Maratona musical

por João Luiz Sampaio

Com o violinista e maestro Pinchas Zukerman à frente da Osesp, será aberto no sábado o Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Mais tradicional evento pedagógico da América Latina, ele será realizado até o dia 23 e vai ter apresentações em diversas cidades do interior – principal novidade de uma edição mais enxuta.

Com relação ao ano passado, o festival diminuiu – ao menos nos números. O orçamento total é de R$ 5,5 milhões, R$ 1 milhão a menos. Serão 55 concertos, ante 83 em 2010, realizados ao longo de 20 dias (no ano passado foram 29). Para o diretor artístico e pedagógico Paulo Zuben, no entanto, não há evidências de retrocesso – ou estagnação.
“As propostas artísticas continuam a se desenvolver”, diz. “A introdução da música barroca e da produção contemporânea, por exemplo, se mantém, com mais concertos e master classes e a presença de grupos importantes, como o Quarteto Arditti, que não apenas se apresentará como dará aulas e vai interpretar obras de alunos de composição do festival. A ópera também está de volta, com A Flauta Mágica, de Mozart. Pela primeira vez teremos uma orquestra internacional, a Sinfônica do Porto, ao lado dos nossos principais conjuntos, com a Filarmônica de Minas Gerais e a Petrobrás Sinfônica”, afirma.
A programação de Campos se equilibra entre a função pedagógica e a apresentação de grandes estrelas do cenário musical. Para Zuben, esses elementos precisam dialogar. “O festival permite trazer ao Brasil músicos importantes e é fundamental que eles atuem como professores, orientando os alunos. Na última semana, por exemplo, o maestro Frank Shipway esteve por aqui preparando um programa com a Sinfônica Jovem do Estado. É uma oportunidade única.”
Zuben ressalta ainda dois eixos fundamentais na programação. O primeiro é a atividade da orquestra de alunos do festival. “Acredito que encontramos o modelo ideal, com a participação do maestro Claudio Cruz, que vai trabalhar com os jovens desde o início do festival, além de acompanhá-los durante a turnê pelo interior. Essa convivência é mais longa, não se resume a um ou dois concertos.”
O segundo é o desenvolvimento da prática de música de câmara. “Há uma tendência a colocar todos os esforços na música sinfônica, estimulando os jovens a tocar em orquestras. O único mal nisso é acabar deixando de lado um repertório de câmara incrível, que é uma opção muito boa não apenas em termos de formação mas também de caminho profissional. Dessa forma, alunos e professores terão a oportunidade de montar programas e tocá-los. E, mais do que isso, vários conjuntos camerísticos, como os Zukerman Chamber Players, passarão ao menos uma semana em Campos, oferecendo uma vivência mais completa desse tipo de prática.”

Sonoridade calorosa em programa com a orquestra de Roterdã
Crítica: João Marcos Coelho
ÓTIMO

As aveludadas cordas da Filarmônica de Roterdã transformaram num acontecimento musicalmente mais atraente o concerto da fria terça-feira na Sala São Paulo. Mesmo nos “tutti” da Quarta de Tchaikovski ou do Ensaio n.º 2 de Samuel Barber, sua sonoridade escura e adocicada sobressaía. Nas passagens mais líricas, tanto numa quanto noutra obra, essa característica tão marcante parecia envolver calorosamente a sala inteira.

Mas havia mais atrativos naquela noite. O regente norte-americano Leonard Slatkin, de 66 anos, regeu de cor. Pode ter adotado o costume depois do vexame público de março de 2010 nos ensaios de uma montagem da Traviata na Metropolitan Opera House de Nova York, quando cantores do calibre de Thomas Hampson e Angela Gheorghiu e os músicos perceberam que o maestro nem sequer conhecia a partitura. Slatkin justificou-se em seu blog: “Não faço ópera com frequência e jamais regi uma Traviata, mas como todos lá a conhecem bem, achei que poderia aprendê-la com os mestres. Nos ensaios, parecia que eu era o único que jamais participara de uma montagem dessa ópera. Percebi cenhos franzidos, sobrancelhas levantadas”. Anthony Tommasini, crítico do New York Times, foi um dos que bateram forte no maestro: “Não parece a melhor ideia um maestro aproveitar a oportunidade de reger no Met para ‘aprender’ a Traviata”.

