho de historiar a vida do Aleijadinho se concentra na dúvida sobre o número de suas obras.” Segundo ele, os autores do novo inventário sustentam a tese de que todas as obras apresentadas até agora são efetivamente de Aleijadinho e que ainda há muitas a serem descobertas. “A primeira razão para esse entendimento é que o artista viveu 84 anos e foi sempre obrigado a trabalhar para sustentar a si, quatro escravos e uma oficina com diversos auxiliares, não tendo outra fonte de renda”, explica Jardim.

A segunda, segundo ele, é que a maior parte das obras do escultor mineiro é constituída por esculturas de pequenas dimensões – entre 20 e 40 centímetros – e de madeira leve, macia, geralmente o cedro. No tocante à autoria, o historiador lembra que, no caso do Aleijadinho, a atribuição por documento é apenas subsidiária, pois várias obras encomendadas a outros artistas foram subempreitadas a ele.

Como exemplo, ele cita os trabalhos realizados para a Ordem Terceira do Carmo, que não admitia membros não brancos – Antonio Francisco Lisboa era pardo. “Um terceiro aparecia eventualmente como contratado ou garantidor por fiança, entregando o serviço à oficina do artista”, conta. Algumas dessas transações foram documentadas e os recibos fazem parte da publicação.

O catálogo inclui pela primeira vez o pouco conhecido acervo das coleções particulares, já que alguns desses colecionadores são avessos à publicidade. “Estamos trazendo ao conhecimento público imagens sacras esculpidas pelo Aleijadinho e preservadas pelos colecionadores privados ao longo dos dois últimos séculos”, afirma Jardim. Coube a Marcelo Coimbra, com sua experiência de antiquário, a tarefa de convencer os donos das peças a permitir que fossem descritas e fotografadas. “Muitas estavam guardadas a sete chaves e nunca foram mostradas”, contou Coimbra. Em sua atividade profissional, ele teve contatos com colecionadores de arte antiga de todo o Brasil e há mais de uma década decidiu se dedicar à obra do Aleijadinho – foi curador de várias mostras do artista.

Coimbra visitou os 20 colecionadores que possuem esculturas do mestre mineiro e constatou que 80% das obras em coleções particulares estão em São Paulo. “Muitas são esculturas de pequeno porte, feitas para oratórios domésticos.” Embora a produção mais abundante e conhecida esteja nas cidades históricas de Minas Gerais – são relacionadas obras em 18 cidades mineiras, de Ouro Preto a Belo Horizonte, passando por Mariana, Sabará, São João Del Rei, Tiradentes e Congonhas -, o catálogo traz também as peças que compõem o acervo público do artista em São Paulo, encontrado no Museu de Arte Sacra, no Museu de Arte de São Paulo e no Palácio dos Bandeirantes – uma única escultura, um São José de Botas.

Prova de que há o que ser descoberto, Coimbra relata que encontrou por acaso uma peça até então não identificada de Aleijadinho na igreja de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, em Mariana. “Fui observar um trabalho de um contemporâneo dele, Francisco Vieira Servas, quando reparei no altar colateral esquerdo, em cedro, muito parecido com os da Igreja do Carmo de Sabará.” Ao notar o estilo do mestre mineiro no entalhamento da madeira, ele não teve dúvida: “Era mesmo um Aleijadinho, como confirmou depois o Márcio Jardim.” O altar colateral está entre as obras inéditas do catálogo.

Para marcar o lançamento, no dia 21, o Círculo Militar de São Paulo (Rua Abílio Soares, 1.589, Ibirapuera) vai expor 38 obras atribuídas a Aleijadinho, uma celebração prévia do bicentenário de sua morte, que transcorre em 2014. Dessas, 16 são inéditas, com destaque para um São João Batista esculpido entre 1781 e 1790, fase de maturidade plena do autor. A mostra recebe visitantes de 21 a 30 de outubro, com entrada franca.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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