Histórias de Famas – Em obras inéditas no Brasil, Melville e Tolstói trazem definições anedóticas e teóricas do verdadeiro artista Publicado em 04 de abril de 2011

por Julián Fuks, jornalista e escritor

Há sempre uma distância intransposta entre a obra de arte e sua cópia, um cisma entre o autêntico artista e seu símile, aquele que tenta a ele se igualar. Abismo tantas vezes feito de um mero lapso, um detalhe originário – pinceladas sem a vibração necessária, milimétrico tempo entre as notas, palavras em desarranjo incalculado. Por que, então, a simulação, o logro, o apelo ao falso? É um mundo de ambições comuns este em que vivemos, um mundo de competições infaustas. Artista e símile compartilham as mesmas paredes nas galerias, igualam-se nas prateleiras das livrarias, ombreiam-se em salões e auditórios.

É um desses encontros, paradoxo temporal em que o impossível pretendente a artista depara com a figura que quer tornar-se, que Herman Melville narra em O Violinista e Outras Histórias, recém-lançado no Brasil.

O violinista alçado ao título, um homem de meiaidade modestamente simpático, parecendo “satisfeito, feliz e corpulento demais” para que pudesse ter sido brindado com um grande talento, revela-se no entanto síntese de toda a virtude artística. “Homem derrotado”, pois sua fama já pertence ao passado, não se deixa abater pelo infortúnio. Ao contrário, carrega “uma certa expressão serena de profundo e tranquilo bom senso”, assume “uma aura divina e imortal, como a de algum deus grego eternamente jovem”.

A ele contrapõe-se Helmstone, o narrador, garboso poeta que a crítica insiste em depreciar, expoente da pretensão deslocada, da ambição infrutífera e desmedida – vítima do mundo de ostentação que Melville deslinda em outros contos da mesma obra. Inconformado com sua própria mortalidade, para ele um destino intolerável, esse homem agoniado se empenha com débil retórica em negar os méritos do outro, em detratá-lo. Mas, desespero maior do falsário diante do autêntico artista, não consegue deixar de sentir-se também ele cativado.

O artista na vida real
Não será novidade dizer que Liev Tolstói era artista autêntico, e a perenidade de seus grandes romances, pontos álgidos da narrativa realista no século 19, impediria qualquer pessoa de juízo de pensar o contrário. É com surpreendente eloquência, entretanto, que ele confirma tal fato no contexto em que mais poderia se complicar, nos textos teóricos, nos panfletos políticos, nos sermões religiosos, nas cartas que escreveu ao fim da vida, tudo agora reunido em
Os Últimos Dias.

Não que sua leitura venha a provocar um arrebato encantatório ou que resulte fácil hoje concordar com seus pressupostos: Tolstói não era um visionário, estando rigidamente ancorado no espaço e no tempo que habitava. Chega a ser penoso vê-lo advogar por um imprescindível viés religioso em toda criação literária, ouvi-lo argumentar que “o homem racional não pode viver sem religião porque
somente a religião dá ao homem racional a necessária orientação sobre o que fazer”. Mas a limpidez com que vai dispondo suas ideias sobre a página, a clareza impoluta com que se expressa e a profunda coerência de sua lógica acabam por desvelar outra coisa. Quase não há dogmatismo em Tolstói: o obscurantismo de seu discurso tem a medida exata de sua obscuridade pessoal, é apenas o ponto além do qual sua razão não conseguiu chegar.

Compreendido esse limite, o leitor poderá fruir sem ressalvas do saudável radicalismo do aristocrata russo que abdicou de sua riqueza para “enxergar a vida de verdade, do povo simples e trabalhador, e entender que a verdadeira vida é essa”. Poderá deixar-se tomar pela perplexidade diante de seu vigoroso anarquismo, sua definição dos governos como “organizações de violência em cuja base não há nada além do brutal arbítrio”, dos exércitos como “necessários para os governos apenas para dominar o povo trabalhador”, de sua visão sobre “o ultrajante direito à propriedade da terra”. Ferinas são também suas opiniões sobre a Igreja e sobre suas liturgias tolas, sem sentido – “mistura grosseira” de superstições e enganos. E até mesmo sobre a ciência: “reunião de
conhecimentos ocasionais em nada relacionados uns com os outros, com frequência inteiramente desnecessários”, que “costumam apresentar os mais grosseiros erros, hoje expostos como verdade e amanhã refutados”.

