Mimo, o palco da música instrumental

por Antônio do Amaral Rocha, de Olinda
Em sua oitava edição, a Mimo – Mostra Internacional de Música de Olinda, ocorrida de 5 a 11 de setembro em Olinda, Recife e João Pessoa, se mostrou como um dos eventos mais importantes de música instrumental no Brasil. Isso por três razões definitivas: o evento é totalmente gratuito; apresenta contrapartida para a população com workshops e oficinas ministrados por artistas convidados; e, especialmente, porque traz música de primeira qualidade. Esse tripé é enfatizado pela produtora e diretora geral Lu Araujo e André Oliveira, responsável pelo segmento de música de concerto da mostra. A boa qualidade do evento pôde ser sentida em um line-up diversificado, com orquestras do Brasil e da França, além de artistas como Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé, Philip Glass, André Mehmari, Hamilton de Holanda, Ballaké Sissoko, Vincent Segal, a banda Gotan Project, Alex Tassel e Arthur Verocai, entre centenas de músicos (450 ao todo). Em sete dias, o evento trouxe uma programação de 26 shows, com uma verba de R$ 1,5 milhão – número relativamente baixo se considerada a extensão do festival.

Quarta-feira, 7
Na última quarta, 7, às 18 horas, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos (Olinda) cedeu o seu altar e teve a sua nave lotada para assistir ao show da compositora e pianista Delia Fischer, acompanhada de trio, com um repertório que homenageou Egberto Gismonti. E no mesmo horário, a Parahyba Art Esemble, um eclético coletivo de oito músicos de diversas nacionalidades, tocou suas experimentações na Igreja São João Batista dos Militares, também em Olinda. Logo depois, foi a vez da Igreja do Seminário receber lotação máxima para ouvir o Trio 3-63, liderado pelo percussionista Marcos Suzano, mais o pianista Paulo Braga e a flautista Andrea Ernest Dias, com um repertório todo baseado na obra do genial compositor e maestro Moacir Santos, inclusive com a execução de composições inéditas pesquisadas no seu acervo da Califórnia.

Enquanto isso, em Recife, no Parque Dona Lindu, acontecia o espetáculo do violonista Guinga e trio, com suas refinadas harmonias, acompanhado da Orquestra Sinfônica do Recife. E se isso parecia pouco para uma primeira noite, na Igreja da Sé em Olinda, o espaço nobre da festa, aconteceu a abertura oficial do evento, com a presença do governador Eduardo Campos. Pontualmente às 20h30, o malinense Ballaké Sissoko (kora) e o francês Vincent Segal (violoncelo) executaram um repertório sensível que exigiu do público silêncio absoluto. A kora é um instrumento tradicional de 21 cordas que soa ora como harpa, ora como cítara e necessita de silêncio para ser ouvida. Ballaké executou os seus temas com os olhos fechados o tempo todo e o violoncelo de Vincent proporcionava a cama necessária para a construção da música. Em alguns momentos, o violoncelo quase sugeria um baião. Houve canja de Naná Vasconcelos, que apareceu com um berimbau e deu o caminho para um longo improviso. No bis, o desejado baião deu as caras com a execução de uma versão impressionante de “Asa Branca”. Um extasiado governador Eduardo Campos resumiu à reportagem da Rolling Stone Brasil o que havia acabado de assistir: “Um espetáculo maravilhoso”. E com ele, com certeza, toda a plateia sentiu o mesmo.

Quinta-feira, 8
A programação do dia 8 apresentou Arrigo Barnabé e Paulo Braga na Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos, em Recife. O repertório de Clara Crocodilo, adaptado para um duo de piano, trouxe a fusão de elementos de música erudita e signos da cultura pop, presentes na obra de Arrigo. “Sabor de Veneno”, “Diversões Eletrônicas” e “Orgasmo Total” complementaram o programa. Transgressor foi assistir a estes temas sendo executados dentro de uma igreja. Arrigo, em momento solo, executou algumas valsas que se esforçou para lembrar. O ponto alto do show foi a execução da belíssima valsa “Cidade Oculta”, tema do filme homônimo do cineasta Chico Botelho.

