Artista e empresário, muito prazer!

por Karine Ruy

Artista, empreendedor, empresário. A tríplice de atribuições até pouco tempo inimaginável no cotidiano dos realizadores culturais ganhou destaque na abertura do  seminário “A Sociedade em Rede e o Teatro”, realizado na última sexta-feira no Santander Cultural, em Porto Alegre. No lançamento do projeto Vivo Encena na Capital gaúcha, representantes do teatro e de outros setores artísticos refletiram sobre uma questão essencial para o cenário da produção cultural no Brasil: afinal, negócios culturais sustentáveis são possíveis?

A pergunta lançada na palestra de Leonardo Brant é daquelas que provocam o exercício da reflexão e da desconstrução.  A complexidade do tema, historicamente problemático no Brasil, certamente não permitiria a elaboração de respostas simplistas, ao estilo manjado dos manuais que pipocam nas prateleiras das livrarias. Mas também não se trata de uma equação impossível de ser resolvida. Na avaliação do pesquisador, a classe artística precisa se despir de alguns preconceitos e se dispor a encarar a produção cultural também como um negócio.

É essa perspectiva que permite, por exemplo, a implementação de planejamento estratégico, essencial para o sucesso de qualquer projeto que envolva investimento financeiro e relacionamento com o público consumidor. Com adaptações, claro. Um grupo teatral não precisa copiar os modelos administrativos clássicos, entretanto pode encontrar em conceitos e processos gerenciais já testados inspiração válida para atender as especificidades do seu negócio.

O estudo e o debate da economia da cultura são recentes no Brasil, e é provável que resulte dessa áurea de novidade a inquietação – e as dúvidas – dos realizadores diante do assunto. Ao mesmo tempo, as cifras movimentadas pelo setor mostram que é preciso se aventurar em outras esferas do conhecimento e alimentar o empreendedorismo para se inserir qualitativamente no circuito de produção e circulação de bens culturais.  “O mercado cultural é o que mais cresce no mundo hoje”, destacou Brant, chamando a atenção para as possibilidades abertas aos profissionais da cultura.

Nesse cenário, a dica do pesquisador é tirar o melhor proveito possível da sociedade em rede. O termo que intitula o livro lançado nos anos 1990 pelo espanhol Manuel Castells vem sendo amplamente utilizado para definir o novo modelo de relação social. A difusão de diversas ferramentas de comunicação móveis aliada ao surgimento de redes sociais virtuais permite que o indivíduo construa relações não mais limitadas ao seu contexto geográfico.

As redes virtuais parecem ilimitadas e variam de acordo com o interesse de cada um. Ao mesmo tempo, o indivíduo tem a chance de experimentar o papel de mídia. “Hoje os códigos culturais estão mais democráticos e ao alcance de mais pessoas”, explica Leonardo Brant. Nas redes, seja Facebook, Youtube ou Twitter, todos podem falar, criar e, às vezes por sorte, outras por talento, serem vistos.

Aos que olham com alguma desconfiança para o circuito virtual, Brant lembra que uma  rede não se faz apenas com ferramentas tecnológicas. Colegas de profissão e pessoas com interesses semelhantes podem se tornar colaboradores, dividir projetos e tornar uma produção cultural mais sustentável.  E, caro produtor,  não se preocupe com um grande número de peças estreando na sua cidade e muito menos inveje a popularidade de outros grupos. É quem está na fila para ver a peça do colega que logo irá comprar ingresso para conhecer o seu trabalho.

Fonte: Cultura e Mercado

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