A condição indispensável
“Verdade” é palavra com destaque em seu glossário, e buscá-la pressupõe tratar de abater todas as ilusões, recusar mistificações, livrar-se da hipnose a que todos nos vemos submetidos. À arte não cabe o papel de iludir ou encantar, de agradar imitando a beleza, e sim de comunicar entre um humano e outro “o pavor do sofrimento ou o fascínio do prazer”, expressando na obra esses sentimentos a fim de promover um contágio.

Entre criador e receptor surge um mesmo estado de espírito, elimina-se a divisão entre espectador e artista, libertam-se ambos de seu isolamento e de sua solidão, e “o objeto que provocou esse estado é uma obra de arte”. “Quanto mais forte o contágio”, alega Tolstói, “melhor é a arte como arte”.

Para o artista, então, a condição indispensável seria a sinceridade, a força com que ele experimenta aquilo que decide converter em objeto, a “necessidade interior de expressar o sentimento que transmite”. Bastaria isso, e a clareza que o autor recomenda, e a singularidade que se tornou cláusula impreterível de toda criação na modernidade, para que o artista autêntico sobrepujasse as pretensões vãs e se diferenciasse dos enganadores, possibilitando que sua obra pertencesse à arte, e não às suas falsificações. Se Tolstói silenciou seus detratores e, em detrimento de suas próprias crenças, conseguiu habitar a posteridade, foi por ter-se feito o maior exemplo de sua própria hipótese.

O Violinista e Outras Histórias
Herman Melville

Trad.: Lúcia
Seixas Brito
Arte % Letra
168 págs.
R$ 30

Os Últimos Dias
Liev Tolstói
Org.: Elena Vássina
Trad.: Anastassia Bystsenko, Belkiss, J. Rabello, Denise Regina de Sales, Graziela Schneider e NAtalia Quintero
Companhia das Letras
432 págs.
R$ 29,50

Fonte: Revista Cult

José Mayer solta a voz – No musical “Um Violinista no Telhado”, o ator vai mostrar que canta de verdade

por Rafael Teixeira

img.jpg

Com uma barba de patriarca e roupas simples de um homem pobre, o galã José Mayer poderia surpreender o público que se acostumou a vê-lo em seus papéis televisivos nas novelas do horário nobre, quando sempre interpreta conquistadores, muito bem-vestidos. No espetáculo “Um Violinista no Telhado”, musical assinado pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, que estreia no dia 20, no Rio de Janeiro, a plateia será presenteada com outra novidade: o ator também sabe cantar – e bem, segundo aqueles que já o presenciaram soltando a voz. “Ele é um cantor que estava no armário”, diz Botelho, também autor das versões em português das canções do musical, que reserva a Mayer o papel de protagonista. O ator é Tevye, um leiteiro de maneiras um tanto rústicas, que vive com a mulher e cinco filhas em um vilarejo judeu em plena Rússia czarista, no início do século passado. Enquanto a cidadezinha enfrenta ataques antissemitas, Tevye se vê às voltas com um problema mais prosaico: suas três filhas mais velhas se rebelam contra os casamentos arranjados para elas. Nada que o impeça de entoar belas canções.

Apesar de estar demonstrando ser uma revelação aos 61 anos, Mayer vem se exercitando no canto há algum tempo. A primeira vez que o fez em cena foi em “No Verão de 1996…”, sob a direção de Aderbal Freire-Filho. Na peça “Um Boêmio no Céu”, sobre o compositor Catulo da Paixão Cearense, autor de “Luar do Sertão”, ele voltou a mostrar seus dotes de intérprete. Agora faz a sua estreia “oficial” numa superprodução que reúne 43 atores, 160 figurinos de época e cenografia grandiosa. “Além da magnitude, essa produção se enquadra no filão legitimamente musical que é o de espetáculos da Broadway”, diz o ator. Com pequena experiência no gênero, ele sabe que a maioria do seu público o identifica pelos trabalhos no cinema e, principalmente, na televisão – e isso torna o seu desempenho uma atração a mais. Foi também o que se deu com a mais recente montagem americana de “Um Violinista no Telhado”, por exemplo, que teve como protagonista o ator Alfred Molina, famoso por papéis em blockbusters como “O Homem Aranha”.