Bastante comentado e pouco conhecido, o compositor e arranjador Arthur Verocai teve a sua oportunidade na mesma noite, na Igreja da Sé, em Olinda. Em entrevista no dia do show, Arthur declarou ter abandonado a carreira de músico popular em 1972 (apesar de já ter temas gravados por estrelas da MPB, como Elis Regina), quando o seu único disco não teve a repercussão que ele esperava. Continuou trabalhando em jingles publicitários, até que décadas depois foi redescoberto pelo grupo de hip-hop norte-americano Little Brother, que sampleou a música “Caboclo” e virou cult nos Estados Unidos. Verocai se disse animado e resolveu ele mesmo recriar os arranjos antigos. Para este show, ele trouxe a banda paulista Projeto Coisa Fina, um conjunto de cordas, o cantor Carlos Dafé e a cantora Clarisse Grova. Visivelmente emocionado, regeu 14 temas, entre eles a conhecida “Na Boca do Sol”, e fez, seguramente, um dos shows mais apreciados de toda a mostra.

O único show em espaço aberto aconteceu também no dia 8. A Praça do Carmo, na região central de Olinda, foi tomada por 30 mil pessoas que assistiram boquiabertas aos arranjos eletrônicos para o tango do multiétnico grupo Gotan Project. O som contagiante transformou a praça numa enorme pista de dança. A melancolia do bandoneón, aliada aos arranjos eletrônicos, foi acompanhada por projeções no palco, com imagens de mulheres sensuais dançando a tradicional música argentina. O Gotan Project faz uso de toda a parafernália sonora, com programações de baixo e teclado, além de piano, violino, guitarra, violão e bandolim, e vocais a cargo da cantora Claudia Pannone. Foi o show mais popular de todo o line-up – até alguns acordes de “Samba de Uma Nota Só” foram executados, em uma tentativa de ganhar a simpatia da multidão.

Sexta-feira, 9
A Mostra continuou na sexta, 9, na Igreja do Mosteiro de São Bento, com o grupo Projeto Coisa Fina, que já havia acompanhado Arthur Verocai no dia anterior. A big band, de 13 integrantes, formada em 1995 e liderada pelo jovem Daniel Nogueira (sax tenor e flauta), trouxe mais uma vez o repertório do maestro Moacir Santos, executados como total reverência ao compositor pernambucano. Apesar da música considerada “difícil”, o público soube entender a homenagem.

Também na Igreja da Sé, apresentou-se a única banda de jazz puro e totalmente acústico de toda a Mostra. O quinteto do trompetista francês Alex Tassel tem formação tradicional, com Sylvain Beuf no saxofone, Laurent de Wilde no piano, Diego Imbert no contrabaixo e Julien Clarlet na bateria. Eles xecutaram um programa de uma hora, com seis longos temas. Mas, como o ecletismo é uma característica intrínseca à Mimo, a recepção foi total.

Sábado, 10
O resultado da etapa educativa e das oficinas para formação de músicos de orquestra desta edição foi mostrado no concerto da tarde do dia 10, na Igreja do Monte, único palco fora do centro histórico de Olinda. O concerto constou de quatro formações distintas: orquestra de cordas dedilhadas (violões, cavaquinhos e bandolins), orquestra de cordas com arcos (violinos e violoncelos), orquestra de sopros de madeira (clarinetes, oboés, fagotes) com flautas e trompa destoando do conceito e finalmente orquestra de sopros de metais (trombones, trompetes, tubas e sax). Percebia-se na plateia grupos familiares que foram especialmente para ver os filhos e maridos mostrarem o resultado de uma maratona semanal de aprendizado, por isso a fruição do concerto teve um tom emocional elevado.

