Antunes Filho prepara “Hamlet” e quer que teatro volte a ser teatro

por Nelson de Sá

Era “extra”, fazia um soldado, entrava com uma lança seguindo a marcação dada de última hora na coxia, durante a temporada paulista do “Hamlet” de Sérgio Cardoso (1925-1972), que marcou o início do teatro moderno no Brasil.

“Eu era garoto, entrava com barba: ‘Agora você entra’. Tinha Sérgio Britto, Cacilda Becker… Maria Fernanda fazia Ofélia”, diz.

“O Sérgio Cardoso era impressionante. A turma fala isso e coisa, mas era um grande ator, apesar de estereotipado. Sei como ele faz. Era muito característico: a voz, o jeito dele. Até imito para os atores”, ri.

Mas não era uma interpretação empolada, como dizem? “Que empolada, que nada! Era ótimo. O que é belo é belo. A gente começa a ver tudo com ares críticos. Teatro, quando é bom, eu vou em frente, viajando.”

Foi em 1948, quando o Teatro do Estudante do Brasil, de Paschoal Carlos Magno, se apresentou no Theatro Municipal. Era a encenação “daquele polonês”, Hoffman Harnish, como Antunes recorda vagamente, referindo-se ao diretor alemão questionado na época por sua montagem exageradamente romântica, arrebatada.

Passadas mais de seis décadas e depois de montar outras cinco peças de Shakespeare –“Macbeth”, “Romeu e Julieta”, “A Megera Domada”, “Ricardo 3º” e “Júlio César”–, o diretor Antunes Filho, 81, volta a “Hamlet”.

“Ele é o refúgio hoje, um dos únicos que a humanidade tem para encontrar algo que ainda valha a pena, para encontrar a condição humana de novo”, diz. “As fantasias do ser humano, as necessidades, as frustrações…”

AZÁFAMA

Antunes está inquieto com o teatro e o mundo de hoje.

“Eu vejo as pessoas que vão [ao teatro], elas aplaudem tudo, mas estão insatisfeitas, não só com o teatro, mas com a vida, com a azáfama que estamos vivendo. É um tropel, estamos sendo atropelados. Hoje a transição, a mudança, é fundamental. Você não é mais um ser, mas estando ser.”

Ele questiona a pós-modernidade, o “modernismo líquido”, como descreve. “A tecnologia está muito bárbara. A informação é uma coisa bárbara hoje em dia. Você fica sempre com a última coisa que passa naquele dia, com a última notícia. ‘Como?’ ‘O quê?’. Você não consegue mais acompanhar o mundo.”

Daí “Hamlet”. “Quando você pega Shakespeare, assenta, se reencontra. ‘Oba, eu posso olhar uma árvore, ou este entardecer.’ Isso tem a ver com Shakespeare.”

Sobre o palco, propriamente, vê uma “crise incrível, com o drama malfeito”, referência ao teatro baseado na palavra, “e o pós-dramático mais malfeito ainda”, referência ao teatro como performance, sem privilégio ao texto. Diante da crise, “Hamlet” foi sua “ilha”.

“Quero fazer o ‘Hamlet’. Mas para quê, se estou criticando tanto a falta de técnica do ator? Ah, eu preciso de uma técnica especial para o ‘Hamlet’. Não um naturalismo, um realismo idiota, mas a dimensão. Tem que me transportar, tirar do solo. Quero chegar a uma dimensão que me transporte.”

Em suma, “fazer ‘Hamlet’ tem um pouco da utopia de acreditar que o teatro pode voltar a ser teatro”, independentemente do embate dramático/pós-dramático.

RIDE, PALHAÇO

O diretor dá apenas duas pistas sobre seu espetáculo, sem previsão de chegar aos palcos, mas já na sala de ensaios do Centro de Pesquisa Teatral do Sesc.

A primeira é o humor metalinguístico de Shakespeare e do próprio personagem, que Antunes vê como “engraçado”: “É o ride, palhaço. Ride, palhaço, é por aí que eu vou… É o Hamlet fazendo um ator que faz o Hamlet”.

A segunda indicação também é obscura: “O meu ‘Hamlet’ é satânico, como o Shakespeare é satânico. Só quem tem o pé no inferno consegue fazer aquilo. Um no céu, o outro no inferno. Se eu conseguir pegar essa coisa satânica e colocar no palco, estou satisfeito.”

“Muitas vezes, eu não entendia bem o Shakespeare. Ele é maravilhosamente satânico. Às vezes, fala coisa demais, mas não é, está certo, eu é que estava errado. É incrível.”

Assista a trechos da entrevista:

Fonte: Folha de S. Paulo

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