A bela arte do casting na Broadway

por Patrick Healy
tradução Mariana Paes

Um dos primeiros passos para a criação de uma produção na Broadway – e um dos mais críticos – é o processo de casting.  Diretores e produtores contratam os atores, mas geralmente o direitor de casting os encontra primeiro para um teste, considerando vários perfis:  celebridades de Hollywood, os veteranos de teatro, artistas que poderiam atuar melhor do que cantar (ou cantar melhor do que atuar), que podem se tornar estrelas.

Após a temporada 2010-11 da Broadway ter sido aclamada por performances fortes, cinco diretores de elenco conversaram com Patrick Healey, repórter de teatro do The New York Times, para falar sobre seu trabalho e alguns hits (e problemas) do ano. Os diretores foram Jim Carnahan, que faz o casting dos shows da Roundabout Theater Company (“Anything Goes,” “Mrs. Warren’s Profession”); Nancy Piccione, do Manhattan Theater Club  (“Time Stands Still”),  Tara Rubin, de “How to Succeed in Business Without Really Trying”; Daniel Swee do Lincoln Center Theater (“War Horse”); e Bernard Telsey da poderosa empresa Telsey & Company (“The Normal Heart,” “Catch Me If You Can”).

A conversa ocorreu antes do Tony Awards, quando algumas das escolhas dos diretores de elenco tornam-se vencedores. Eis os trechos da conversa.

NYT. Como o casting ajuda na montagem dos shows da Broadway?

TARA RUBIN Ter comprometido em fazer “How to Succeed” significou que os produtores provavelmente não teriam muitos problemas para captar recursos para o show, e conseguiriam um bom teatro para o show. Então, dois dos maiores obstáculos da produção do musical se resolveram naquele momento.

JIM CARNAHAN Uma coisa que fazemos muito na Roundabout é: começar selecionando uma estrela renomada, que argumenta com você sobre quem prefere ter como diretor. Isso é uma prática comum na seleção de atores famosos. Outro exemplo ocorreu no caso de “On a Clear Day You Can See Forever”, que foi planejado como um show Off Broadway musical, até o momento em que selecionamos Harry Connick Jr, e então tornou-se um musical da Broadway. Nós fomos trabalhando com atores de teatro, até que uma grande estrela aceitou entrar na produção.

BERNARD TELSEY Atualmente, os donos de teatro querem um ator renomado nas produções, porque isso já os faz pressupor que será rentável. Nós temos de lembrar que isso talvez não seja a melhor coisa pra produção, ou pode também não ser o interesse do produtor ou do diretor.

CARNAHAN Se você estiver montando “Hamlet”, você vai querer saber quem será s eu Hamlet. Se você pensar isso comercialmente, terá de ser uma estrela. A única ocasião em que realmente fazemos uma longa seleção, é no caso de novos musicais. “Spring Awakening” e “American Idiot” foram shows nos quais pudemos buscar novidades, sermos realmente criativos. Quando estamos lançando remontagens de musicais, realmente o ator renomado conduz.

RUBIN: Em “How to Succeed”, Daniel definiu o tom da peça. Nós sabíamos que teria de ser um pouco como “Babes in Arms”, sabíamos que teria muita gente jovem em volta dele, uma energia jovem. Com John Larroquette, nós queríamos alguém mais sofisticado. Alguém que pudesse ser realmente muito engraçado. E alto.

DANIEL SWEE: Mas estrelas são apenas uma parte do nosso trabalho. Acredito muito que um bom casting tem em vista todos os outros papéis e faz uma boa seleção para essas personagens.

Q. Vocês já começaram o trabalho com o pensamento “Precisamos de estrelas ou uma amistura de estrelas e atores de teatro”, visto que vários dos espetáculos da Broadway rendem altos lucros graças aos atores famosos?

NANCY PICCIONE É muito interessante olhar para a Broadway atualmente. “Book of Mormon” não tem qualquer estrela, e é um grande sucesso.

TELSEY Todos os interessados em estrelas são produtores tentando arrecadar dinheiro, porque é mais fácil captar quando temos um astro. Um musical como “Mormon” mostra que podemos ter um bom musical, bom elenco, bom material, e a soma disso trará sucesso. Mas ainda há temor, a montagem de espetáculos é algo bastante caro. Os produtores ainda querem estrelas para que tudo continue funcionando para a próxima temporada.

CARNAHAN: “War Horse” e “Book of Mormon” são dois dos maiores sucessos da temporada. Eles não tem estrelas, tem bom elenco.

Q. Vamos falar sobre o processo de audições. Os atores gostam de passar pelas seleções?

TELSEY Não. Ou melhor, poucos gostam, mas eles não gostam de audicionar após terem sido indicados à quatro Tony Awards e terem tido a chancê de vê-los no teatro. É nosso trabalho informar aos produtores sobre o trabalho dos candidatos.

PICCIONE A expressão “apenas ofertas” é o que se diz sobre alguns atores – os que não audicionam – e temos que filtrar isso.

CARNAHAN Muito do nosso trabalho é filtrar. Fazer com que diretores e produtores vejam talentos não explorados de atores – talentos que sabemos que eles tem. Você se lembra de ouvirmos que Donna Murply não tinha graça? Sem graça! E nós éramos como…

ALL Sim, ela é engraçada.

CARNAHAN Ninguém viu Donna em “Song of Singapore”, apenas nós. Todos a viram em “Passion” and “King and I.” Mas ela foi muito engraçada em “Song of Singapore.”

SWEE Muitos de nós tem conhecimentos que poderiam nos servir bem nas Nações Unidas. Às vezes você tem de construir um concenso em torno das escolhas de elenco. Podemos ter um diretor e produtor que não se comunique tão bem, ou diretor e escritor.