A noite do dia 10 teve os dois shows mais esperados de toda a mostra. Na Igreja do Seminário, Egberto Gismonti (violão de 10 cordas e piano) e o filho Alexandre Gismonti (violão clássico) fizeram um show que durou duas horas. Executaram o repertório do disco Saudações, ainda inédito no Brasil. Gismonti, pai, a maior parte do tempo ao violão de 10 cordas, lançava constantes desafios ao filho, que respondia no seu violão clássico, em improvisos. Egberto se comporta no palco com um simpático professor, fala bastante – não de música em si, mas da ética da profissão, da formação e da importância da educação. Em dado momento, ele chamou ao palco a violinista Ana de Oliveira e eles executaram temas conhecidos do seu repertório. E ainda provocou a filha de Naná Vasconcelos que estava na plateia, Luz Moreno, de 11 anos. Queria que ela executasse “Água e Vinho”. Diante da negativa da menina por timidez, ele mesmo acabou executando a música ao piano. Executou também “Miudinho”, de Villa Lobos, e temas do balé “Sonhos de Castro Alves”, de sua autoria. Para encerrar, chamou ao palco o pianista André Mehmari e juntos tocaram uma arrepiante versão de “Palhaço” a quatro mãos. E como se isso fosse pouco, ainda convidou o bandolinista Hamilton de Holanda, descrevendo-o como um dos mais perfeitos instrumentistas da sua geração. O show de Egberto foi um acontecimento que o público não vai esquecer tão cedo.

Egberto parecia não querer sair do palco e o esperado show de Phillip Glass já estava começando. Descendo a ladeira da Igreja do Seminário, o público, como em uma procissão, tentava alcançar a Igreja da Sé, nestas alturas já lotada com 800 pessoas e com a praça intransitável. Estimou-se a presença de quatro mil pessoas. Glass, acompanhado do jovem violinista Tim Fain, apresentou o concerto chamado Uma Noite de Música de Câmara. Iniciou o show com piano solo com o tema “Études” (1&2). Em seguida, Tim Fain executou a peça “Partita para Violino Solo em Sete Movimentos”, mostrando toda a sua maestria com o violino, provocando aplausos demorados no meio da função. Glass, em seguida, apresentou “Metamorphosis” (4, 6 e 10), em uma performance que deixou a plateia em suspenso, e foi o ponto culminante da noite do genial pianista. Juntos executaram “The Screens” e, em alguns momentos, Philip permitiu que toda a exuberância de Tim fosse mostrada, no que parecia um longo improviso ao violino. Encerraram juntos com “Pendulum”, com uma execução realmente arrebatadora.

Domingo, 11
O dia 11, último do Mimo, começou com o concerto da etapa educativa do curso de regência. Na Igreja do Seminário de Olinda, a Orquestra Sinfônica de Barra Mansa foi regida por sete diferentes maestros, que se aperfeiçoaram durante uma semana sob a direção de Isaac Karabtchevsky.

O segundo show do dia e penúltimo da mostra trouxe o grupo carioca Pagode Jazz Sardinha’s Club, na Igreja do Seminário de Olinda. O septeto fez uma bem humorada mistura de samba, choro, bossa e até uma imitação de funk a la James Brown que não convenceu muito. Mas como são exímios instrumentistas o resultado foi mais do que agradável.

E para encerrar a semana de música, nada melhor do que a presença do mais bem-sucedido duo instrumental brasileiro dos últimos anos, André Mehmari ao piano e Hamilton de Holanda ao bandolim, homenageando dois dos mais completos músicos brasileiros, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Eles trouxeram o repertório do premiado álbum Gismontipascoal. O piano de André, com constante uso do pedal, preencheu a nave da Sé, e o bandolim de Hamilton, dedilhado de forma impecável, dava uma cor especial ao repertório dos dois mestres. Foi de se lamentar a ausência da clássica “Palhaço”, de Gismonti, que com certeza permitiria uma performance arrasadora, mas o bis compensou: houve uma versão emocionante de “Rosa” (Pixinguinha). Neste show aconteceu algo que poucos viram: Philip Glass assistia à apresentação em lugar reservado e na primeira meia hora se retirou. Será que a maestria do pianista André foi demais para o genial Philip?

Para acompanhar o último dia da programação de filmes que aconteceu paralelo à mostra, Olinda recebeu Jards Macalé, um dos retratados no bem-sucedido documentário Canções do Exílio: a Labareda que Lambeu Tudo, de Geneton Moraes Neto. Macalé aproveitou e marcou presença no show de André e Hamilton e teria sido emocionante e até adequado se tivesse sido chamado ao palco. Agora só nos resta esperar a nona edição do festival.

Fonte: Rolling Stone Brasil

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