O episódio arranhou-lhe a reputação. Até certo ponto injustamente. Afinal, Slatkin é ótimo regente quando rege o que conhece. Aliás, episódios semelhantes com maestros brasileiros também costumam ocorrer por aqui com certa frequência; o cidadão sobe ao pódio para ensaiar uma obra que simplesmente não conhece. Mas Slatkin comprovou suas qualidades no Essay n.º 2 de Samuel Barber, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 2010. Barber é o típico compositor que pratica o que Liszt, radical em tudo que fez, chamou certa ocasião de “inovação permissível”, ou seja, jamais corre risco de desagradar a alguém. As más línguas dizem que ele foi o único compositor no século 20 a sobreviver de seus ganhos exclusivamente como compositor.

Com Haydn, no século 18, isso só aconteceu no final da vida, quando o florescente e pioneiro mercado inglês de concertos o transformou numa superstar. Faturando bem pela primeira vez na vida em sua segunda turnê londrina, ele fazia de tudo para mimar e surpreender o público inglês – com uma diferença: ele era gênio acabado. Incrementou, por exemplo, com tambor, trompete e flautim a Sinfonia n.º 100, apelidada “Militar”, só para levar o público ao delírio. Mas a obra não se reduz aos seus efeitos, como bem demonstrou a regência discreta de Slatkin. É inovadora no formato de seus temas, no desenvolvimento inesperado, na assimetria de construção.

E Tchaikovski? Bem, o compositor russo é um matador, sempre vai direto ao ponto. Explora como ninguém todos os recursos da orquestra. Já houve quem dissesse que depois dele era preciso mudar o teodolito da criação orquestral – pois ele levara aquela linguagem ao limite. Como não se encantar com o delicioso pizzicato ostinato do scherzo? Ou com o tema do destino que a todo momento nos lembra, com uma pitada trágica, do drama pessoal do compositor? Roterdã tem madeiras excelentes, assim como metais muito bons. As aveludadas cordas completaram uma vibrante leitura da Sinfonia n.º 4.

O Festival de Inverno de Campos do Jordão começa neste final de semana. De 1º a 24 de julho, dezenas de atrações de música erudita poderão ser vistas na cidade. Veja a programação completa:

PROGRAMAÇÃO DO FESTIVAL DE INVERNO 2011

Auditório Claudio Santoro

02/07 – 21h
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Regência e piano: Pinchaz Zukerman

03/07 – 11h
Orquestra Jovem do Estado
Regência: Frank Shipway

03/07 – 18h
Orquestra Exp. de Repertório
Regência: Jamil Maluf
Piano e gaita: Corky Siegel

04/07- 21h
Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto
Regência: Cláudio Cruz

05/07 – 21h
Pro Art Quartet e Convidados
Tuba: Roland Szentpali
Trompa: Bostjan Lipovsek
Trompete: Läszló Tóth
Trombone: Gyorgy Gyivicsan
Piano: Aron Rohmhányi
Trompete: Lászlo Borsodi

06/07 – 21h
Imani Winds
Flauta: Valerie Coleman
Oboé: Toyin Spellman-Diaz
Clarinete: Mariam Adam
Trompa: Jeff Scott
Fagote: Monica Ellis

07/07 – 21h
Professores do Festival

08/07 – 21h
Mozart Piano Quartet
Viola: Harmuth Rohde
Violino: Mark Gothoni
Piano: Paul Rivinius
Violoncelo: Peter Hörr

09/07 – 21h
Zukerman Chamber Players
Violino: Pinchas Zukerman
Violino: Jéssica Linnebach
Violino: Jethro Marks
Viola: Amanda Forsyth
Piano: Angela Cheng

10/07 – 18h
Orquestra Sinfônica Municipal
Coral Paulistano
Regência: Abel Rocha
Piano: Cristina Ortiz
Soprano: Adélia Issa
Contralto: Sílvia Tessuto
Tenor: José Antonio Palomares
Baixo: Carlos Eduardo Marcos

11/07 – 21h
Professores do Festival

12/07 – 21h
MMA’ALOT
Flauta: Stephanie Winker
Clarinete Ulf-Guido Schâfer
Oboé: Christian Wetzel
Trompa: Volker Grewel
Fagote: Volker Tessmann

