Depois dos clássicos, a ousadia – Ana Botafogo dança coreografia feita para o mito Margot Fonteyn

Roberta Pennafort

Antes de 1981, Ana Maria Botafogo Gonçalves Fonseca era uma jovem bailarina a sonhar alto: queria, como toda moça de coque, sapatilhas e ambição, integrar o balé do Teatro Municipal do Rio, o mais tradicional do País. O palco onde haviam dançado lendas do século 20, como Isadora Duncan, Nijinsky, Nureyev e Margot Fonteyn, lhe parecia então distante demais – ainda que já trouxesse a experiência no Balé de Marselha de Roland Petit, onde deixara de “ser a mais talentosa de sua escolinha de Copacabana para ser mais uma”.

 

A mestra. Sem apoio para fazer Marguerite e Armand, ela foi à luta e venceu - Fabio Motta/AE

Uma variação de A Bela Adormecida numa audição mudaria tudo. Nomeada primeira bailarina, Ana Botafogo iria se tornar aos poucos a mais conhecida do Brasil, e o Municipal, sua casa. A trajetória profissional da menina da Urca, talentosa desde criança, havia sido iniciada cinco antes, e passara pelo Teatro Guaíra, em Curitiba. Mas tamanha projeção só o principal palco brasileiro lhe daria.

Os 30 anos de serviços prestados são marcados pela temporada festiva que começou no fim de semana passado, justamente no Guaíra. No próximo, ela dança no Teatro Alfa; dias 1.º e 2 de outubro, a carioca volta para casa. Com ela, estão 22 jovens da Companhia Jovem de Ballet que também buscam o estrelato.

Ana ainda se recupera da ruptura de um ligamento no pé esquerdo, lesão mais grave de sua carreira inteira. Ficou sete meses parada. E não são os apelos do ortopedista que vão imobilizá-la, tampouco o custoso processo de voltar à forma numa idade em que as bailarinas em geral só dançam por diletantismo.

A base do espetáculo comemorativo é o balé Marguerite e Armand, inspirado em A Dama das Camélias e idealizado para uma Margot Fonteyn de 44 anos. Ana é a primeira brasileira a encená-lo. “Não queria mais dançar os clássicos. Passei 30 anos fazendo Coppélia, Dom Quixote, foram uns 20 de O Lago dos Cisnes…”, conta, aos 53 não confessos (bailarinas gostam de dizer que “têm a idade das personagens”). “Queria falar ‘não’ enquanto ainda estava bem e poderia dizer ‘sim’.”

Ana tentou envolver o Municipal na empreitada, mas não conseguiu apoio e achou que era hora de ser independente. Buscou o patrocínio da Vale, comprou os direitos da obra na Inglaterra, trouxe figurinos, cenário e artistas do Teatro Cólon, que tem o balé em seu repertório. O pianista Iván Rutskauskas interpreta a sonata de Liszt que embala a história triste dos amantes parisienses; o bailarino Federico Fernández, o mais destacado da casa de Buenos Aires, é Armand.

Dos corpos artísticos do Municipal estão os parceiros de sapatilhas Marcelo Misailidis e Joseny Coutinho, a orquestra e o regente Henrique Morelenbaum, que viu os primeiros fouettés de Ana ali e regeu seus Giselles e O Quebra-Nozes.

Resoluta, Ana diz não ter ficado magoada com a aparente desfeita. “Vi que não iam fazer por mim, então tive que correr atrás, e por dois anos. A vida inteira eu dependi do Municipal. Eles têm as razões deles, e não sofro com isso. Sou de bem com a vida.”

Marguerite, a cortesã apaixonada pelo jovem Armand, e por ele humilhada, estreou no Municipal, em montagem antológica, em 1967, com Margot dividindo a cena com Nureyev. Quase não foi mais encenado. Diz-se que o coreógrafo não queria ceder a obra a mais ninguém.

Nas apresentações de Ana, o drama é mesclado com outras coreografias modernas.

ANA BOTAGOFO
Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Sáb., às 21 h; dom., às 18 h. R$ 40/R$ 100.

Depoimento
Henrique Morelenbaum – Maestro

Aos 80 anos recém-feitos, 42 de Municipal, o maestro Henrique Morelenbaum viu estrear músicos como Nelson Freire, Cristina Ortiz e Arnaldo Cohen e muitas bailarinas. De Ana Botafogo, lembra até dos primeiros passos. Ele era o diretor do teatro quando ela prestou concurso.

Como as companheiras de balé Nora Esteves e Cecilia Kerche, que só têm palavras elogiosas para Ana – “é uma empreendedora”, “sempre trabalha de bom humor” -, Morelenbaum louva sua determinação.

“Ela é uma filha artística. Do fosso da orquestra, o maestro vê a ponta dos pés dos bailarinos. Em sua estreia, em Coppélia, na primeira pisada vi que já era uma grande artista. Foi um sucesso tão grande que batemos um recorde de 17 apresentações. Só não foram mais porque o teatro não tinha outras datas. Ela superou momentos difíceis (ficou viúva duas vezes) de forma extraordinária. Não é artista só do balé, mas da vida. Muito cordata, companheira, sabe que balé é conjunto.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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