Com 43 anos de carreira, José Mayer se sentiu atraído pelos musicais aos poucos: “Como todo brasileiro, quando viajava para Nova York, eu ia à Broadway. Sempre gostei, mas nunca fui um fã especialmente entusiasmado.” Ele confessa que não conhecia “Um Violinista no Telhado” até ser convidado para atuar na peça, no ano passado. O namoro, porém, é mais antigo. Em 2002, alguém soprou para Claudio Botelho que Mayer sabia cantar. Na época, o diretor e seu parceiro Möeller tentavam trazer para o País o musical “Follies”. “Liguei meio na cara de pau e fiz a proposta. Ele apareceu para uma audição informal e começou a cantar. Eu pensei: Esse cara canta demais”, lembra Botelho. A versão brasileira de “Follies”, no entanto, acabou não saindo do papel. Aconteceram outras tentativas de parceria, mas as agendas da dupla e do ator não casavam. Só até agora.

Além da voz preparada por aulas de canto, praticadas duas vezes por semana, Mayer domina com facilidade as notações musicais – ele sabe ler partitura e tocar piano. E tem sido rápido na incorporação dos truques exibidos pelos atores mais tarimbados. “Sempre estamos trocando dicas, exercícios e experiências. O Zé tem uma entrega e uma dedicação sem tamanho”, afirma Ada Chaseliov, que interpreta Yentl, a casamenteira do vilarejo. A poucos dias da estreia, o ator já domina completamente a habilidade de passar do texto falado para o cantado sem perder a fluência. “Outra coisa que ele aprendeu foi a não tirar o ouvido da música, que muitas vezes toca quando o texto é falado. Nessas horas, fala e música andam de mãos dadas”, diz a pianista Zaida Valentim, que acompanha Mayer nos ensaios. “Devo muito do que tenho aprendido a ela”, afirma Mayer, com a humildade de um estreante.

Fonte: IstoÉ

Mostra explora viés tecnológico da arte

por Fabio Cypriano, enviado especial da Folha de S. Paulo a Buenos Aires

O binômio arte e tecnologia tem se constituído, ao menos no Brasil, num segmento composto especialmente por pesquisadores ligados ao mundo acadêmico.
“Perceptum Mutantis”, mostra no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, aponta que essa característica não se restringe ao território nacional.
“Na Argentina também se percebe que grande parte dos artistas ensinam na universidade e possuem forte relação com o mundo acadêmico, pois ele é quem fomenta o experimentalismo”, diz Daniela Bousso, diretora do MIS e curadora da mostra.
Ela selecionou para a exposição os argentinos Leo Nuñez, Augusto Zanela, Mariano Sardón e Hernán Marina, além dos brasileiros Katia Maciel e André Parente, que também estão em cartaz na Fundación Telefônica, até 11 de junho, com a retrospectiva “Infinito Paisage”, em outra curadoria de Bousso. As duas exposições foram feitas por meio de uma iniciativa da Fundación Telefônica argentina, que se dedica exclusivamente à pesquisa de arte e tecnologia.
“Para nós faz todo sentido esse intercâmbio com o Brasil, pois a produção de vocês é de ponta, e já vínhamos trabalhando com vários artistas daí, como Eduardo Kac, e os próprios André Parente e Katia Maciel”, disse Alejandrina D’Elia, gerente do Espacio Fundación Telefonica, em Buenos Aires.

CENAS ANTOLÓGICAS
Na capital argentina, o casal de artistas brasileiros pode ser visto em 11 trabalhos. Entre eles, está “Circuladô”, de Parente, única presente tanto na mostra de Buenos Aires como na de São Paulo, onde ela ocupa o espaço central do MIS.
A obra é composta por uma série de cenas antológicas de cinema com personagens que ficam dando voltas em si mesmo e multiplicadas em formato circular, como o Corisco, de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.
O visitante pode, então, acionar um mecanismo no centro da sala, o que costuma ser chamado de arte interativa, escolhendo qual personagem ele quer que gire. Em Buenos Aires, contudo, está a obra mais complexa de Parente, “Visorama” (2010), uma sala que tem uma projeção com o Gabinete Real de Leitura, no Rio, e que, por meio de um binóculo suspenso por uma grua, o visitante pode percorrer o espaço, como se estivesse voando nele.
De forma geral, nas duas mostras, a técnica é sempre algo surpreendente, mas ela nem sempre consegue escapar de ser apenas um mostruário de novos aparatos sofisticados e complexos usados com boas ideias.