13/07 – 21h
Het Collectief
Regência: Robert de Leeuw
Mezzo-soprano: Jacqueline Janssen

14/07 – 21h
Quarteto Arditti
Violino: Irvine Arditti
Violino:Ahot Sarkissjan
Viola: Ralf Ehlers
Violoncelo: Lucas Fels

15/07 – 21h
Orquestra Petrobrás Sinfônica
Regência: Isaac Karabtchevsky
Violoncelo: Antonio Meneses

16/07 – 11h
Orquestra Filarmônica de MG
Regência: Fabio Mechetti
Soprano: Adriane Queiroz

17/07 – 18h
Orquestra do Festival
Regência: Cláudio Cruz
Piano: José Feghali

22/07 – 21h
The University of Florida Chambers Players
Regente: David Waybright
Voz e violão: Welson Tremura

23/07 – 21h
Orquestra Sinfônica do Porto Casa da Música
Regência: Christoph Kônig

Praça do Capivari

 

02/07 – 12h 30
Coral da Fundação Bradesco

03/07 – 12h 30
Orquestra de Metais Lyra Tatuí
Regência: Adalto Soares

03/07 – 16h 30
Orquestra Jovem Tom Jobim – 10 Anos
Regência: Roberto Sion
Convidados: Paulo Jobim e Daniel Jobim

09/07 12h 30
Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo
Regência: João Maurício Galindo

09/07 – 16h 30
Orquestra Sinfônica de Santo André
Regência: Carlos Moreno

10/07 – 12h 30
Banda Sinfônica Jovem do Estado
Regência: Mônica Giardini

10/07 -16h 30
Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí
Regência: João Maurício Galindo

16/07 – 12h 30
Camerata Antiqua de Curitiba
Regente: Wagner Polistchuk
Soprano: Darci Almeida
Barítono: Marcelo Dias

16/07 – 16h30
Orquestra do Festival
Regência: Cláudio Cruz
Piano: José Feghali

17/07 – 12h 30
Ópera Estúdio EMESP
Direção:Mauro Wrona
Regência: Emiliano Patarra

17/07 – 16h
Banda Sinfônica do Estado de São Paulo
Regência: Marcos Sadao
Narração: Kid Vinil
Banda convidada: DR. SIN
Igreja de São Benedito

05/07 – 15h 30
Solistas de Paulínia
Piano: Claire Desért
Violino: Carmelo de los Santos
Viola: Horácio Schaefer
Violoncelo: Roberto Ring

07/07 – 15h 30
Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo

12/07- 15h 30
Música de câmara
Bolsistas do Festival

14/07 – 15h 30
Música de câmara
Bolsistas do Festival
Palácio Alto da Boa Vista

09/07 – 17h
Pablo Rossi – piano

16/07 – 17h
Álvaro Siviero e Convidados
Piano: Álvaro Siviero
Violino: Pablo de Leon
Violino: Ruda Alves
Viola: Alexandre de Leon
Violoncelo: Mauro Brucoli

Igreja N.Srª. da Saúde
04/07 – 15h 30
Camerata Fukuda
Regência: Ugo Kageyama

08/07 – 15h 30
Música de câmara
Bolsistas do Festival

11/07 – 15h 30
0Música de câmara
Bolsistas do Festival

15/07 – 15h 30
Música de câmara
Bolsistas do Festival

Igreja Santa Therezinha

 

03/07 – 15h 30
Núcleo de Música Antiga – EMESP
Regência: Luis Otávio Santos

06/07 – 15h 30
Quarteto Bosisio

10/07 – 15h 30
Coral Guri Santa Marcelina
Regência: Vitor Gabriel
Piano: Gustavo Fiel
Piano: Thiago Neves

Coral Jovem do Estado
Regência: Naomi Munakata
Piano: Israel Mascarenhas

13/07 – 15h 30
Música de câmara
Bolsistas do Festival

17/07 – 15h 30
Compositores do Festival
(Obras de bolsistas de composição do Festival)
Direção: Silvio Ferraz
Regência: Eduardo Leandro
Grupo de Câmara do Festival

Informações: www.festivalcamposdojordao.org.br

Fonte: O Estado de S. Paulo

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