Nova geração do tango se une por afinidade estética e política

por Denise Mota

Há um aparente paradoxo que não para de crescer e se fazer ouvir nos recônditos de Buenos Aires: o “novíssimo tango” ou “tango contemporâneo” ou “tango off”.

Todas são definições de um movimento liderado pela juventude musical do underground da cidade, que rechaça, entre outras coisas, a união de tango e música eletrônica popularizada por grupos como Gotan Project e Bajofondo –mistura que curiosamente vem sendo incorporada pela velha guarda nas milongas da capital portenha ou de Montevidéu.

Também está fora de cogitação sentar-se ao piano para executar ícones como “La Cumparsita”, ou reunir clássicos para maravilhar turistas “que pagam US$ 100 para ver um espetáculo brega e tomar uma taça de champanhe”, como define, com bom humor e língua afiada, Agustín Guerrero, um dos cabeças da onda insurgente.

“Diria aos brasileiros que venham ver tango de verdade. Que não se deixem ser roubados pela estética de shopping center”, diz o líder da Otag (Orquesta Típica Agustín Guerrero), que se apresenta como músico de tango desde os 11 anos.

Para os integrantes desse novo circuito de produção –compositores entre 20 e 40 e poucos anos que têm como base o jazz e o tango–, é hora de renovar o ritmo a partir de sua lógica criativa original: a experimentação à luz das vanguardas musicais e da realidade social.

“Existe uma tentativa de somar ao tango elementos da música contemporânea. Pode ser o dodecafonismo ou elementos da música impressionista etc. Temos poucos ou nenhum ponto de contato com o tango eletrônico, algo muito simples, muito básico. Feito para tocar em danceteria”, estoca Guerrero.

Também se trata de juntar forças entre autores que compartilham visões semelhantes sobre um gênero percebido “como um meio de comunicação, como uma linguagem que é nossa”, diz Hernán Cabrera, 30, líder do Ciudad Baigón, uma orquestra típica de quatro bandoneóns, três violinos, viola, violoncelo, contrabaixo, piano e voz.

OS CINCO MANDAMENTOS DO NOVÍSSIMO TANGO
Comentados por Agustín Guerrero

1 – Hits, jamais
“Já nos anos 30, Gardel dizia que ‘La Cumparsita’ estava manjada. Tocá-la hoje em dia é ridículo”.

2 – Não aos espetáculos for exportação
“Muitos músicos se submetem a isso para sobreviver. Prefirodar aulas”

3 – Dos ícones, o menos óbvio
“Em vez de gravar a versão 10.600, mais ou menos, fizemos ‘Whisky’, um Piazzolla menos conhecido”

4 – Tangueiros, calem-se!
“Muitos tangueiros não sabem tocar um dó maior no violão e vão me dizer o que tenho que fazer?”

5 – De todos, entre todos
“Nosso objetivo é mostrar o mais moderno e o melhor que está sendo produzindo hoje”

A meta de Cabrera, o líder do Ciudad Baigón, é empreender a mesma busca artística que impulsionou o trabalho de grandes nomes do tango, como Horacio Salgán, 95, Osvaldo Pugliese (1905-1995) ou Astor Piazzolla (1921-1992). São eles os mais admirados por esta geração.

As colaborações entre os grupos são frequentes. Assim, a Otag interpreta composições próprias, mas também faz arranjos para obras de artistas como Fernando Otero, vencedor do Grammy Latino de música clássica no ano passado.

“As mutações que devem ocorrer sobre um gênero popular como o tango (que espelha o estado de espírito de parte da sociedade) teriam de responder mais a um fenômeno cultural e social do que a um fenômeno comercial”, considera Cabrera.

Com este fim, o Ciudad Baigón começou a tocar todos os domingos na rua Defensa de Buenos Aires, no bairro de San Telmo. Segundo Cabrera, graças à divulgação de rua, em quatro anos de existência o grupo conseguiu gravar dois discos (que já venderam 14 mil cópias) e fazer quatro turnês pela Europa.

Um dos “gurus” desse ressurgimento do tango é Diego Schissi, 42, líder de um quinteto que leva seu nome, criado há dois anos, e um dos idealizadores do ciclo Tango Contempo (tangocontempo.com.ar), centro de convergência de autores identificados com essa proposta.

“Tango Contempo nasce da necessidade de materializar um projeto em um contexto onde não havia lugares naturais para tocar nossa música”, diz Schissi, compositor e pianista, escolado em jazz.

O mais recente CD do músico, “Tongo”, resume em uma palavra o que seu quinteto deseja expressar: “tangos improváveis”, como esclarece o subtítulo do álbum lançado no ano passado.

Apesar de o objetivo desses arautos da renovação ser “sintetizar o que está sendo produzido de qualidade”, segundo Guerrero, trata-se de um fenômeno abandonado pelo poder público. “A gestão da cidade de Buenos Aires é nefasta com os artistas. Mauricio Macri [o recém-eleito prefeito da cidade] fecha os lugares onde podemos tocar e diz sim à comercialização da música, onde os turistas são enganados em espetáculos horrorosos. Não há uma política cultural para nada e menos para o desenvolvimento do tango.”

DIEGO SCHISSI
QUANDO 30/9 e 1º/10
ONDE Auditório Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, tel. 0/xx/11/3629-1075)

Fonte: Folha de S. Paulo

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