Q. Qual o segredo para uma boa seleção?

TELSEY Quando alguém chega e te surpreende, e o conduz a uma emoção que o texto pede, mas que você não tinha imaginado que pudesse aflorar. O que isso envolve: preparação completa, boas escolhas para a performance. E isso faz você querer que o candidato fique mais tempo com você na sala.

SWEE A chave para a preparação é aproveitar o tempo para aprimorar o texto, levando em consideração sua percepção sobre a personagem. Nas audições para “War Horse”, Seth Numrich de uma aula sobre brilhantismo em testes. Ele estava completamente a vontade com o texto, e já ti nha desenvolvido um ótimo sotaque britânico. Numrich estava completamente presente, estando preparado para ouvir cuidadosamente os outros atores e seguir instruções. É fácil perceber quando um ator não está prestando atenção.

CARNAHAN Uma das maiores armadilhas nas quais atores podem cair é a de tentar ser o que acreditam que nós esperamos que sejam, e não o que de fato estamos buscando. É como um encontro às escuras, é melhor ser você mesmo. Do outro lado, os diretores levam mais tempo para de fato conhecerem os atores. Com diretores britânicos, estou sempre negociando para que tenhamos três atores por hora. Eles não conhecem nenhum ator daqui. E os britânicos consideram isso – uma hora para três atores – muito tempo.

Q. Quais são as decisões de elenco que acabaram sendo um surpreendente sucesso esse ano?

TELSEY Eu diria Frank Wood em“Angels in America”. Nós todos o vimos em milhares de peças. É um exemplo no qual, no momento da seleção, não pensamos imediatamente que ele poderia ser o ideal para o papel. Mas sua interpretação de Roy Cohn foi totalmente linda. Ele fez sozinho.

CARNAHAN Penso em Sutton Foster no papel de Reno em “Anything Goes.” Ela chegou em “Thoroughly Modern Millie” e agora é merecidamente uma estrela.

Q. Mas nada é predeterminado. Eu soube que, originalmente, Roundabout tinha pensado em Sherie Rene Scott para interpretar Reno Sweeney.

CARNAHAN Sim. Bom, às vezes as coisas se encaminham de maneira engraçada. Por exemplo, Lincoln Center ofereceu a Sherie “Women on the Verge”. Mas você sabe, nós não selecionamos Sutton como primeira opção em “Millie”. As coisas funcionam no trabalho a longo prazo.

TELSEY Penso que é ótimo quando alguém como Ellen Barkin trabalha em “The Normal Heart”. Glenn Close interpretou o mesmo papel em sua leitura no ano passado. Nós todos colocamos Ellen nas listas milhões de vezes, mas ela nunca estava interessada em fazer teatro. Então foi uma boa idéia para ela fazer esse papel coadjuvante. Isso é recompensador.

Q. E sobre as decisões que não deram certo? [Silêncio] OK, eu vou perguntar. Brendan Fraser em “Elling”, que saiu de cartaz rapidamente – é um tipo de contra-casting que falhou?

CARNAHAN Brendan foi um caso no qual os produtores o queriam para a montagem em Londres.  O timing não ajudou. Nós o vimos em “Cat on a Hot Tin Roof” em Londres, ele tinha estado no palco antes, tinha sido maravilhoso. Mas essa outra tentativa não deu certo. Mas quando Carla Gugino entrou para “After the Fall”, ficamos chocados — ela era uma atriz de palco, mesmo tendo feito pouco teatro.

Q. Quanto a Patrick Stewart e T. R. Knight, duas estrelas da televisão que estiveram em “A Life in the Theater”, que foi um fracasso. Foi um erro selecioná-los?

TELSEY Eles pareciam as pessoas certas para aqueles personagens. Os produtores já tinham escolhido Patrick Stewart. Então faltava escolher garoto. Nós conhecíamos T.R., ele não fazia nada além de peças de teatro antes de tornar-se o cara de “Grey’s Anatomy”. Fiquei surpreso por não ter repercutido bem, mas talvez tenha sido um caso em que, mesmo tendo seus nomes reconhecidos, eles podem ter feito uma peça que seu público não tinha vontade de ver.

Q. Alguns críticos disseram que Daniel Radcliffe estava fora de sua zona de conforto, e o juri do Tony Awards o ignoraram. Será que isso faz com que as estrelas se tornem mais relutantes a aceitar oportunidades no teatro?

RUBIN Ele trouxe uma grande dose de respeito por o que é preciso para ser um ator no palco. Ele fez aulas de canto e dança. Acredito que ele tenha honrado as tradições da Broadway, ele é maravilhoso. Se um artista, estrela ou não, decide que vai para um grande musical da Broadway por um ano e se compromete a viver uma vida de monge para proteger a voz, é porque não está fazendo o trabalho só pra ser indicado ao Tony.

Q. Uma crítica de “Mrs. Warren’s Profession” afirmou que Sally Hawkins foi miscast (uma má escolha). Isso faz sentido para vocês?

CARNAHAN Em nosso escritório, chamamos isso de “M word” (palavra com m), a palavra que tememos nas críticas. Às vezes pessoas são mal escolhidas (miscast), em outro casos elas apenas não conseguem trabalhar plenamente o personagem. O papel de Sally primeiramente seria de Alison Pill. Sally melhorou depois da publicação das críticas. Isso acontece. Escolhemos Sally por ela ser uma grande atris, não por ser uma estrela. Não foi como se tivéssemos selecionados aquela menina que estrelou um reality show esse ano novamente.

PICCIONE Paris Hilton?

CARNAHAN Paris Hilton.

Fonte: The New York Times

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