Nos bastidores do novo Teatro Municipal

por Adriana Del Ré

A 20 metros do chão, andando por estruturas suspensas nas coxias do Teatro Municipal de São Paulo, no Centro, o chefe de palco e cenotécnico paulistano Anibal Marques, o Pelé, 52 anos, parou por alguns instantes e apreciou o que via. Acostumado a trabalhar nas alturas, parecia reconfortado, como se sua casa finalmente estivesse sendo colocada em ordem, após três anos de reformas e restaurações. Esse momento só não foi de total silêncio porque operários próximos dali não davam descanso, correndo contra o tempo para a reabertura do teatro, amanhã e sábado – para convidados – e domingo – para o público (bilheteria: 3397-0327), com apresentações da Orquestra Sinfônica Municipal, Coral Lírico, Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e solistas, sob a regência do maestro Abel Rocha.

Pelé é uma das mais de 100 pessoas que trabalharam na reforma do Teatro Municipal, que reabre suas portas no ano em que completa seu centenário. Esse exército de operários, arquitetos, eletricistas, maquinistas, engenheiros, decoradores e tantos outros profissionais é o responsável pela nova e moderna cara do Municipal, que une a tradição do passado à tecnologia do presente (leia reportagem nas páginas 4 e 5). Filho de um maquinista do teatro, Pelé começou a acompanhar o pai quando tinha 5 anos. Aos poucos, deu-se conta de que a lida de maquinista – montar e movimentar cenários – era fundamental para um espetáculo. De acompanhante do pai, ele passou a pisar no teatro como maquinista a partir de 1978. Aprendeu a gostar de ópera. Sua preferida é Falstaff, de Giuseppe Verdi (1813-1901).

O Municipal também já lhe proporcionou visões sobrenaturais. “Estava montando um espetáculo numa madrugada, quando vi um vulto alto, com um chapéu, na plateia. Desci, mas não havia ninguém”. E testemunhou mudanças. Pelé já era funcionário quando o teatro passou por sua segunda reforma, entre 1985 e 1988. “Foram obras de remanejamento. Agora é outra coisa. Vai ser tudo novo”, diz, referindo-se à área em que atua há 33 anos: o palco e seus bastidores.

Com bem menos intimidade com o Municipal do que Pelé – mas com a mesma dedicação –, outra figura que se empenhou nas obras de reforma do teatro é o pernambucano João Ventura da Silva, 58. Integrante da equipe da Telem, empresa responsável por toda a renovação do palco do Municipal, ele está há dois meses incumbido da manutenção geral do espaço. Isso inclui parte mecânica, iluminação e montagem. Seu João não é estreante no assunto. Ele acumula passagens por outros teatros, como o de Paulínia e o Municipal do Rio do Janeiro. “Nunca havia entrado aqui. Tinha curiosidade de conhecer”, diz.

Concerto especial. Existe um ato recorrente e quase automático para quem anda por essas dependências: o de mirar para o alto em busca das belezas do teatro. E João não escapou. “É uma coisa linda. Amanhã, meus filhos vão chegar e dizer: ‘Meu pai trabalhou aqui’”, fala, orgulhoso. Seu João sempre quis assistir a um espetáculo no Municipal, mas nunca teve oportunidade, numa rotina marcada por muito trabalho pelos teatros de São Paulo, onde vive desde os 19 anos, e por outras cidades. Isso deve mudar hoje, quando haverá um concerto especial só para funcionários do lugar, operários das obras, artistas e seus familiares.

João da Silva é um dos soldados anônimos do batalhão de mais de 100 operários envolvidos na reforma. Só da Telem, que entrou no projeto há dez meses (após duas malsucedidas licitações), foram destacadas 50 pessoas para trabalhar diretamente nas obras do palco. “Temos de respeitar o patrimônio. Fazer uma reforma é sempre mais difícil do que se tivéssemos de construir um prédio novo”, observou o engenheiro Fernando Fontes, um dos diretores da empresa. No caso, um prédio tombado e, além de tudo, ocupado por funcionários, que continuaram instalados em suas respectivas salas mesmo durante a reforma. “É preciso ficar se ajustando. Se tem de trocar o transformador, tem de cortar a luz das pessoas que estão trabalhando. Tudo isso é muito bem programado”.

Na reta final para a reinauguração – e com alguns ajustes pendentes –, foi necessário manter a equipe em esquema de força-tarefa. Enquanto as arquitetas Rafaela Bernardes, do Departamento do Patrimônio Histórico, e Lilian Jaha, do Teatro Municipal, mostravam o novo espaço à imprensa, operários foram alertados para terem o máximo de cuidado. “Agora que está tudo pronto, tem de ter atenção dobrada para a gente não precisar refazer nada”, comentou Rafaela.

Fonte: Jornal da Tarde

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