PERCEPTUM MUTANTIS
QUANDO de ter. a sáb., das 12h às 19h (quarta até 21h), dom., das 11h às 18h; até 8/5
ONDE Museu da Imagem e do Som (av. Europa, 158, SP, tel. 0/xx/11/ 2117-4777)
QUANTO R$ 4
CLASSIFICAÇÃO livre

O jornalista FABIO CYPRIANO viajou a convite da Fundação Telefônica.

Fonte: Folha de S. Paulo

Rio de Janeiro abre seleção para banco de pareceristas

A Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro acaba de lançar a Chamada Pública 06/2011, convocando pareceristas técnicos para a avaliação de projetos culturais inscritos na Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

O objetivo é completar o Banco de Pareceristas formado pela Chamada Pública 02/2010, selecionando 50 profissionais para atuarem nas seguintes áreas culturais: audiovisual, equipamentos culturais, cultura digital, informação e documentação, patrimônio cultural material e imaterial, gastronomia, moda e design.

Os candidatos devem comprovar ter no mínimo um ano de experiência na área de planejamento, administração e/ou produção da cultura.

Os selecionados serão responsáveis pelas atividades de análise e emissão de parecer técnico sobre projetos inscritos na Lei de Incentivo à Cultura, atuando nas áreas culturais para as quais se candidataram no ato da inscrição. Entre as oito áreas culturais descritas na Chamada Pública 06/2011, os candidatos podem escolher no máximo três, comprovando conhecimento e experiência nos segmentos selecionados.

As inscrições vão de 3 a 27 de maio.

Enquanto estiverem integrando o Banco de Pareceristas, os profissionais não poderão apresentar e/ou coordenar projetos patrocinados pela Lei de Incentivo à Cultura.

Mais informações no site http://www.cultura.rj.gov.br/leidoincentivo.

Fonte: Cultura e Mercado

SP: Abertas as inscrições do XV Congresso Brasileiro de Folclore – até 20/05 e 30/06

Estão abertas as inscrições para o XV Congresso Brasileiro de Folclore, realizado pela Comissões Nacional e Paulista de Folclore, com a produção da Abaçaí Cultura e Arte e apoio do Governo do Estado de São Paulo. O evento, que acontecerá entre os dias 11 e 15 de Julho no município de São José dos Campos, interior de São Paulo, reunirá 100 pesquisadores de todos os Estados para palestras, oficinas, vivências e apresentação de manifestações folclóricas diversas como dança, música, artes plásticas e literatura.

Com o tema História e Folclore: caminhos que se entrecruzam, e através de abordagens transdisciplinares, o XV Congresso visa a atualização, diversificação e entrecruzamento de estudos recentes com pesquisadores contemporâneos que investigam as peculiaridades atuais das culturas populares/tradicionais e o reconhecimento e a valorização da diversidade cultural, dos âmbitos da educação e de diversos segmentos das políticas públicas governamentais.

O Congresso contribuirá para o desenvolvimento de pesquisadores e estudiosos da cultura popular/tradicional e áreas afins, bem como outros produtores culturais, por meio do conhecimento, divulgação e discussão sobre os estudos de manifestações populares/tradicionais, suas diversas metodologias e áreas de pesquisa e ampliando e favorecendo a discussão dos novos paradigmas que norteiam o saber popular.

A partir do tema central do XV Congresso Brasileiro de Folclore, os eixos temáticos abordam Religiosidade; As políticas públicas; Patrimônio Imaterial da Cultura; Mesa Brasileira Tradicional; Cultura Popular e Turismo, Folguedos Populares; A música nossa em todos os sons; Literaturas; Arte e artesanato; Medicina popular.

Informações e programação completa sobre a composição das mesas e o curso de atualização para professores, estão disponíveis no site xvcongressodefolcloresp.org

Serviços:
XV Congresso de Brasileiro de Folclore
De 11 a 15 de Julho de 2011
São José dos Campos – São Paulo

Inscrições:
Até 20 de maio de 2011 (para participantes com trabalhos)
Até 30 de junho de 2011 (para participantes sem trabalhos)
E-mail: inscricao@xvcongressodefolcloresp.com

Valor:
R$ 50,00

Contatos
Imprensa: Diego Dionísio – 11 33122900 /11 96888412 imprensa@xvcongressodefolcloresp.com

Fonte: Blog Editais Culturais

Blog Stats

  • 167.125 hits