Rock In Rio não deixa história memorável

por Jotabê Medeiros

Do ponto de vista comercial, o Rock in Rio foi um sucesso: 310 mil turistas vieram ao Rio (20% deles do exterior), quase 40% a mais do que o normal nesse período do ano. Eles ocuparam a totalidade dos hotéis, deixando R$ 800 milhões para a cidade. Foram 700 mil espectadores, 170 atrações, 98 horas contínuas de música – há quem discorde dessa última definição.

O Rock in Rio tem grande valor histórico. Empurrou a música brasileira, uma das mais ricas, para os palcos principais, deu-lhe públicos de 100 mil pessoas, visibilidade e respeito. Deu-lhe também condições técnicas equivalentes às das maiores bandas do mundo. Assumiu a efervescência da face comercial, sem falso moralismo, e abriu espaço para o futuro. Potencializou a grande ansiedade pela arte que vem ao festival de todo lugar, do Oiapoque ao Chuí, com suas bandeiras coloridas, suas camisas de times. Essa é a riqueza maior do festival, uma pulsão humana maior que o preconceito e a unanimidade de elite.

Mas não é injusto dizer que essa edição foi uma das mais conservadoras, em termos artísticos, coisa que não pode se repetir em 2013. Godzilla dos festivais de rock, o Rock in Rio não deixa, como saldo artístico, uma impressão boa. Pareceu ter sido montado sem convicção curatorial, recebendo o que era ofertado com mais presteza (quem sabe alguma pechincha). Parte das suas atrações principais se apresentou antes em outras cidades, como Red Hot Chili Peppers e Ke$ha (em São Paulo), o que esvaziou um pouco a curiosidade sobre suas performances.

Muitos artistas também demonstraram certa preguiça em relação ao novo, fazendo seus shows tradicionais (o mesmo show que fazem em feiras agropecuárias), caso de Skank, Jota Quest, Maroon 5, Frejat, Maná, Lenny Kravitz. Poucos fugiram da preguiça, caso de Claudia Leitte, Coldplay, Evanescence – enfrentando inclusive os riscos dessa ousadia. Outros, cuja performance era ironizada antes de chegarem aqui, se superaram em vontade e animalidade musical, como Elton John.

O palco que teria a função de anunciar a novidade, o Sunset, falhou. As jams anunciadas só tinham uma interface entre um e outro artista – ensaiavam uma só musiquinha, e um deles apenas fazia corinho na música do outro. Os únicos duetos a fugir disso foram o de Marcelo Camelo e The Growlers e Esperanza Spalding e Milton Nascimento.

Em dado momento da semana passada, após os problemas iniciais (mais de 400 assaltos e furtos só na primeira semana), o Rock in Rio definiu o público como ‘mal educado’. Não está tão longe da verdade. A reportagem do Estado testemunhou um grupo de garotos urinando em copos de cerveja para não ter de ir ao banheiro, e depois entornando o conteúdo na grama sintética. Em outro extremo, garis passavam pela vigilância com espectadores clandestinos dentro de seus carrinhos de lixo de rodas de 100 litros, cobrando R$ 20 por cabeça. Como dar uma resposta a isso, essa desumanização e falta de noção crônicas?

O Brasil vive um momento de preocupação com os megaeventos. Credenciou-se para isso, precisa se preparar. Mas foi falso imaginar que uma Cidade do Rock de fantasia, que ignora o cerco que se forma lá fora, poderia afirmar nossa vocação para o espetáculo de massas. É preciso insistir, mas com realismo, cuidando com mais rigor da logística, abrindo canais de comunicação com o mundo real, sem deixar de fazer um grande espetáculo.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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