A arte insuperável de talentos explosivos que partiram cedo

por Lauro Lisboa Garcia

É pena que Amy Winehouse tenha tido menos tempo de expandir seu imenso talento como cantora e compositora do que outras figuras apanhadas pela tal maldição dos 27 anos – como Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain. Morto aos 30 anos e meio, em circunstâncias misteriosas, Jeff Buckley deixou um único e imprescindível álbum de estúdio gravado, Grace (1994), uma daquelas obras-primas que tanto consagram quanto complicam a vida do artista. Depois disso ele não precisaria fazer mais nada. O que viria a seguir poderia ser melhor?

Elis Regina, quando morreu aos 36 anos em 1982, estava em crise sobre como levar a carreira adiante. Sequência de sua promissora estreia com Frank (2003), mesclando jazz, soul, rhythm”n”blues e reggae, Back to Black (2006) é o Grace de Amy, o álbum mais marcante da década. Ela trouxe de volta o estilo de música (e visual) das divas dos anos 1950 e 1960 e fez escola. Adele, a sensação britânica do momento, Paloma Faith e Gabriella Cilmi estão entre as que foram influenciadas por ela.

No entanto, como ficou explícito, os excessos com drogas tiveram consequências dolorosas sobre a atuação de Amy e sua importância artística. Seus shows no Brasil em janeiro foram decepcionantes. A gravadora rejeitou as demos do que seria seu terceiro álbum.

Vidas desregradas e consequentes mortes precoces tiraram também muitos brasileiros de cena. Noel Rosa morreu aos 26 anos e meio, vítima de tuberculose, resultado da vida boêmia. Quem se importa com essa questão moralista diante da genialidade de sua obra? Vinicius de Moraes e Tom Jobim tiveram vida mais longa, mas nunca esconderam o prazer e a inspiração de umas doses de uísque. Os Mutantes Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias (todos sobreviventes) fizeram canções e discos revolucionários, modernos até hoje, sob efeitos de vários aditivos, sem que se faça apologia disso.

Tim Maia, Raul Seixas, Cássia Eller, Cazuza – todos tiveram seus vícios escancarados e morreram cedo. Exceto pela parte mais hipócrita da mídia, o que se lembra deles é sua arte insuperável. Passada mais de uma década nada surgiu comparável a Tim Maia. Elis Regina? Só imitações. Talvez seja preciso várias gerações para que apareçam outra Cássia ou outra Amy – talentos explosivos e sem artifícios – ou nunca mais.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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